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Quando a urna permanece, mas a liberdade se ajoelha

Há países em que a urna continua de pé, mas a cabeça do cidadão precisa permanecer baixa. Vota-se, mas pensa-se com medo. Empreende-se, mas propriedade e contrato dependem da instabilidade política. O primeirosintoma do fracasso institucional não é o fim das eleições. É a perda lenta daliberdade de pensar, criticar, investir e discordar.

Colômbia e Bolívia expõem uma ferida recorrente da América Latina: aconfusão entre democracia como rito eleitoral e democracia como vida livre sob a proteção da lei. O voto é indispensável, mas não basta. Uma sociedadesó é verdadeiramente democrática quando o cidadão pode produzir sem coerção e confiar que regras, contratos e direitos não serão dobrados pela força das ruas, das armas ou do poder estatal.

Na Colômbia, a violência entrou pela porta da campanha. Rogers Devia, ex-prefeito de Cubarral e coordenador regional de Abelardo de La Espriella, foi morto junto de Eder Cardona em região disputada por grupos armados. As autoridades ainda investigam a motivação. Mas o dano institucional já existe. Quando candidatos e eleitores calculam o risco físico de participar da política, a eleição deixa de ser competição de ideias e vira disputa sob intimidação.

O quadro se agrava porque a Colômbia convive com poderes paralelos. A política de “Paz Total” do governo Gustavo Petro nasceu como tentativa legítima de negociar com guerrilhas e organizações criminosas. O problema está nos resultados. Segundo a Fundação Ideas para la Paz, os grupos armados chegaram a cerca de 27.000 combatentes em 2026, expansão expressiva desde 2022, com cessar-fogos frágeis que permitiram ampliar território e controle social, afetando diretamente investimentos e contratos nas regiões afetadas.

Na Bolívia, protestos liderados por sindicatos, mineiros e grupos rurais pressionam o governo de Rodrigo Paz contra medidas de austeridade. Parte das mobilizações é atribuída a setores ligados ao ex-presidente Evo Morales, tornando o quadro politicamente mais complexo.  Manifestar-se é direito democrático. Mas bloqueios que causaram escassez de alimentos, combustíveis e oxigênio hospitalar, drenando mais de US$ 50 milhões por dia da economia boliviana, pertencem a outra categoria. É a substituição da persuasão pela coerção.

É nesse ponto que Por que as Nações Fracassam, de Acemoglu e Robinson, ajuda a interpretar o problema. O fracasso institucional raramente começa com grandes anúncios. Começa quando a lei deixa de valer para todos e a crítica vira risco. Para o empresário e o executivo financeiro, isso não é abstração. Onde não há Estado de Direito, o investimento encarece, o crédito se retrai e o empreendedor deixa de calcular oportunidade para calcular sobrevivência. Liberdade civil é a infraestrutura invisível da economia.

Os dados globais reforçam o alerta. A Freedom House registrou o 20º ano consecutivo de queda da liberdade no mundo em 2025. O V-Dem apontou a liberdade de expressão como o componente com deterioração mais expressiva, em declínio em 44 países na comparação com 2015. Autoritarismos modernos nem sempre começam fechando urnas. Muitas vezes começam tornando caro demais discordar.

A América Latina não precisa escolher entre ordem autoritária e caos de rua. Precisa de democracia substancial, com voto, lei, imprensa livre, propriedade segura e justiça independente. Uma nação não fracassa apenas quando deixa de votar. Começa a fracassar quando o voto permanece, mas a liberdade, a lei e a consciência já não conseguem respirar.

Este texto expressa a opinião do autor e não traduz, necessariamente, o posicionamento do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças do Espírito Santo, bem como da organização à qual esteja vinculado profissionalmente.

Guilherme Machado – Analista de Dados da Globalsys e Membro do IBEF Academy.

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O Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças do Espírito Santo (IBEF-ES) é a principal entidade que reúne empresários e executivos de finanças do estado. Com o compromisso de fortalecer o ecossistema financeiro, econômico e de gestão empresarial capixaba, une forças para gerar conhecimento, fomentar conexões e impulsionar entregas relevantes para o mercado.

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