Em uma sessão simbólica, Cris Samorini tomou posse como prefeita de Vitória durante cerimônia realizada na tarde desta segunda-feira (2), na Câmara Municipal. Ela é a primeira mulher a ocupar o cargo na história do município.
A cerimônia contou com a presença de diversas autoridades, como a presidente do Tribunal de Justiça, Janete Vargas; presidente da OAB-ES, Erica Neves, além dos vereadores, que usaram a tribuna para dar as boas-vindas à prefeita e se colocaram à disposição para colaborar com a nova gestão.
Em seu discurso, Cris afirmou que uma das prioridades do mandato será o enfrentamento ao feminicídio. Ela lembrou o assassinato da comandante da Guarda Municipal, Dayse Barbosa, morta pelo ex-namorado no fim do mês passado. “Perdemos de forma precoce e cruel nossa comandante. Uma perda que nos marca e abala, mas nos convida a não recuar. Por isso que afirmo e reafirmo que uma das prioridades será o enfrentamento ao feminicídio. Todas as políticas públicas serão tratadas diretamente no meu gabinete.”
Cris destacou ainda que já há diagnóstico suficiente sobre a violência contra a mulher e que o desafio agora é melhorar a integração das políticas públicas. “A gente vai encontrar uma forma de reunir ações reais e efetivas para que sejam percebidas no dia a dia. Vamos fortalecer a rede de proteção e garantir segurança para as mulheres. E esse diálogo já foi iniciado”, afirmou.
Ainda no seu discurso, falou da valorização da mulher e da representativa de ser a primeira prefeita de Vitória. “Não aceitarei que o fato de ser a primeira mulher a ocupar este cargo seja usado como argumento para silenciamento, hesitação ou recuo. Eu não estou aqui para simbolizar. Estou aqui para decidir, para enfrentar, para assumir riscos e, principalmente, para entregar resultados a vida das pessoas. Não busco provar a força da mulher pelo cargo que ocupo, mas não permitirei, em nenhum dia, que uma mulher seja desvalorizada no ambiente de trabalho. E digo mais: não permitirei a desvalorização de ninguém. Porque antes de qualquer função, antes de qualquer título, existe uma pessoa. É por tudo isso que eu vou me levantar todos os dias”.
Quem é Cris Samorini, primeira mulher a governar Vitória
O ex-prefeito de Vitória, Lorenzo Pazolini, que deixou o cargo para disputar o governo do Estado nas próximas eleições, também discursou. Ele destacou avanços da gestão, como o equilíbrio das contas públicas e a reorganização administrativa. Pazolini também citou resultados nas áreas de educação, desenvolvimento urbano e políticas sociais, além da implantação do restaurante popular no município.
Confira o discurso na íntegra na nova prefeitura:
Hoje não é apenas um dia de posse. É um momento de reafirmar a responsabilidade que assumi, juntamente com Lorenzo Pazolini, em 2025, diante de uma cidade inteira. Chego a este momento com a clareza de que cuidar de Vitória é uma prática diária, exigente, que pede presença, decisão e, acima de tudo, compromisso verdadeiro com as pessoas.
Ao longo desses meses de vida pública, aprendi algo muito claro: o poder público pode — e precisa — fazer mais pelas pessoas. E isso não vem de teoria. Vem do que vejo nas ruas, do que escuto, do que sinto diante da realidade de quem precisa de resposta. As pessoas têm pressa. Pressa de dignidade, de solução, de não depender de promessas. E governar exige coragem para agir e responsabilidade para entregar.
E foi exatamente isso que mais me chamou atenção em Vitória. Toda a transformação que impactou a vida de tantas pessoas não aconteceu por acaso. Ela trouxe uma certeza muito clara: é possível fazer quando há compromisso. Tivemos esse compromisso com a liderança do prefeito Lorenzo Pazolini, presente diariamente nas ruas, mas, acima de tudo, garantindo que a estrutura do município estivesse preparada para sustentar esse trabalho no dia a dia, com transparência e olhando nos olhos das pessoas.
