Um cinema completo dentro de casa, com direito a cabine de projeção, poltronas reclináveis e uma coleção de raridades que atravessa mais de um século de história. É assim que funciona o espaço criado pelo aposentado Amilton Simmer, de 66 anos, na própria residência, na avenida Expedito Garcia, em Campo Grande, Cariacica.
O local reúne cinema e museu em um mesmo ambiente. Logo na entrada, uma vitrine chama atenção pela quantidade de brinquedos antigos, todos funcionando e preservados. Há peças do século XIX vindas de diferentes países, como Alemanha, Estados Unidos e França. Entre elas estão autômatos franceses de 1880 e brinquedos mecânicos da marca alemã Lehmann.
O acervo também guarda equipamentos históricos ligados à música e à reprodução de som. Um dos destaques é um orquestrião de 1885, máquina mecânica do tamanho de um guarda-roupa capaz de tocar música sozinha. Segundo Amilton, trata-se de uma peça raríssima. “Tem peças aqui que, no Brasil, só tem aqui”, afirma.
Outro item curioso é um fonógrafo de 1887, considerado o primeiro aparelho da história capaz de gravar som. No mesmo espaço há jukeboxes da década de 1950 e máquinas antigas que ajudam a contar a evolução da música e do entretenimento.
Museu guarda história do cinema

O percurso pelo espaço continua em uma área dedicada ao cinema. Lá estão projetores históricos, incluindo um modelo de 1941 que funcionava com carvão, além de equipamentos que mostram como eram feitas as projeções nos antigos cinemas de rua.
Também fazem parte do ambiente cadeiras originais de cinema da década de 1950, uma urna para bilhetes e cartazes clássicos pendurados nas paredes.
Entre as peças curiosas está um motoscópio, equipamento considerado pré-cinema. Ele funciona com uma manivela que faz uma sequência de imagens girar rapidamente, criando a sensação de movimento.
Amilton também montou em casa uma cabine de projeção semelhante às usadas nos cinemas de película. A ideia nasceu de uma curiosidade que ele carregava desde jovem.
“Quando eu fui ao cinema pela primeira vez em Vitória, eu via aquele facho de luz vindo lá de cima e queria saber qual era a mágica que tinha na cabine. Eu tentei até ajudar o projecionista para subir lá, mas não deixavam. Hoje eu tenho uma cabine dentro de casa”, conta.
Paixão começou na infância
A relação de Amilton com o cinema começou cedo. Ele lembra que tinha apenas cinco anos quando viu um filme projetado pela primeira vez em sua cidade natal, Paraju, em Domingos Martins.
Segundo ele, um alemão que havia fugido da guerra chegou à região levando um projetor de oito milímetros. Aos domingos, o equipamento era usado para exibir filmes na escola.
“Na hora da projeção não tinha tela. A parede era azul escura, então ele pendurou um lençol de cama. Aquilo virou a tela do cinema. Quando ele ligou o projetor e eu ouvi aquele barulhinho, pensei: é isso que eu quero. Nunca mais larguei o cinema”, lembra.
Antes de se dedicar ao projeto, Amilton trabalhou por muitos anos com enrolamento de motores elétricos. O cinema dentro de casa surgiu apenas décadas depois.
Cinema virou terapia
O espaço foi construído há cerca de 15 anos. Na época, Amilton enfrentava depressão após parar de beber e fumar. “Eu fazia tratamento e a depressão não ia embora. Até que montei o cinema e esse museu. A depressão foi embora. Hoje eu não tomo mais remédio. O meu remédio foi esse espaço aqui”, relata.
O local onde hoje funciona o museu era originalmente um jardim da casa. A decisão de transformar a área veio durante um período de falta de água. “Eu ficava mais de uma hora molhando as plantas. Com tanta gente sem água, pensei que não podia ficar desperdiçando. Então resolvi acabar com o jardim e construir o cinema.”
Sessões para visitantes
O destaque do espaço é a sala de cinema particular, equipada com sistema de som de alta qualidade e 18 poltronas reclináveis.
Segundo Amilton, as sessões acontecem principalmente quando grupos maiores visitam o local. “Se vier um casal ou três pessoas, a gente mostra o museu. Filme mesmo só quando tem mais de dez pessoas.”
O cinema funciona com visitas agendadas. Após um vídeo sobre o espaço viralizar nas redes sociais, a procura aumentou e o proprietário decidiu abrir o local para mais visitantes. “Agora estou recebendo gente quase todo dia depois das 15 horas”, conta.
Não há cobrança obrigatória para conhecer o espaço. “Aqui é sem fins lucrativos. É tudo pela cultura. Tem uma urna, quem quiser ajudar com qualquer quantia para energia e limpeza pode colocar, mas não é obrigatório.”










