Depois de décadas longe do olhar público, a estátua do deus Hermes voltou ao lugar de origem. A escultura foi reinstalada na Praça Cecília Monteiro, no Centro Histórico de Vitória, na noite desta quarta-feira (18), encerrando uma ausência de quase meio século.
Símbolo do comércio e do trabalho, a obra passou mais de 40 anos desaparecida e chegou a ser considerada roubada. Durante esse período, o pedestal vazio na praça virou um retrato silencioso do abandono do patrimônio histórico local.
Na prática, porém, a história era outra. A escultura havia sido retirada para restauro décadas atrás e acabou esquecida em um ateliê, passando despercebida por diferentes gestões ao longo dos anos.
Uma busca quase “detetivesca”
O reencontro só aconteceu graças a uma investigação iniciada em 2018 pelo historiador Raphael Teixeira. A partir de documentos, arquivos e relatos antigos, ele conseguiu rastrear o paradeiro da peça.
A busca levou até um quintal em Vila Velha, onde funcionava um antigo ateliê. Lá estava Hermes, longe dos olhos do público por décadas.
“Vale a pena perseverar e lutar pelo patrimônio público e pelo Centro da cidade”, disse o historiador, ao comentar a descoberta.
Retorno marcado por cuidado
A volta da estátua exigiu uma operação delicada. O local onde a peça estava tinha acesso difícil, o que demandou planejamento e precisão na retirada.
O transporte aconteceu à noite, com escolta da Guarda Municipal, em um trajeto pensado para evitar riscos. Já na praça, uma estrutura especial foi montada para levar a escultura até o pedestal — o mesmo que ficou vazio por 46 anos.
Uma peça com mais de um século
Esculpida em 1912 em mármore de Carrara pelos artistas Pedro e Ferdinando Gianordoli, a obra fazia parte do conjunto da escadaria Bárbara Monteiro Lindenberg. Agora, aos 114 anos, retorna ao espaço original com as marcas do tempo e da história que atravessou.
O resgate foi realizado dentro do projeto RenovAção, que busca recuperar monumentos históricos da capital. Desde o lançamento, a iniciativa já soma investimentos e tem como meta restaurar dezenas de obras até 2026.
A estátua foi recolocada sem intervenções imediatas, mantendo seu estado atual. A equipe responsável avalia agora as possibilidades de restauro, com o objetivo de preservar suas características originais.
Mais do que o retorno de uma escultura, a volta de Hermes marca também a recuperação de uma parte da memória da cidade — que, por décadas, ficou esquecida fora de seu lugar.

