A atuação de uma organização criminosa que invadia e revendia terrenos de forma ilegal em Vila Velha levou à prisão de cinco pessoas e revelou um esquema que movimentou milhões de reais. A investigação da Polícia Civil do Espírito Santo aponta que o grupo agia há anos no bairro Pontal das Garças, com avanço mais intenso a partir da pandemia, quando proprietários passaram a frequentar menos os imóveis.
Segundo o Departamento Especializado de Investigações Criminais, o esquema se estruturava a partir da identificação de terrenos sem escritura. A partir disso, os criminosos ocupavam as áreas, faziam limpeza, instalavam placas de venda e anunciavam os lotes por meio de uma imobiliária ligada ao grupo. Compradores, em sua maioria de boa-fé, eram atraídos com a promessa de regularização documental.
Como funcionava o esquema
De acordo com o chefe do Departamento Especializada de Investigações Criminais (Deic), delegado Gabriel Monteiro, a base da fraude estava na emissão de documentos ideologicamente falsos por uma cooperativa habitacional já extinta. Ele explica que “essas pessoas tinham a comprovação de compra e venda, mas não tinham a escritura. A organização se aproveitou disso para emitir novas certidões e revender os terrenos”.
A cooperativa, encerrada em 2015, teria negociado cerca de mil terrenos na região. Até agora, 15 vítimas formalizaram denúncia, mas a polícia acredita que o número seja maior. “São vítimas, na maioria, com baixa instrução e que perderam seus terrenos por um estelionato”, afirmou o delegado.
Após a emissão dos documentos falsos, os novos compradores registravam as áreas em cartório, o que gerava conflitos judiciais com os proprietários originais. Segundo a investigação, não há indícios de participação de servidores cartorários.
Ameaças e uso de violência
A investigação também identificou o uso de intimidação para manter o controle dos terrenos. Um policial militar da reserva integrava o grupo e atuava armado. “Quando não conseguiam expulsar os verdadeiros donos, ele ia ao local, em algumas vezes fardado, e efetuava disparos”, relatou o delegado.
Há registros de incêndio em construções dentro dos terrenos e até ataques a um escritório de advocacia que atuava em defesa de uma das vítimas. “Invadiram o escritório, levaram documentos e depois efetuaram tiros no local”, disse.
Prisões e apreensões
A operação foi realizada no dia 1º de abril, quando foram cumpridos mandados de prisão preventiva e de busca e apreensão. Foram apreendidos seis veículos, documentos, celulares, cerca de R$ 29 mil em espécie e uma pistola calibre 9 milímetros.
Entre os presos estão o líder comunitário que identificava os terrenos, o presidente da cooperativa responsável pelos documentos, o dono da imobiliária, o responsável pela lavagem de dinheiro e o policial militar da reserva.
A análise financeira apontou movimentação superior a R$ 30 milhões, o que levou à solicitação de bloqueio de bens e contas dos investigados.
Próximos passos
A Polícia Civil pede que possíveis vítimas procurem a delegacia para registro de ocorrência. Os casos devem ser analisados individualmente pela Justiça, já que há situações em que compradores com escritura formal disputam a posse com os donos originais.
Segundo o delegado, a operação pode ajudar a reduzir conflitos na região. “As pessoas agora poderão buscar seus direitos na Justiça e resolver essas pendências de forma legal”, afirmou.

