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Entre o direito de crescer e o risco de sair menor: reflexões sobre a guinada de Arnaldinho
Escrito por Vitor Vogas

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Primeira foto: julho de 2025; segunda foto: fevereiro de 2026
Primeira foto: julho de 2025; segunda foto: fevereiro de 2026

Agora que a folia acabou, a poeira abaixou e os confetes foram varridos das ruas, já não cabe dúvida alguma: é real, muito real, a aliança eleitoral firmada pelo prefeito de Vila Velha, Arnaldinho Borgo (PSDB), com o de Vitória, Lorenzo Pazolini (Republicanos). O próprio Arnaldinho confirmou que estará ao lado de Pazolini no processo eleitoral. Com o fato cristalizado, cabem algumas reflexões, especificamente, sobre o protagonista desse movimento que já entrou para a história da política capixaba e que pode redefinir os rumos das eleições deste ano no Estado: o prefeito de Vila Velha. Foi ele, afinal, quem deu o histórico salto político.

Do ponto de vista pragmático, Arnaldinho tem motivações plausíveis para ter dado esse salto acrobático no tabuleiro eleitoral. Por outro lado, é preciso registrar que também saltam do seu movimento, no mínimo, algumas incoerências entre o discurso atual do prefeito e o discurso bem recente dele mesmo. Também cumpre refletir sobre os riscos que o prefeito canela-verde está assumindo ao dar semelhante guinada. O maior deles tem a ver com imagem e reputação.

As motivações de Arnaldinho serão melhor desenvolvidas mais abaixo, ainda neste texto. Mas, de maneira bem concisa, sob condição de anonimato, aliados do prefeito chamam a atenção para três pontos:

I – O governador Renato Casagrande (PSB) queria impor um limite para Arnaldinho, determinando até onde ele poderia crescer nas eleições de 2026, em pleno auge de sua popularidade e de sua forma política. Ninguém tem o direito de fazer isso, e o prefeito se rebelou. “Na democracia, o poder não se reproduz em cativeiro”, declarou o próprio Arnaldinho, já externando seu incômodo, ao assumir a presidência estadual do PSDB, no dia 4 de dezembro;

II – Arnaldinho teria se sentido asfixiado pelo Palácio Anchieta, que, no ano passado, em mais de uma ocasião, teria agido nos bastidores para impedir que ele efetivamente viabilizasse sua pré-candidatura. O governo não facilitou, por exemplo, seu esforço para conseguir um partido político, até ele tomar, por cima – e à revelia do Palácio –, o controle do PSDB, no início de dezembro;

III – Arnaldinho e seus estrategistas estão convencidos de que Casagrande está insistindo em apostar no cavalo errado e que, com o vice-governador Ricardo Ferraço (MDB), o governo perderá a eleição.

Entretanto, por mais legítimas que sejam as motivações do prefeito de Vila Velha, há um fato incontornável que se impõe: a mudança de lado.

Até o início deste mês, Arnaldinho era um dos maiores aliados do grupo político de Casagrande e Ricardo Ferraço. Por livre e espontânea vontade, decide unir forças com o maior adversário político desse mesmo grupo. Faz um pacto eleitoral com Pazolini. E de repente passa a ombrear, em uma série de atividades de pré-campanha, com o maior rival do grupo do qual ele próprio fazia parte até outro dia.

Não se trata apenas de ter se desligado do projeto de Casagrande e Ricardo, para alçar um voo solo, independente. Estamos falando de uma aliança com um grupo de oposição – o qual inclui agentes políticos como o deputado federal Evair de Melo (PP), de maneira ostensiva, e o ex-governador Paulo Hartung (PSD), de forma muito mais indireta.

O cotejo de gestos e declarações recentes do prefeito de Vila Velha com um conjunto de gestos e declarações dadas por ele ao longo de todo o ano passado revela alguma contradições. E o distanciamento entre sua posição atual e a mantida até pouco tempo atrás.

Sobretudo no ano passado, Arnaldinho fez uma série de movimentos muito fortes no mesmo sentido: o de que estava junto com Casagrande e Ricardo e o de que seguiria junto com eles durante o processo eleitoral. Em julho, após ato público na Praça Duque de Caxias (simbolicamente, o coração da cidade de Vila Velha), ao lado do governador e do vice, o prefeito declarou, literalmente: “Caminharemos unidos”.

No dia 30 de julho, publicamos a declaração dele à coluna: “Fui convidado pelo governador para uma reunião no Palácio juntamente com o vice-governador. Foi uma conversa política sobre o futuro. Acertamos, sob a liderança de Casagrande, que iremos caminhar unidos no processo sucessório do ano que vem”.