Imaginem como estaria Vitória hoje sem esses ajustes, especialmente sem esse compromisso e dedicação. Posso afirmar com segurança: não teríamos condições de sustentar políticas públicas, não teríamos uma educação reconhecida nacionalmente, nem espaços revitalizados. Estaríamos, muito provavelmente, diante de uma cidade marcada pela insegurança, pela desorganização e pela ausência de perspectiva para muitas pessoas.
Muitas vezes, não se percebe o que está por trás dos resultados das políticas públicas, nem o quanto é exigente ter compromisso real com a cidade. E é exatamente esse compromisso que tem feito a diferença em Vitória. Quando há dedicação, responsabilidade, decisão e continuidade, os resultados chegam na vida das pessoas — e isso transforma a forma como a cidade se enxerga.
O mais positivo é que elevamos o nosso próprio padrão. Passamos a querer mais, a não aceitar retrocessos e a não admitir menos do que já foi conquistado. Há cinco anos, vivemos uma cidade em evolução, com compromisso e resultado — e isso, naturalmente, aumenta o nosso nível de exigência. E é justo que seja assim.
Hoje, o mundo é outro. Tudo acontece mais rápido. As pessoas acompanham, cobram e querem resultados reais. Não há mais espaço para discurso vazio ou promessas que não saem do papel. Ainda convivemos, muitas vezes, com uma cultura de transferir responsabilidades, justificar o que não foi feito e até criar regras que já nascem sem funcionar. Uma cultura que normaliza o erro e só reage depois que o problema aparece. Isso precisa mudar.
O poder público tem, sim, o dever de liderar, organizar, investir e cuidar. Mas a responsabilidade de construir uma cidade melhor é coletiva.
Tenho aprendido, na vida pública, que o grande desafio é equilibrar as ações ao longo do tempo — sem perder o que já foi conquistado e sem deixar de avançar no que ainda precisa ser feito. Isso envolve áreas essenciais como educação, saúde, assistência, habitação, segurança, mobilidade, desenvolvimento, cultura, lazer, inclusão — especialmente para pessoas com deficiência —, meio ambiente, futuro sustentável e também o cuidado com os nossos pets, que fazem parte das famílias.
E precisamos, acima de tudo, agradecer a Deus e reconhecer que estamos em um caminho muito melhor do que aquele que se desenhava para Vitória.
Quando vou às escolas, vejo com clareza o que isso representa. Visito unidades reformadas, novas, climatizadas e também aquelas que ainda passarão por melhorias. E me faço uma pergunta: como conseguimos avançar tanto em tão pouco tempo?
Em 2021, tínhamos apenas quatro escolas em tempo integral, seis climatizadas e grandes desafios no aprendizado. Hoje, são 52 escolas em tempo integral, mais de 50 climatizadas, reconhecimento nacional na alfabetização e cerca de 90 mil refeições servidas diariamente.
E faço aqui um reconhecimento fundamental: nada disso seria possível sem o trabalho dos educadores e de toda a equipe que escolheu servir com dedicação e responsabilidade.
Poderia citar também os avanços na saúde — sendo Vitória hoje a primeira capital do Brasil em acesso à saúde. Na assistência social, ampliamos estruturas e fortalecemos programas como o Vix + Cidadania, que já retirou 19 mil pessoas da linha da pobreza e da extrema vulnerabilidade.
Na segurança, houve redução de 41% nos homicídios neste primeiro trimestre em relação a 2025. As políticas voltadas às mulheres fortalecem autonomia e rompem ciclos de violência. Já os espaços públicos, como os Parks Kids, passaram a ter padrão de qualidade em toda a cidade, ressignificando áreas antes degradadas e devolvendo convivência às comunidades.
São muitas entregas, muitas mudanças. E aqui registro meu reconhecimento a todos os servidores que escolheram, de fato, servir. Terão sempre meu respeito, porque sei que, por trás de cada atuação, existe uma pessoa que merece dignidade, reconhecimento e valorização.
