
Vivemos em tempos de solidão. Muitos são os lares que têm apenas um morador, em qualquer classe social, sobretudo nos países mais ricos. Quando os que vivem sozinhos são jovens e saudáveis, trata-se apenas de uma opção, uma escolha. Entretanto, quando a solidão pesa, incomoda e atormenta, sobretudo entre os idosos, buscam-se formas de conviver com essa situação.
No mundo atual as redes sociais passaram a ser essa companhia invisível, entretanto muito presente. Em um país como o nosso, as pessoas estão em permanente interação com esse mundo que o celular coloca na palma das nossas mãos e à altura dos nossos olhos.
Vamos falar um pouco da nossa trajetória social na solidão. No mundo antigo, cada moradia abrigava uma família extensa, composta de várias gerações: avós, filhos, netos e um conjunto de agregados, como sobrinhos, afilhados e filhos de amigos. Não havia mesmo esse conceito tão caro e natural aos nossos dias: o da vida privada. O ambiente familiar envolvia a todos, que acabavam compartilhando dos momentos de intimidade, pois que tudo era vivido de forma mais coletiva. O conceito de família era amplo e a possibilidade de comportamentos desviantes era sempre punida.
Não sei se a minha leitora e o meu leitor sabem, mas as camas nas casas do mundo antigo eram coletivas. Nelas dormia toda a família e, nas noites frias de inverno, incluíam-se até os animais domésticos, como patos, galinhas, cachorros. Era uma forma de espantar o frio, mas que, evidentemente, impedia qualquer privacidade nas relações sexuais dos donos da casa: tudo era feito na presença de todos. É bom também lembrar que na idade média europeia os banhos eram anuais. O banho semanal, geralmente aos sábados, só foi adotado na maioria dos países em pleno século XIX. Difícil imaginar um romantismo assim.
Dentro desse conceito abrangente de família tudo era compartilhado: refeições, banhos, punições, até porque o chefe desse clã numeroso era também o provedor de todas as despesas. Havia uma dependência muito grande em torno dessa figura e também um padrão de socialização de comportamentos muito rigoroso. Lentamente, através os séculos, isso foi mudando. A sociedade urbana permitiu mais flexibilidade nos estilos de vida, os novos padrões de higiene e de saúde pública também se estabeleceram.
A partir sobretudo da segunda metade do século XX as pessoas foram ficando mais autônomas, desmembrando-se do núcleo familiar que as prendia até então. As grandes cidades se impuseram em todos os continentes e a vida urbana trouxe várias mudanças. Como consequência, passamos a conviver com um universo de novas configurações familiares, onde os papéis de gênero foram redefinidos e a noção da autoridade mudou muito.
Nesse novo padrão de comportamento a velha família patriarcal dos velhos tempos ficou mesmo no passado. Os filhos se desprendem muito mais cedo em busca de seus projetos de vida, assim a solidão passou a ter papel definitivo na noção de felicidade. Nem todos querem perder sua autonomia, por isso muitas pessoas passaram a viver sós, de forma espontânea ou mesmo por imposição de novas circunstâncias. Agora outras formas de ocupar o tempo se impõem, ou novas formas de conviver com a solidão, querida e temida ao mesmo tempo.
A jornalista Ruth de Aquino, na sua coluna em O Globo, assinalou, há algumas semanas, que o principal uso da Inteligência Artificial hoje se dá como companhia e terapia. O divã de terapeutas robôs atrai, segundo a autora, milhões de pessoas no mundo todo, sobretudo jovens de 18 a 24 anos. Sem muito dinheiro pagar psicanalista, insones na madrugada, sem ninguém com quem conversar, ficam prisioneiros da depressão e da ansiedade e querem disponibilidade às três horas da manhã.
Para Ruth de Aquino, a IA explora a carência emocional e – acrescento eu – os donos do poder nas redes sociais já descobriram que existe uma espécie de “economia da solidão”, uma forma pouco ética de faturar com a carência de milhões de pessoas, oferecendo uma multiplicidade de produtos. A tecnologia, em princípio fria e desprovida de humanidade, passa a ser o centro de uma sociedade que tem pouco a oferecer aos que sofrem com as consequências do mundo contemporâneo. Não ouso dizer que os antigos eram mais felizes, afinal a liberdade não tem preço, mas o progressivo processo de desumanização das relações é algo que deveria nos preocupar.





