Inspiração

Entre navalhas, histórias e gerações: barbeiro do ES segue firme aos 90

Há mais de sete décadas sem fechar a barbearia, Budé trabalha todos os dias e virou um personagem vivo da história de Conceição da Barra

Aos quase 90 anos, Budé segue firme como um dos barbeiros mais antigos do Espírito Santo
Aos quase 90 anos, Budé segue firme como um dos barbeiros mais antigos do Espírito Santo. Foto: Divulgação

Aos quase 90 anos, Uylton dos Santos mantém uma rotina que poucos conseguem sustentar. Conhecido como Budé, ele trabalha todos os dias da semana, sem folga, incluindo sábados, domingos e feriados como Natal, Ano-Novo e a Sexta-feira da Paixão. Por isso, é apontado como um dos barbeiros mais antigos do Espírito Santo ainda em atividade.

O trabalho começou cedo. Aos 14 anos, Budé já tinha responsabilidades. Desde então, nunca mais parou. Hoje, a barbearia onde atua, no centro de Conceição da Barra, é mais do que um ponto comercial. Tornou-se um espaço de convivência, memória e histórias que atravessam gerações.

Uma rotina que nunca para

A atividade exige atenção, precisão e longas horas em pé. Ainda assim, Budé segue firme atrás da cadeira, com mãos experientes e conversa afiada. “Esse trabalho me permitiu sustentar minha família e, até hoje, ajuda nas despesas da casa e nas minhas pessoais”, afirma.

Além disso, quem passa pela porta dificilmente deixa de ser cumprimentado. O barbeiro faz questão de manter o hábito. “Eu dou bom dia e boa tarde a toda hora”, brinca, em meio a risadas.

Durante a entrevista para esta reportagem, realizada em um sábado à tarde, sob sol forte, Budé interrompeu a conversa diversas vezes para desejar “boa tarde” a moradores e visitantes que passavam pela calçada.

Clientes, política e histórias curiosas

Budé trabalha todos os dias e virou um personagem vivo da história de Conceição da Barra. Foto: Divulgação

Ao longo de mais de oito décadas de trabalho, Budé perdeu a conta de quantas pessoas já atendeu. Ainda assim, garante que foram milhares. Entre elas, políticos, empresários, trabalhadores, figuras folclóricas da cidade e também mulheres que buscavam seus serviços.

Entre os clientes conhecidos, ele lembra com orgulho do ex-prefeito de Conceição da Barra e ex-deputado estadual Mateusão, nome político de Mateus Vasconcelos. “Quando ele era deputado, de 2003 a 2006, às vezes mandava um carro me buscar aqui na Barra para eu ir até Vitória cortar o cabelo e fazer a barba dele. Até hoje, sempre que vem à cidade, corta o cabelo comigo”, conta.

Além disso, histórias curiosas fazem parte da rotina. Uma delas quase terminou em confusão. Budé lembra que fazia a barba de um ex-delegado da cidade quando Isaías dos Cachorros, conhecido pelo jeito brincalhão e pelo excesso de bebida, apareceu na porta. “Tentei impedir a entrada, mas ele olhou para o cliente e falou: ‘oh posição boa de passar a navalha’. Ainda bem que o delegado estava cochilando e não ouviu”, relembra, rindo.

Trabalho desde a adolescência

Antes de se tornar barbeiro, Budé fez de tudo um pouco. Vendeu beiju, trabalhou em serrarias e levou marmitas para trabalhadores. “Naquela época, adolescente podia trabalhar”, explica.

Como essas atividades aconteciam de segunda a sexta-feira e o pai não queria o filho sem ocupação nos fins de semana, ele passou a arrumar quartos em pensões da cidade. Aos 16 anos, começou a aprender a profissão que seguiria por toda a vida.

Teve vários mestres ao longo do caminho. O primeiro foi Vantuil Fonseca. Depois vieram Paizinho, Ernani Benso, Jardel, José Evaristo e Lionel. “Com cada um eu aprendi um pouco”, resume.

A barbearia própria e a decisão arriscada

A barbearia onde Budé trabalha até hoje surgiu por incentivo de seu Kidinho, dono do ponto. Antigo empregador na pensão, ele reconheceu o esforço do jovem e ofereceu o espaço, que estava vago.

Inicialmente alugado, o imóvel foi comprado depois com um empréstimo no Banestes, recém-chegado à cidade na época. A decisão foi ousada e paga em muitas prestações. Ainda assim, deu certo.

Desde então, o barbeiro nunca mais fechou as portas. “Na Sexta-feira da Paixão, antigamente, as mulheres nem varriam a casa para guardar o dia santo. Mas para mim sempre foi dia de trabalho. Sempre aparece um cliente. Minha obrigação é esperar o freguês”, diz.

Família grande e trabalho dividido

O trabalho sustentou uma família numerosa. Foram dois casamentos e 11 filhos. Com a primeira esposa, Antônia, teve oito filhos. Após a separação, criou sozinho vários deles ainda pequenos. Mais tarde, casou-se com Hilda, com quem viveu até 2022 e não teve filhos. Além disso, é pai de outros três filhos de um relacionamento anterior.

Atualmente, Budé mora com a filha mais velha, Oliverina. “Ela cuida muito bem de mim”, diz, emocionado. Dos filhos, apenas Aglailton seguiu a profissão do pai. Os dois dividem a barbearia. “Tem dia que ele trabalha mais, tem dia que sou eu, e tem dia que a gente não faz nada”, brinca o barbeiro.

Enquanto estiver ativo

Aposentadoria não faz parte dos planos. Para Budé, o trabalho também é convivência. “Aqui o tempo passa rápido. A gente conversa, recebe gente. Enquanto eu estiver ativo, vou continuar sendo barbeiro”, afirma.

Bem-humorado, o barbeiro resume a própria vida com uma frase que virou marca registrada. “Aprendi a fazer três coisas na vida: cortar cabelo, fazer barba e criança.” Rindo, nega a fama de namorador, mas mantém o bordão que ecoa entre risadas na barbearia. “Budé, o homem que gosta de mulher”.

Assim, entre o som da tesoura, histórias repetidas e cumprimentos constantes, o barbeiro mais antigo do Espírito Santo segue fazendo o que sempre fez. E, aos quase 90 anos, continua dando sentido aos próprios dias sem pensar em fechar as portas.