Vivemos recentemente um momento que exige reflexão profunda. Após 652 dias sem feminicídio, fomos impactados por uma dor imensa. Perdemos, de forma precoce e cruel, a comandante Dayse. Uma perda que nos marca, nos abala, mas também nos convoca a não recuar.
Por isso, afirmo de forma clara: o enfrentamento ao feminicídio será uma prioridade central. Todas as políticas públicas relacionadas ao tema serão tratadas diretamente no meu gabinete. Já temos diagnóstico, conhecemos caminhos e sabemos o que funciona.
O que falta agora não é conhecimento, mas integração, firmeza e capacidade de ampliar a proteção de forma real.
Não quero uma gestão baseada em discurso ou em placas. Meu compromisso é alcançar a mulher que hoje não tem voz nem segurança. É nela que vamos concentrar esforços, com ações efetivas, percebidas no dia a dia. Vamos fortalecer a rede de proteção, melhorar os espaços e garantir segurança real. Esse trabalho já começou e exige união.
Vitória não é uma cidade que espera o problema acontecer. Vitória se antecipa e projeta o futuro.
Enquanto muitos ainda discutem os impactos da reforma tributária, nós já atuamos com responsabilidade fiscal e planejamento. Isso atrai investimentos, gera empregos e amplia oportunidades.
O programa Vitória de Frente para o Mar representa essa nova lógica, reconectando a cidade à sua essência e criando novas oportunidades de turismo, lazer e renda. Também avançamos na revisão urbana, recuperação do Centro e valorização dos espaços públicos.
Vitória é uma potência. É porta de entrada, de saída e de conexão.
Há quem diga que a cidade perdeu atratividade. Mas quem acompanha de perto sabe: há uma verdadeira esteira de oportunidades em curso. A transformação é intensa e exige atenção.
Desenvolvimento não acontece por acaso. Exige estratégia, equipe qualificada e decisões responsáveis.
E nenhuma cidade é desenvolvida sem olhar para quem mais precisa. O programa Casa Feliz e Segura é exemplo disso. Já são mais de 300 moradias entregues, reformadas ou reconstruídas. Isso é dignidade.
Quem está na vida pública precisa reconhecer que as pessoas acreditam — e esperam respeito. Todas merecem ser tratadas com dignidade.
Carrego valores da minha família. Ao caminhar pela cidade, ouço histórias que reforçam esse legado. Um exemplo é a Tipografia Tullio Samorini, no Centro de Vitória, fundada em 1915 pelo meu bisavô, um importante artista italiano que contribuiu para a cidade. São raízes que fortalecem minha conexão com Vitória.
Peço o apoio desta Câmara. Ninguém constrói nada sozinho. Vitória exige união, maturidade e responsabilidade coletiva.
Sei que enfrentaremos decisões difíceis e que, muitas vezes, será necessário corrigir rotas rapidamente. E estaremos preparados.
Peço também o apoio das lideranças comunitárias. Quero caminhar junto, com diálogo, respeito e construção coletiva.
Minha missão não é o poder. É servir. É pelo trabalhador, pela mãe solo, pelas crianças, pelos jovens, pelas pessoas que precisam de voz, inclusão e proteção.
A gestão pública exige responsabilidade real com a vida das pessoas. E é assim que conduzirei cada decisão.
Erramos, sim. Mas jamais aceitarei errar por escolha — especialmente quando lidamos com pessoas.
Não aceitarei qualquer prática ilegal, imoral ou antiética. Esse é um limite inegociável.
Também não aceitarei que o fato de ser a primeira mulher no cargo seja motivo de silenciamento. Não estou aqui para simbolizar.
Estou aqui para decidir, enfrentar, assumir riscos e, principalmente, entregar resultados na vida das pessoas.
Não busco provar a força da mulher pelo cargo. Mas não permitirei que nenhuma mulher seja desvalorizada no ambiente de trabalho. E não permitirei a desvalorização de ninguém.
Porque, antes de qualquer função, existe uma pessoa.
É por tudo isso que vou me levantar todos os dias.