O sinal ao mercado político não podia ter sido mais translúcido: havia um pré-compromisso firme entre eles três de caminharem juntos no processo eleitoral.

Na última entrevista à coluna, publicada aqui na sexta-feira (20), Arnaldinho afirmou, sobre Ricardo: “Eu nunca declarei que estaria com ele”. De fato, ele nunca declarou o compromisso de apoiar Ricardo após este ter sido anunciado por Casagrande como seu candidato à sucessão, no dia 18 de dezembro.

Antes disso, porém, Arnaldinho chegou a dar declarações públicas indicando a predisposição de se manter no mesmo grupo independentemente da escolha de Casagrande. Admitiu, inclusive, atuar como cabo eleitoral do candidato da situação em Vila Velha, se não fosse ele o escolhido pelo governador.

No dia 26 de novembro, o prefeito concedeu uma entrevista exclusiva à coluna. Reproduzo o trecho a seguir:

O senhor diz “todos juntos, numa grande aliança”. A propósito disso, e uma eventual candidatura a vice-governador em uma chapa encabeçada por Ricardo? Isso está no seu radar? O senhor está considerando essa hipótese?

Eu não considero essa hipótese. Não é por causa de vaidade, é porque eu acredito que talvez eu não vou contribuir como vice. Neste momento eu acredito nisso. E também porque eu tenho a cidade de Vila Velha para tocar. Então, não é vaidade, não é sapato alto, é pé no chão, é entender que eu posso contribuir como governador. Mas também posso ajudar o nome, se eu não for candidato. E, se for o Ricardo, será ele que será ajudado.

Como um apoiador? Como cabo eleitoral?


Com toda a certeza, igual eu fiz com o Renato Casagrande em 2022.

No dia 4 de dezembro, ao assumir a presidência estadual do PSDB, Arnaldinho garantiu, em entrevista coletiva, a manutenção de seu compromisso de apoiar Casagrande para uma das vagas no Senado, independentemente da eleição para o Governo do Estado.

Na entrevista da última sexta-feira (20), o prefeito já não deu tanta certeza: “Até o momento, sim, mas a gente tem ainda um processo eleitoral. O processo eleitoral é que vai demandar as alianças políticas, se ele vai estar no mesmo palanque… se não estiver, não pode pedir [votos para ele]”.

Tudo considerado, o maior risco para Arnaldinho, ao dar salto de tal magnitude, é o de sair com a pecha de político inconsistente, de palavra pouco confiável… Aquele sobre quem, nas articulações com os demais, pode passar a pairar um “será?” ou um “senão”…

Na política, como dizem, ninguém assina contrato; a palavra do indivíduo é tudo. E todo acordo, em essência, deve ser à prova de eventuais mudanças de conjuntura.

Ora, com tantos “reposicionamentos” em intervalos tão curtos, o prefeito, sem o perceber, pode estar a forjar para si mesmo a imagem de um líder cujo discurso transmite pouca segurança ao mercado político, cuja palavra se dobra com o vento, conforme se alterem as circunstâncias.

Perseguir sonhos e aspirações, sem permitir que terceiros lhe imponham limites, é mais que legítimo… Ninguém poderia negar esse direito a Arnaldinho. Mas a mudança de rota escolhida neste caso é tão extrema que o grande risco para ele é o de, querendo crescer, acabar saindo menor… ao menos em termos de confiabilidade.

Eis um ponto que merece a atenção do prefeito de Vila Velha, em sua promissora e ascendente trajetória na vida pública.

As motivações de Arnaldinho

1. Pelo direito de crescer sem régua alheia

Segundo aliados de Arnaldinho, ele estava se sentindo “sufocado” dentro do grupo do governador; sem espaço real para se viabilizar eleitoralmente; com seu potencial de crescimento tolhido, delimitado pelo aliado mais forte, como se coubesse a Casagrande predeterminar até onde ele pode crescer.

Episódio emblemático: no dia 21 de maio, quando Arnaldinho ameaçou tomar o PSD, Casagrande deu a este espaço uma entrevista dizendo que o prefeito poderia dialogar com quem quisesse, desde que dentro do seu espectro de aliados:

“Se Arnaldinho se movimentar em direção a aliados, mesmo não tendo um script combinado, está dentro de um comportamento normal. Nós temos hoje aliados e adversários. Todos sabem quem são os nossos aliados e quem são os nossos adversários. Então, se o movimento for dentro de um ambiente de aliados, é um comportamento normal.”

É muito sintomático que, no último dia 12, Arnaldinho tenha postado uma foto com Pazolini, em collab, em pleno Carnaval de Castelo, cidade natal de Casagrande, com a legenda “Liberdade, liberdade / Abre as asas sobre nós”.

