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Kiribati sonha com Copa antes de ser engolido pelo oceano

Ameaçado pela elevação do nível do mar, país do Pacífico faz apelo internacional para desenvolver o futebol e tentar disputar a Copa do Mundo de 2030

Foto: Getty Images

Enquanto as principais seleções do planeta se preparam para a Copa do Mundo de 2026, uma pequena nação do Oceano Pacífico trava uma corrida contra o tempo por um objetivo muito maior do que a classificação para um torneio de futebol. As Ilhas Kiribati, país formado por 33 ilhas e atóis de coral, sonham em disputar uma Copa do Mundo antes de correrem o risco de desaparecer do mapa em consequência das mudanças climáticas.

A Federação de Futebol de Kiribati (KIFF) lançou um apelo à comunidade internacional para atrair dirigentes, treinadores, ex-jogadores e profissionais do futebol dispostos a colaborar com o desenvolvimento da modalidade no país. O objetivo é estruturar uma seleção competitiva e tentar alcançar uma vaga na Copa do Mundo de 2030, ao mesmo tempo em que busca chamar a atenção para os impactos da crise climática enfrentada pelas populações insulares do Pacífico.

Com pouco mais de 100 mil habitantes, Kiribati é considerado um dos países mais vulneráveis aos efeitos da elevação do nível dos oceanos, fenômeno diretamente associado ao aquecimento global.

País pode desaparecer nas próximas décadas

Localizado no centro do Oceano Pacífico, Kiribati é conhecido por ser uma das primeiras nações do mundo a celebrar a chegada do Ano Novo devido à sua posição geográfica e ao fuso horário.

O arquipélago possui 33 ilhas espalhadas por uma vasta área marítima. Dessas, apenas 12 são habitadas permanentemente. A principal delas é Tarawa do Sul, onde vive a maior parte da população e que enfrenta problemas relacionados à superpopulação e à escassez de espaço urbano.

O maior desafio, porém, é ambiental. Grande parte do território de Kiribati está apenas alguns metros acima do nível do mar. Com o avanço dos oceanos, o país já enfrenta problemas como erosão costeira, inundações frequentes, contaminação de aquíferos por água salgada e deslocamento de comunidades inteiras.

Especialistas alertam que partes significativas do território podem se tornar inabitáveis nas próximas décadas. Algumas projeções indicam que o país poderá enfrentar graves dificuldades de permanência de sua população dentro de 10 a 15 anos.

Foto: Google Maps

Futebol como ferramenta de conscientização

Diante desse cenário, a Federação de Futebol de Kiribati pretende utilizar o esporte como uma plataforma global para ampliar o debate sobre os impactos das mudanças climáticas.

A entidade entende que uma eventual participação em uma Copa do Mundo teria potencial para dar visibilidade internacional à situação enfrentada pelas comunidades do Pacífico.

O presidente da federação, Eriati Reebo, explicou que a iniciativa vai além da busca por resultados esportivos.

— A ideia atrás do projeto é simples: começar uma conversa global, mais do que simplesmente pedir para participar da Copa. O objetivo é chamar a atenção para a urgência da realidade enfrentada por países como Kiribati. A Copa do Mundo de 2030 representa uma oportunidade única para alertar sobre a piora do clima no Pacífico. O que acontece quando uma nação inteira desaparece, mas sua população, cultura e sonhos ainda existem? — questionou.

Segundo a federação, o desenvolvimento do futebol poderia servir como uma ponte entre a realidade vivida pelos habitantes de Kiribati e milhões de pessoas ao redor do mundo.

País ainda não faz parte da Fifa

Apesar de possuir uma seleção nacional e competições locais, Kiribati ainda não integra oficialmente a Fifa, entidade máxima do futebol mundial.

O país é reconhecido internacionalmente pela Organização das Nações Unidas (ONU), mas ainda não reúne todos os requisitos exigidos para filiação ao sistema internacional do futebol.

Atualmente, Kiribati mantém diálogo com a Confederação de Futebol da Oceania (OFC) para ampliar sua participação em competições regionais e fortalecer sua estrutura esportiva.

Entre os desafios estão a necessidade de desenvolver uma federação mais robusta, ampliar os campeonatos domésticos, criar programas de formação de atletas e melhorar a infraestrutura esportiva disponível.

O isolamento geográfico do país e as limitações financeiras tornam esse processo ainda mais complexo.

Seleção reúne atletas que vivem dentro e fora do país

Mesmo sem filiação à Fifa, Kiribati mantém uma seleção nacional.

Grande parte dos jogadores vive na capital Tarawa, enquanto outros atuam ou residem em países como Austrália, Nova Zelândia e Fiji.

A diáspora kiribati cresceu nos últimos anos em razão das oportunidades de estudo, trabalho e também dos efeitos das mudanças climáticas, que têm levado famílias inteiras a migrarem para outras regiões da Oceania.

A intenção da federação é ampliar essa rede de atletas e profissionais para fortalecer o futebol local e aumentar as chances de reconhecimento internacional.

Foto: Divulgação/Federação de Futebol de Kiribati

ONU apoia iniciativa de conscientização

O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) apoia as iniciativas de conscientização desenvolvidas por Kiribati sobre os efeitos da crise climática.

Embora não exista atualmente um projeto específico entre a ONU e a Fifa voltado para a situação do país, o organismo internacional reconhece o potencial do esporte como ferramenta de mobilização social.

A chefe do Departamento de Adaptação e Resiliência da Divisão de Mudanças Climáticas do PNUMA, Mirey Atallah, destacou a importância das grandes plataformas esportivas para ampliar a visibilidade do problema.

— Do ponto de vista do PNUMA, plataformas esportivas globais — incluindo o futebol — oferecem oportunidades importantes para ampliar a visibilidade dos riscos climáticos existenciais que atingem países vulneráveis como Kiribati, particularmente em relação à elevação do nível do mar, erosão costeira e degradação dos ecossistemas — afirmou.

Um dos países que menos poluem é um dos mais ameaçados

Um dos aspectos mais emblemáticos da situação de Kiribati é que as nações insulares do Pacífico respondem por apenas 0,02% das emissões globais de gases de efeito estufa.

Mesmo contribuindo minimamente para o problema, essas comunidades estão entre as mais afetadas pelos impactos das mudanças climáticas.

Atualmente, as principais prioridades de adaptação do país incluem a construção de barreiras costeiras, a proteção dos recursos hídricos, a preservação dos meios de subsistência da população e a adaptação da infraestrutura urbana ao novo cenário climático.

Enquanto busca soluções para garantir sua sobrevivência física, Kiribati também tenta preservar sua identidade nacional. Nesse contexto, a classificação para uma Copa do Mundo deixou de ser apenas um sonho esportivo e passou a representar uma forma de manter viva a história, a cultura e a existência de um país ameaçado pelo avanço dos oceanos.

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