Política
Proposta que perdoa débitos bilionários de partidos políticos avança no Senado
Escrito por Rodrigo em 15 de agosto de 2024
Cerca de um mês depois de ser aprovada na Câmara dos Deputados, a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Anistia passou nesta quarta-feira, 14,, sem alterações, na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado. A PEC prevê um autoperdão a dívidas – e a outras punições eleitorais – impostas a partidos políticos.
Mesmo após o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), afirmar que o assunto não seria tratado “com açodamento” na Casa, o chefe da CCJ, senador Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), pediu urgência para votar a PEC no plenário do Senado. Para entrar em vigor, a proposta precisa do apoio de 49 dos 81 senadores, em duas votações.
Por ser uma emenda à Constituição, o texto não necessita da sanção do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Até a noite de ontem, não havia um posicionamento oficial de Pacheco sobre o pedido de urgência. Líderes partidários, no entanto, têm pressa e defendem a validade da proposta já para as eleições municipais deste ano.
Entidades ligadas à transparência partidária e ao Direito Eleitoral criticam a PEC. Afirmam, por exemplo, que ela representa um estímulo à inadimplência e permite que partidos paguem dívidas com recursos de “origem não identificada”, o que pode incentivar a prática de caixa 2.
O Movimento Transparência Partidária estima que a anistia pode chegar a R$ 23 bilhões em multas impostas a partidos, se consideradas só as contas pendentes de julgamento entre 2018 e 2023. “Essa proposta é inaceitável. Não se trata apenas de uma anistia financeira, mas de uma série de medidas que podem comprometer ainda mais a pouca credibilidade dos partidos na sociedade”, disse o diretor do Transparência Partidária, Marcelo Issa.
A PEC da Anistia estabelece um prazo de até 15 anos para a quitação de multas eleitorais e de cinco anos para o cumprimento de obrigações previdenciárias. Na Câmara, a proposta foi aprovada no dia 11 de julho – à exceção do PSOL e do Novo, todos os partidos da Casa, do PT ao PL, apoiaram a PEC.
“Entendemos que é uma situação razoável, que vai limpar a área dos partidos para que eles possam cumprir suas obrigações daqui para a frente”, afirmou ontem o relator da PEC no Senado, Marcelo Castro (MDB-PI).
Contra
“O mundo político dá um exemplo muito ruim para o Brasil. Vou votar contra porque acho que os partidos deveriam ser os primeiros a dar o exemplo de serem capazes de cumprir a legislação que fazem”, declarou o senador Oriovisto Guimarães (Podemos-PR). Além dele, somente Alessandro Vieira (MDB-SE) se posicionou contra a PEC.
A redação da PEC estende, ainda, a imunidade tributária de partidos políticos (e seus respectivos institutos ou fundações) a sanções de natureza tributária, com a possibilidade de extinção de processos. Uma nota conjunta da Transparência Internacional Brasil, do Pacto Pela Democracia e do Movimento Transparência Partidária afirma que essa “ampliação” da imunidade alcançaria punições determinadas “nos processos de prestação de contas eleitorais e anuais”.
“Desta forma, anulariam-se todas as sanções aplicadas também no âmbito eleitoral, assim como no âmbito de prestações de contas anuais dos partidos políticos, podendo configurar-se numa anistia ampla e irrestrita para todas as irregularidades cometidas por partidos políticos e campanhas eleitorais”, diz o texto.
Cotas
O texto também propõe uma redução de recursos para candidatos pretos e pardos, ao estabelecer que as siglas são obrigadas a gastar pelo menos 30% dos recursos dos fundos Partidário e eleitoral com candidaturas negras.
Em 2020, no entanto, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) decidiu que a divisão do fundo eleitoral e do tempo de propaganda gratuita de rádio e TV deve ser proporcional ao total de candidatos pretos que o partido lançar. Ou seja, se 50% dos postulantes forem pretos, as siglas são obrigadas a destinar a mesma proporção de recursos para essas campanhas. Na prática, essa determinação foi revogada. “Esse valor, 30%, é para facilitar o cumprimento dessa exigência constitucional”, argumentou o relator.
Outros senadores criticaram a obrigatoriedade de 30% de candidaturas femininas, outro ponto incluído na PEC. “Lá no Pará as mulheres não gostam muito de trabalhar na política”, disse Zequinha Marinho (Podemos-PA). “O TSE poderia ajudar numa campanha de informação para as mulheres. Pelo menos em Roraima, é muito difícil encontrar mulheres que queiram ser candidatas”, afirmou Mecias de Jesus (Republicanos-RR).
Como mostrou o Estadão, o PT será o principal beneficiado caso o Senado aprove a PEC da Anistia. Até março, diretórios da sigla tinham R$ 22,2 milhões em dívidas na lista de devedores da União mantida pela Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional, braço jurídico do Ministério da Fazenda. A maior parte (R$ 18,2 milhões) é com a Previdência.
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.