Ironicamente, o PSD de Paulo Hartung acaba de fechar com a dupla Arnaldinho e Pazolini.

2) Dificuldades vindas do próprio governo

Ainda segundo interlocutores do prefeito, ele guarda certa mágoa pela maneira como sua pré-candidatura foi tratada pelo Palácio Anchieta ao longo do ano passado. A sensação era a de que o Palácio lhe dava com uma mão e lhe tirava com a outra.

Casagrande passou o ano a repetir que Arnaldinho era um dos pré-candidatos do seu grupo; como num jogo de “resta um”, seguiu incluindo o nome do prefeito até o fim, isto é, até anunciar Ricardo como seu pré-candidato oficial, em 18 de dezembro. Mas, ao mesmo tempo que o governador não descartava a postulação de Arnaldinho, algumas ações de bastidores dificultavam muito, na prática, qualquer chance de viabilização.

O prefeito, por exemplo, enfrentou uma dificuldade homérica para encontrar um partido político, e o Palácio nada fez para ajudá-lo. Emblematicamente, quando Arnaldinho esteve a um passo de se filiar ao PP e chegou a ser levado pelo deputado Da Vitória ao encontro de Ciro Nogueira, o União Brasil correu para lhe fechar a porta.

Se Arnaldinho entrasse no PP, automaticamente viraria o pré-candidato da Federação União Progressista (União Brasil + PP) a governador do Estado. Isso não interessava ao Palácio, que queria, e segue querendo, essa grande federação apoiando Ricardo.

Poucos dias depois, dois notórios apoiadores de Ricardo, Euclério Sampaio e Marcelo Santos, entraram em campo, em movimento que teve o dedo do Palácio Anchieta e que, na prática, barrou a entrada de Arnaldinho no PP.

No fim de setembro, Euclério procurou a imprensa, declarou ter sido convidado por Marcelo para entrar no União Brasil e disse que topava se filiar com duas condições. A primeira era a garantia de legenda para ele ser candidato a senador. A segunda era o apoio da Federação União Progressista à candidatura de Ricardo ao Palácio Anchieta. Sem o aceite do União Brasil, a filiação de Arnaldinho ao PP praticamente morreu ali.

Passados cinco meses, Euclério decidiu que não vai para o União Brasil nem a lugar algum: seguirá no MDB, com Ricardo. Aliás, no próximo sábado (28), os dois devem ser eleitos para comandar o novo Diretório Estadual do MDB (Ricardo na presidência e Euclério na 1ª vice-presidência).

Mas há outros episódios, digamos, mais triviais. No dia 8 de junho, mesmo ainda sem partido, Arnaldinho ameaçou “botar as asinhas de fora” e começar a fazer o que tanto Pazolini quanto Ricardo já faziam havia meses: percorrer o interior do Estado.

Um dos primeiros municípios visitados por ele foi Muqui. Ele e sua comitiva foram recebidos pelo prefeito Sergio Luiz Anequim (PL). No dia seguinte, o prefeito correu às redes sociais para declarar apoio eleitoral a Ricardo. O recado foi muito claro. O limite, estabelecido. Arnaldinho não foi visto mais andando por aí, pelo menos até agora, após “fechar” com Pazolini.

3) Caminho mais aberto para o Senado

Arnaldinho acredita de verdade que possa ser ele o candidato a governador no movimento com Pazolini, no lugar do prefeito de Vitória, que viria a senador. Mas, se isso não for possível, ele está também disposto a ser candidato ao Senado.

Mesmo para viabilizar o plano B de concorrer ao Senado, Arnaldinho vê mais espaço na coligação de Pazolini do que na coligação governista, a ser encabeçada por Ricardo. Há duas vagas em disputa por estado, o que significa que cada coligação poderá lançar até dois candidatos.

Na do Palácio Anchieta, já há uma superlotação. O próprio Casagrande tende a ser candidato ao Senado. A outra vaga tem pretendentes que já estão ali há algum tempo, como Da Vitória e Euclério.

Já na coligação do Republicanos (a de Pazolini), o caminho está bem mais livre. Pré-candidato a senador mesmo, não há nenhum no momento – tirando Manato, que pretende entrar no próprio Republicanos. Mas a preferência total será dada a Arnaldinho, pelas bases do acordo firmado entre os dois prefeitos.

4) Aposta na derrota do candidato oficial

Arnaldinho aposta contra a eleição de Ricardo Ferraço. Está convicto de que os capixabas anseiam por renovação no governo e que Ricardo, mesmo como governador, não tem chances de triunfar. Escolheu o lado que ele sente que será o lado vitorioso.

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