A decisão do Vaticano de excomungar bispos ligados à Fraternidade Sacerdotal São Pio X voltou a chamar atenção para um termo pouco conhecido fora da Igreja Católica: a excomunhão. A medida, anunciada pela Santa Sé nesta quinta-feira (2), significa que os envolvidos deixam de estar em comunhão com a Igreja e ficam impedidos de participar plenamente da vida sacramental católica.
No Espírito Santo, entretanto, a decisão não tem impacto direto. Segundo a Diocese de Vitória, não há presença da Fraternidade Sacerdotal São Pio X no Estado. A excomunhão foi aplicada após a Fraternidade realizar, na Suíça, a consagração de quatro novos bispos sem autorização do Papa Leão XIV. Para a Santa Sé, o ato configura um cisma, ou seja, uma ruptura da comunhão com a Igreja Católica.
Para esclarecer o significado da medida, o monsenhor Dalton Meneses Penedo, da Diocese de Cachoeiro de Itapemirim, explica que a excomunhão não é uma expulsão definitiva da Igreja, mas uma sanção prevista pelo Código de Direito Canônico para situações consideradas extremamente graves.
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“Desde Dom Marcel Lefebvre, fundador da Fraternidade, os papas fizeram inúmeras tentativas de reconduzir esse grupo à plena comunhão. Houve diálogos, gestos de aproximação e diversos esforços ao longo dos anos. Infelizmente, eles permaneceram irredutíveis”, afirmou.
Segundo o sacerdote, a legislação da Igreja determina que nenhum bispo pode ser ordenado sem autorização do Papa. “O próprio Direito Canônico estabelece que quem ordena bispos sem o mandato apostólico e aqueles que são ordenados nessas condições ficam excluídos da comunhão da Igreja. Nesse caso, isso alcança também os sacerdotes da Fraternidade São Pio X”, explica.
O que é a excomunhão?
De acordo com monsenhor Dalton, a excomunhão é considerada uma pena medicinal, aplicada com o objetivo de incentivar a conversão e o retorno à comunhão da Igreja.
“As penas canônicas são sempre medicinais. Elas existem para chamar a atenção sobre a gravidade do ato cometido e favorecer o retorno da pessoa à comunhão da Igreja. Não se trata simplesmente de um castigo”, esclarece.
Na prática, a pessoa excomungada perde o direito de participar plenamente da vida sacramental da Igreja.
“Excomunhão significa estar privado da vida espiritual da Igreja. Vivemos da graça de Deus em comunhão uns com os outros, naquilo que chamamos de comunhão dos santos. Quem rompe essa comunhão se coloca numa situação de recusa da própria graça de Deus e se afasta dessa vida espiritual compartilhada por toda a Igreja.”
Quais são as consequências?
Além dos bispos envolvidos nas consagrações, a Santa Sé informou que os ministros ordenados da Fraternidade permanecem em situação de cisma. Já os fiéis leigos somente são considerados cismáticos e excomungados quando aderem formalmente ao grupo, conforme prevê o Direito Canônico.
Monsenhor Dalton destaca ainda que há reflexos na validade de alguns sacramentos.
“Segundo a nota do Dicastério, os sacramentos administrados por esses ministros são ilícitos e, no caso da confissão e dos matrimônios assistidos por eles, são inválidos. Isso significa que quem procura esses sacramentos não recebe validamente a absolvição nem celebra validamente o matrimônio.”
Espírito Santo não possui atuação da Fraternidade
Apesar da repercussão internacional do decreto, a Diocese de Vitória informou que a Fraternidade Sacerdotal São Pio X não possui presença no Espírito Santo. Assim, não há comunidades ou igrejas ligadas ao grupo em funcionamento no Estado.
Para monsenhor Dalton, a decisão representa um momento de tristeza para a Igreja Católica, sobretudo após décadas de tentativas de reconciliação entre o Vaticano e a Fraternidade.
“É um momento muito triste para a vida da Igreja. Passei o dia rezando pela unidade. Enquanto o Papa insiste constantemente na paz, na comunhão e na superação das divisões, acontece uma ruptura como essa dentro da própria Igreja. É um contratestemunho para o mundo.”
Ele também criticou a postura adotada pelos líderes da Fraternidade durante as consagrações.
“Houve manifestações de orgulho, arrogância e agressividade. Eles se apresentam como se fossem os únicos guardiões da verdadeira tradição da Igreja, quando, na realidade, rejeitam a autoridade do sucessor de Pedro. A verdadeira tradição da Igreja nunca se opõe ao Papa.”


