Engenharia no Dia a Dia
Expansão imobiliária e o desafio do custo de vida na Grande Vitória
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Filipe Machado

Engenheiro Civil e Ambiental, Técnico em Edificações e pós-graduado em Gerenciamento de Projetos pela FGV. Atua há mais de 14 anos nas áreas de perícias de engenharia, auditorias técnicas, consultorias especializadas, inspeções prediais e gestão de obras. É Diretor-Geral da Mútua-ES (Gestão 2025–2027), ex-conselheiro do CREA-ES e ex-coordenador nacional do CDER no Sistema Confea/Crea.

A Grande Vitória vive hoje um dos maiores ciclos de crescimento imobiliário das últimas décadas. Novos empreendimentos, valorização urbana, expansão viária, investimentos privados e melhora da percepção econômica do Espírito Santo têm movimentado fortemente o setor da construção civil.

Por um lado, isso é extremamente positivo. A construção gera empregos, aquece a economia, movimenta fornecedores, amplia arrecadação e contribui para o desenvolvimento das cidades. Além disso, novos empreendimentos ajudam a modernizar bairros, melhorar infraestrutura e atrair investimentos.

Mas existe um ponto que vem preocupando cada vez mais a população: o aumento acelerado do custo de vida e, principalmente, dos aluguéis.

Hoje já é possível perceber famílias deixando bairros onde viveram durante anos porque simplesmente não conseguem mais acompanhar a valorização imobiliária. Em algumas regiões da Grande Vitória, o aluguel subiu muito acima da renda média da população. E isso cria um efeito em cadeia: aumento do custo de moradia, deslocamento para regiões mais afastadas, maior tempo no trânsito e pressão sobre a infraestrutura urbana.

A expansão imobiliária não pode ser analisada apenas pelo número de prédios construídos ou pelo valor do metro quadrado. Precisamos discutir também qual cidade estamos construindo e para quem ela está sendo construída.

Existe ainda um fenômeno importante acontecendo: muitos empreendimentos estão sendo direcionados para públicos de maior renda, investidores e imóveis compactos voltados à rentabilidade. Isso muda o perfil urbano das cidades e impacta diretamente quem busca moradia real e não apenas investimento.

Outro ponto técnico importante é que o aumento do valor dos imóveis não acontece apenas pela especulação. O setor também enfrenta forte aumento de custos de construção: mão de obra mais cara, materiais com alta acumulada nos últimos anos, exigências técnicas maiores, normas de desempenho, custos ambientais, regularizações e infraestrutura urbana. Tudo isso impacta diretamente no preço final.

O desafio está justamente em encontrar equilíbrio.

A Grande Vitória precisa crescer, evoluir e atrair investimentos. Mas esse crescimento precisa ser planejado para evitar que o desenvolvimento urbano se transforme em exclusão urbana.

Precisamos discutir:

  • mobilidade urbana;
  • habitação acessível;
  • ocupação inteligente;
  • adensamento planejado;
  • infraestrutura;
  • incentivos para moradia;
  • revitalização de áreas urbanas;
  • e qualidade construtiva.

O crescimento imobiliário saudável é aquele que valoriza a cidade sem expulsar as pessoas dela.

Como engenheiro, vejo que o debate não deve ser “ser contra ou a favor” da expansão imobiliária. O ponto central é como fazer esse crescimento acontecer de maneira sustentável, equilibrada e socialmente responsável.

Porque cidade boa não é apenas a cidade que cresce.

É a cidade onde as pessoas conseguem continuar vivendo com qualidade.

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