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Independente de quem assumir, o Brasil precisa enfrentar desafio fiscal
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À medida que nos aproximamos de mais um ciclo eleitoral, o debate político naturalmente ganha espaço. Surgem promessas, discursos e diferentes visões sobre os rumos do país. No entanto, existe uma realidade econômica que permanecerá independentemente de quem vença as eleições e assuma a Presidência da República no próximo ano: o Brasil precisará enfrentar seu problema fiscal.

Hoje, a dívida bruta do governo brasileiro já supera 80% do PIB, um patamar elevado para um país emergente. Mais preocupante do que o número atual é a trajetória dessa dívida. Diversos economistas e instituições financeiras alertam que, mantida a dinâmica atual de gastos e déficits, a relação dívida/PIB pode se aproximar de 100% nos próximos anos, possivelmente já em 2027. Trata-se de um nível que aumenta significativamente a percepção de risco do país e reduz sua capacidade de crescer de forma sustentável.

O problema fiscal não é uma pauta de direita ou de esquerda. É uma questão matemática. Quando o governo gasta sistematicamente mais do que arrecada, a dívida cresce. Quanto maior a dívida, maior o custo para financiá-la. Isso se traduz em juros elevados, menor capacidade de investimento público e menor competitividade para a economia como um todo.

O mais frustrante é que o Brasil possui condições excepcionais para atrair investimentos e acelerar seu desenvolvimento. Somos uma potência agrícola, energética e mineral. Poucos países no mundo reúnem tantas vantagens competitivas ao mesmo tempo. Além disso, o Brasil possui a segunda maior reserva de terras raras do planeta, minerais estratégicos fundamentais para a produção de baterias, semicondutores, veículos elétricos, equipamentos militares e tecnologias ligadas à transição energética. Em um mundo cada vez mais dependente desses recursos, essa é uma vantagem geopolítica de enorme relevância.

Ao mesmo tempo, existe atualmente um grande volume de capital internacional buscando oportunidades de investimento. Fundos soberanos, gestoras globais e investidores institucionais administram trilhões de dólares que precisam ser alocados em projetos produtivos ao redor do mundo. O Brasil, pelo tamanho de seu mercado, abundância de recursos naturais e potencial de crescimento, poderia ser um dos principais destinos desse fluxo.

Entretanto, o capital não busca apenas retorno. Ele busca previsibilidade. Para que esse dinheiro chegue em maior intensidade ao país, é necessário oferecer segurança fiscal e segurança jurídica. Investidores precisam confiar que as regras serão respeitadas, que contratos serão cumpridos e que as contas públicas caminham para uma trajetória sustentável no longo prazo.

A verdade é que o Brasil não sofre por falta de potencial. Sofre por não conseguir transformar esse potencial em confiança. O mundo tem interesse no Brasil. Há recursos disponíveis para financiar infraestrutura, energia, mineração, tecnologia e agronegócio. O que falta é criar um ambiente em que o investidor se sinta seguro para permanecer por décadas.

Por isso, independentemente de quem assumir o país em 2027, o principal desafio continuará sendo o mesmo: restaurar a credibilidade fiscal, estabilizar a trajetória da dívida pública e fortalecer a segurança jurídica. Sem isso, continuaremos desperdiçando oportunidades. Com isso, o Brasil tem todas as condições para atrair investimentos, acelerar seu crescimento e ocupar uma posição muito mais relevante na economia global. O futuro econômico do país dependerá menos de quem governa e mais da capacidade de enfrentar, com responsabilidade e pragmatismo, os problemas estruturais que há anos limitam nosso desenvolvimento.


Sobre o autor

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Ian Lopes é economista e sócio da Valor Investimentos.

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