História

Passarela do samba: Esplanada Capixaba redesenhou Vitória

A Avenida Beira-Mar, que integra o projeto de aterro que originou a Esplanada Capixaba, tornou-se a nova passarela do samba de Vitória

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Passarela do Samba. Regional da Nair reúne milhares de foliões na Beira Mar. Foto: Reprodução

Uma passarela do samba junto à Baía de Vitória. Assim, milhares de foliões, como reuniu o Bloco Regional da Nair, no último domingo (15), transformaram a Avenida Beira‑Mar durante o Carnaval. Mas, provavelmente, muitos se esquecem ou desconhecem que, nessa nova passarela do samba, em passado recente, o cenário era totalmente diferente naquela área da cidade, tomada pelas águas do mar.

Moradores mais antigos lembram do tempo em que o mar batia nos fundos do Theatro Glória; e contam dos cais atrás do Mercado da Capixaba e da praia próximo à antiga Capitania dos Portos (hoje, Casa Porto das Artes). A Prefeitura de Vitória, em texto da jornalista Edlamara Conti, intitulada Passarela do samba sobre o mar: o projeto da Esplanada Capixaba que redesenhou o Centro de Vitória, resgata essa Historia, aqui transcrita.

– Nos últimos anos, a Avenida Marechal Mascarenhas de Moraes (Beira‑Mar), com seu traçado contínuo e amplo, virou o corredor da folia durante os dias do Carnaval oficial e as avenidas Jerônimo Monteiro e Princesa Isabel, que também têm tradição de cortejos e desfiles, passaram a atender ao plano de circulação viária.

Vitória entra para o circuito de blocos das capitais do Sudeste

Essas três importantes avenidas integram a Esplanada Capixaba, o grande aterro que moldou o desenho do Centro de Vitória, e pavimentou a modernização sonhada desde o início do século XX. Concluído em 1955, o trecho desde a avenida Governador Bley até os arredores do forte São João representou uma área aproximada de 96.000 m2, em pleno coração da capital.

Plantas arquitetônicas, croquis, fotografias, jornais de época e outros documentos oficiais preservados no Arquivo Público Municipal mostram o esforço contínuo pela modernização de Vitória, por meio de talentos, engenharia e urbanismo. E, uma vez por ano, quando os foliões ocupam toda a avenida ao som dos blocos, a cidade dançando sobre o espaço que criou. Conhece outra cidade que, no Carnaval, dança sobre o mar?

O projeto de expansão e modernização de Vitória

Vitória cresceu comprimida por morros e marés. As partes baixas alagavam com frequência; os morros restringiam o avanço do traçado urbano. Os aterros passaram a ser o instrumento dos sucessivos governos para sanear, abrir vias e expandir o território. No final do século XIX, já eram feitos pequenos aterros. A prática é intensificada no início do século XX, para expansão do porto e da economia e para fins de saúde pública.

Nos anos 1920, Florentino Avidos avança a linha de terra e ergue o Mercado da Capixaba — um marco físico de que a cidade começava a avançar sobre a água. Fotografias de época e plantas oficiais, preservadas no Arquivo Público Municipal, mostram o quanto a orla era irregular e como o projeto de Avidos ambicionava uma avenida contínua costeira, que mais tarde daria origem à atual Princesa Isabel.

O discurso modernizador ganha ainda mais corpo na década de 1950, quando Jones dos Santos Neves anuncia, no Plano de Valorização Econômica, que Vitória precisa “conquistar novas áreas de crescimento”. O governo redesenha o sistema de evolução do porto e cria a grande área edificável contínua ao centro comercial. Nos relatórios de 1953-1955, Santos Neves descreve cerca de 96 mil m² tomados ao mar “em pleno coração da cidade”, com areia resultante da drenagem do canal e desmontes de morros vizinhos.

Assim surgiu a Esplanada Capixaba, com suas quadras amplas e planas. O projeto não era apenas terraplanagem: era urbanismo. As quadras foram dimensionadas maiores e mais regulares do que as do Centro antigo e bem alinhadas para garantir continuidade com a malha viária preexistente.

O desenho tem origem nas grandes referências internacionais do urbanismo do século XX, (Alfred Agache, Le Corbusier). O Código Municipal de 1954 (Lei 351/54) criou o Bairro Comercial Especial (BCE) da Enseada Capixaba, prevendo usos comerciais e administrativos e gabaritos de 8 a 12 pavimentos por quadra, com o intuito de complementar o porto e o Centro com uma vitrine de edifícios novos, calçadas largas e praças à beira da baía. Surgem a rua Aristeu de Aguiar, a Praça Pio XII (originalmente um canteiro central alargado) e a Praça Getúlio Vargas.

No entanto, a ocupação não espelhou o desenho de 1954-1955 integralmente. Houve alterações na Praça Pio XII e em trechos viários e a verticalização ultrapassou os primeiros gabaritos. Ainda assim, a Esplanada cumpre a principal ideia do projeto: um campo visual aberto, de uso misto, que conecta o Centro histórico à baía — exatamente a paisagem que, agora, os foliões atravessam em bloco, trio e fantasia.

Passarela do samba. Carnaval à beira mar


Durante décadas, o Carnaval de rua, em Vitória, ocupou a Avenida Jerônimo Monteiro, com shows na Praça Oito — onde se montava uma estrutura especial para a festa. Após o período da pandemia de Covid, o circuito de rua migrou para a Avenida Beira-Mar e, desde 2023, a vem ganhando mais espaço e estruturas melhores.

Os idealizadores da Esplanada Capixaba não podiam imaginar que aquele Bairro Comercial Especial (BCE) seria a passarela do Carnaval de rua, concentrando milhares de foliões. Essa vocação para a Avenida Beira-Mar foi descoberta gestores do século XXI: uma via larga, linear, ventilada e com saídas para circulação bem evidentes. Ou seja, uma passarela “natural” que o urbanismo dos anos 1950 nos legou, quando decidiu tomar o mar para expandir o centro.

Referências: DERENZI, Luiz Serafim. Biografia de uma ilha. Vitória: Prefeitura Municipal de Vitória, Secretaria Municipal de Cultura e Turismo, 1995. p. 183.; ESPÍRITO SANTO (Estado). Governador (1916‑1920: Bernardino de Souza Monteiro). Relatório apresentado pelo Dr. Bernardino de Souza Monteiro, Presidente do Estado, de sua gestão no quadriênio de 23 de maio de 1916 a 23 de maio de 1920, ao passar o Governo do Espírito Santo ao seu sucessor Exmo. Sr. coronel Nestor Gomes. Vitória: [s.n.], 1920; FREITAS, José Francisco Bernardino. O aterro da Esplanada Capixaba: a “modernidade” privada. Anais do XXIII Simpósio Nacional de História – ANPUH, Londrina, 2005. Disponível em: . Acesso em: 11 fev. 2026. VITÓRIA (ES); Prefeitura Municipal. Código Municipal de Vitória: Lei nº 351, de 24 de abril de 1954. Vitória: Departamento de Imprensa Oficial, 1955.