Aos quase 90 anos, Uylton dos Santos mantém uma rotina que poucos conseguem sustentar. Conhecido como Budé, ele trabalha todos os dias da semana, sem folga, incluindo sábados, domingos e feriados como Natal, Ano-Novo e a Sexta-feira da Paixão. Por isso, é apontado como um dos barbeiros mais antigos do Espírito Santo ainda em atividade.
O trabalho começou cedo. Aos 14 anos, Budé já tinha responsabilidades. Desde então, nunca mais parou. Hoje, a barbearia onde atua, no centro de Conceição da Barra, é mais do que um ponto comercial. Tornou-se um espaço de convivência, memória e histórias que atravessam gerações.
Uma rotina que nunca para
A atividade exige atenção, precisão e longas horas em pé. Ainda assim, Budé segue firme atrás da cadeira, com mãos experientes e conversa afiada. “Esse trabalho me permitiu sustentar minha família e, até hoje, ajuda nas despesas da casa e nas minhas pessoais”, afirma.
Além disso, quem passa pela porta dificilmente deixa de ser cumprimentado. O barbeiro faz questão de manter o hábito. “Eu dou bom dia e boa tarde a toda hora”, brinca, em meio a risadas.
Durante a entrevista para esta reportagem, realizada em um sábado à tarde, sob sol forte, Budé interrompeu a conversa diversas vezes para desejar “boa tarde” a moradores e visitantes que passavam pela calçada.
Clientes, política e histórias curiosas

Ao longo de mais de oito décadas de trabalho, Budé perdeu a conta de quantas pessoas já atendeu. Ainda assim, garante que foram milhares. Entre elas, políticos, empresários, trabalhadores, figuras folclóricas da cidade e também mulheres que buscavam seus serviços.
Entre os clientes conhecidos, ele lembra com orgulho do ex-prefeito de Conceição da Barra e ex-deputado estadual Mateusão, nome político de Mateus Vasconcelos. “Quando ele era deputado, de 2003 a 2006, às vezes mandava um carro me buscar aqui na Barra para eu ir até Vitória cortar o cabelo e fazer a barba dele. Até hoje, sempre que vem à cidade, corta o cabelo comigo”, conta.
Além disso, histórias curiosas fazem parte da rotina. Uma delas quase terminou em confusão. Budé lembra que fazia a barba de um ex-delegado da cidade quando Isaías dos Cachorros, conhecido pelo jeito brincalhão e pelo excesso de bebida, apareceu na porta. “Tentei impedir a entrada, mas ele olhou para o cliente e falou: ‘oh posição boa de passar a navalha’. Ainda bem que o delegado estava cochilando e não ouviu”, relembra, rindo.
Trabalho desde a adolescência
Antes de se tornar barbeiro, Budé fez de tudo um pouco. Vendeu beiju, trabalhou em serrarias e levou marmitas para trabalhadores. “Naquela época, adolescente podia trabalhar”, explica.
Como essas atividades aconteciam de segunda a sexta-feira e o pai não queria o filho sem ocupação nos fins de semana, ele passou a arrumar quartos em pensões da cidade. Aos 16 anos, começou a aprender a profissão que seguiria por toda a vida.
Teve vários mestres ao longo do caminho. O primeiro foi Vantuil Fonseca. Depois vieram Paizinho, Ernani Benso, Jardel, José Evaristo e Lionel. “Com cada um eu aprendi um pouco”, resume.
A barbearia própria e a decisão arriscada
A barbearia onde Budé trabalha até hoje surgiu por incentivo de seu Kidinho, dono do ponto. Antigo empregador na pensão, ele reconheceu o esforço do jovem e ofereceu o espaço, que estava vago.
Inicialmente alugado, o imóvel foi comprado depois com um empréstimo no Banestes, recém-chegado à cidade na época. A decisão foi ousada e paga em muitas prestações. Ainda assim, deu certo.
Desde então, o barbeiro nunca mais fechou as portas. “Na Sexta-feira da Paixão, antigamente, as mulheres nem varriam a casa para guardar o dia santo. Mas para mim sempre foi dia de trabalho. Sempre aparece um cliente. Minha obrigação é esperar o freguês”, diz.
Família grande e trabalho dividido
O trabalho sustentou uma família numerosa. Foram dois casamentos e 11 filhos. Com a primeira esposa, Antônia, teve oito filhos. Após a separação, criou sozinho vários deles ainda pequenos. Mais tarde, casou-se com Hilda, com quem viveu até 2022 e não teve filhos. Além disso, é pai de outros três filhos de um relacionamento anterior.
Atualmente, Budé mora com a filha mais velha, Oliverina. “Ela cuida muito bem de mim”, diz, emocionado. Dos filhos, apenas Aglailton seguiu a profissão do pai. Os dois dividem a barbearia. “Tem dia que ele trabalha mais, tem dia que sou eu, e tem dia que a gente não faz nada”, brinca o barbeiro.
Enquanto estiver ativo
Aposentadoria não faz parte dos planos. Para Budé, o trabalho também é convivência. “Aqui o tempo passa rápido. A gente conversa, recebe gente. Enquanto eu estiver ativo, vou continuar sendo barbeiro”, afirma.
Bem-humorado, o barbeiro resume a própria vida com uma frase que virou marca registrada. “Aprendi a fazer três coisas na vida: cortar cabelo, fazer barba e criança.” Rindo, nega a fama de namorador, mas mantém o bordão que ecoa entre risadas na barbearia. “Budé, o homem que gosta de mulher”.
Assim, entre o som da tesoura, histórias repetidas e cumprimentos constantes, o barbeiro mais antigo do Espírito Santo segue fazendo o que sempre fez. E, aos quase 90 anos, continua dando sentido aos próprios dias sem pensar em fechar as portas.


