Os servidores do Hospital Universitário Cassiano Antônio Moraes (Hucam), em Vitória, iniciaram uma greve na sexta-feira (27), em meio a um movimento nacional que já atinge 25 unidades da rede federal. A paralisação ocorre a poucos dias do prazo que pode impedir reajustes salariais por causa do calendário eleitoral, que se encerra em 7 de abril.
A mobilização é organizada pela Confederação Nacional dos Trabalhadores na Saúde e envolve profissionais vinculados à rede federal de hospitais universitários. No Espírito Santo, o movimento é conduzido por representantes locais da categoria.
Negociação travada desde fevereiro
Segundo as lideranças do movimento no estado, Fernanda Ferraz e Duy Vinícius, as negociações começaram em fevereiro, com foco no acordo coletivo válido para 2026 e 2027. Ela afirma que a categoria acumula perdas salariais desde a pandemia e que não houve recomposição ao longo dos últimos anos.
Fernanda explica que a empresa responsável pela gestão dos hospitais é pública e tem decisões concentradas em Brasília, o que limita a atuação local. Ela ressalta que o impasse não é isolado e se repete em outras unidades do país.
Promessa sem proposta
A categoria esperava avanço nas negociações após o compromisso da empresa de apresentar índices de reajuste no dia 20 de março. No entanto, segundo a liderança, representantes foram a Brasília e não receberam proposta concreta.
Ainda de acordo com Fernanda, houve tentativas de mediação no Tribunal Superior do Trabalho ao longo da semana passada, com reuniões no dia 24, 25 e 27, mas sem avanço. “A empresa não apresentou nenhum índice”, afirma.
Diante da falta de acordo e da proximidade do prazo eleitoral, a greve foi deflagrada. Segundo ela, se não houver definição dentro do prazo legal, a categoria pode ficar restrita à reposição inflacionária, sem ganho real.
Serviços mantidos

Segundo Fernanda, o impacto maior ocorre nos atendimentos eletivos. “A gente tira um quantitativo, mas os serviços essenciais são mantidos”, explica. Ela acrescenta que áreas como ambulatórios e procedimentos não urgentes acabam sendo mais afetadas. “O que a gente busca impactar mais é ambulatório, coisa eletiva. Não tem como, tem que suspender alguma coisa para poder ter impacto no movimento.”
Reivindicações e condições de trabalho
Entre as principais demandas estão a recomposição salarial e cláusulas sociais, como proteção ao trabalho da mulher, além de benefícios como auxílio saúde e alimentação. Segundo a liderança, a falta de resposta da empresa tem travado qualquer avanço.
Fernanda afirma que o acordo coletivo também busca garantir medidas contra assédio e assegurar direitos básicos. “No ACT a gente busca políticas efetivas contra o assédio, políticas protetoras que protejam o trabalho da mulher, da criança, e a garantia de férias que às vezes acabam sendo descuidadas pela empregadora”, diz.
Alerta para saúde dos trabalhadores
A liderança também chama atenção para os impactos da desvalorização profissional na saúde dos trabalhadores. Segundo Fernanda, a sobrecarga e a falta de reconhecimento têm provocado adoecimento na categoria.
“Mas o que a gente chama a atenção agora é para a questão da desvalorização do trabalhador e trazer para a sociedade que o trabalhador desvalorizado adoece. Ele adoece porque a família dele está desamparada enquanto ele está trabalhando, ele adoece porque a pressão e a sobrecarga de trabalho na área da saúde é muito grande e, na hora de ter o reconhecimento, que é ali no reajuste digno, a gente não tem”, afirma.
A liderança acrescenta que há registros de afastamentos e casos graves entre trabalhadores da rede. “Tem muita gente realmente afastada”, diz, ao destacar que o cenário tem se agravado nos últimos anos.
O que diz a HU Brasil
A HU Brasil informou que permanece em processo de negociação com as entidades representativas para a celebração do ACT 2026/2027, com data-base em 1º de junho de 2026.
As tratativas vêm sendo mediadas pelo Tribunal Superior do Trabalho desde terça-feira (24), com nova rodada de negociação prevista para esta segunda-feira (30). Segundo a estatal, será apresentado um índice econômico para avançar nas negociações.
A empresa afirma ainda que tem adotado medidas para garantir a continuidade dos serviços essenciais de saúde e ressalta que o último acordo coletivo, ainda vigente, trouxe avanços econômicos e sociais, reafirmando o compromisso com o diálogo e a valorização dos trabalhadores.


