A luta contra o câncer infantil costuma marcar famílias para sempre. Em muitos casos, o vínculo criado durante o tratamento não termina quando a doença fica para trás. Na Associação Capixaba Contra o Câncer Infantil (Acacci), que completa 38 anos neste mês de março, algumas dessas histórias seguem vivas por meio do voluntariado.
Fundada em 15 de março de 1988, a instituição oferece apoio a crianças e adolescentes em tratamento oncológico e às suas famílias. Além da hospedagem para quem vem do interior, o trabalho inclui transporte para hospitais, acompanhamento psicossocial, doações e atividades de acolhimento. Parte desse cuidado é sustentada por voluntários que ajudam nas rotinas e nas ações realizadas ao longo do ano.
Entre eles estão pessoas que chegaram à Acacci em momentos de fragilidade e decidiram permanecer por gratidão.
O apoio que virou compromisso

A história de Lindy Dias começou quando o filho, Diego, tinha apenas oito anos. Ele passou a sentir dores nas pernas que, com o tempo, evoluíram para perda dos movimentos da parte inferior do corpo.
A investigação médica foi longa. Durante esse período, a família enfrentou exames, consultas e incertezas até chegar ao diagnóstico de tumor na medula. Após três anos de luta, Diego passou por uma cirurgia. Nesse caminho, Lindy encontrou apoio na Acacci.
“Eu tive muito apoio da Acacci para fazer exames, que são caros, e também apoio emocional, psicológico e nas necessidades básicas. Mas principalmente na área da saúde foi primordial”, lembra.
O acompanhamento ajudou a família a atravessar o tratamento e também criou um vínculo que continuaria mesmo depois da recuperação do filho. Com o passar do tempo, Lindy decidiu permanecer próxima da instituição, agora como voluntária.
“O que me levou a ser voluntária foi esse amor ao próximo que existe ali. A Acacci tem muito amor entre as mães, voluntários e funcionários. A gente gosta de ficar perto, de estar junto”, conta.
Ao longo dos anos, ela passou a colaborar em diferentes atividades. Entre elas estão ações de cuidado e autoestima para quem enfrenta o tratamento, como dias de beleza para adolescentes e também para mães acompanhadas pela instituição.
Entre tantas experiências, uma ficou gravada de forma especial. Durante um desfile organizado na semana do Dia das Mães, uma jovem de 18 anos decidiu participar depois de um pedido do filho, que estava em tratamento.
A mãe entrou no evento vestida de princesa. Da plateia, o menino aplaudia emocionado. “No dia seguinte ele não resistiu. Ficou em mim a sensação de dever cumprido, de que aquele momento deu muita felicidade para ele no último dia de vida”, lembra Lindy.
Hoje, a história da família ganhou outro capítulo. Diego superou a doença, fez faculdade e foi aprovado em um concurso da Petrobras. Atualmente, mora no Rio de Janeiro.
Um exemplo que atravessou gerações

Para Ellen Oliveira, de 34 anos, o caminho até o voluntariado começou muito antes de entrar na instituição. Durante a infância, ela acompanhava um gesto simples da avó, Efigênia Franco Vieira. Todos os meses, mesmo com poucos recursos, a idosa separava uma quantia para doar à Acacci.
“Minha avó sempre teve um carinho muito grande pela Acacci. Mesmo com uma vida simples, fazia questão de separar um valor todo mês porque dizia que ajudar aquelas crianças vinha do coração”, lembra.
Crescer vendo esse compromisso silencioso acabou moldando sua visão sobre solidariedade. Anos depois, Ellen decidiu seguir o mesmo caminho e passou a atuar como voluntária na instituição há cerca de um ano.
Estar dentro da Acacci, segundo ela, ampliou ainda mais o significado daquele gesto que acompanhou na infância. “Hoje, estando dentro da Acacci como voluntária, eu consigo entender ainda mais esse amor que ela sentia. É algo muito forte. Eu realmente não me vejo mais sem fazer parte da família Acacci.”
O envolvimento com a instituição também acabou influenciando escolhas profissionais. Estudante de Nutrição, Ellen pensava inicialmente em seguir para a área clínica ou esportiva. Depois da experiência como voluntária, passou a considerar a nutrição oncológica.
“Depois de viver essa experiência mais de perto, tive uma virada muito grande de interesse para a área da nutrição oncológica”, conta Ellen.
A ligação da família com a instituição não se limita à avó. A tia, Maria Adalgisa, conhecida como Dalva, também já atuou como voluntária confeccionando bonecas para as crianças atendidas.
Entre as histórias que mais a marcaram está a de Lorrenzzo, um paciente que acompanhou durante o tratamento. “Ver de perto a força dele e de toda a família, mesmo diante de uma situação tão difícil, mexe muito com a gente. São histórias que fazem a gente refletir sobre a vida e sobre o quanto cada gesto de cuidado faz diferença.”
Base do trabalho da instituição
Para o diretor-presidente da Acacci, Francisco Carlos Gava, histórias como essas ajudam a explicar a força do voluntariado dentro da instituição. O trabalho desenvolvido ao longo de quase quatro décadas depende da mobilização de pessoas que decidem dedicar tempo e cuidado às famílias atendidas.
“O voluntariado é uma das bases que sustentam a história da Acacci. São pessoas que doam tempo, presença e cuidado e ajudam a fortalecer o acolhimento às crianças, adolescentes e famílias que enfrentam o câncer.”
Ao completar 38 anos de atuação, a instituição reúne histórias que mostram como o apoio recebido durante o tratamento muitas vezes se transforma em um compromisso permanente.
Para quem decide permanecer, o sentimento costuma ser o mesmo. “Eu fui levar amor e recebi muito mais de volta”, resume Ellen.


