Urbanismo

Amacentro: desafio é qualificar o que já existe no Centro de Vitória

Associação defende a adequação de dezenas de edifícios no Centro para uso habitacional

Centro de Vitória. Foto-Reprodução
Centro de Vitória. Foto: Reprodução

A destinação de antigos prédios em desuso para moradia popular está entre as pautas principais defendidas pela Associação de Moradores do Centro de Vitória (Amacentro). A entidade tem reforçado sua campanha em defesa da requalificação do Centro de Vitória, propondo políticas públicas como a continuidade das ações de transformação desses antigos edifícios em espaços para habitação.

Em Entrevista exclusiva para o site Simnoticias, o presidente da Amacentro, Walace Bonicenha, considera que tais políticas não devem ser tratadas como um processo de “revitalização” porque o Centro de Vitória “tem vida e pulsa”, e o que o bairro necessita é de qualificação das estruturas já existentes.

Confira a entrevista

SIM: Como a Amacentro se coloca diante dos projetos de “revitalização” do Centro com a recuperação e adaptação de antigos edifícios para moradia?

A Associação de Moradores do Centro de Vitória (Amacentro) se posiciona de forma claramente favorável e propositiva às iniciativas de recuperação de edifícios antigos para uso habitacional no Centro e nos bairros adjacentes. A Amacentro evita o uso do termo “revitalização”, porque o Centro de Vitória já é um território vivo, pulsante, com intensa atividade cultural, social e comercial. O que defendemos é um processo contínuo de requalificação urbana.

A Associação se posiciona de forma muito favorável e propositiva em relação aos projetos de moradia no Centro e nos bairros adjacentes. Iniciativas como o projeto Morar no Centro, que fora inserido no programa Habitar Vitória, são fundamentais para qualificar o território e aumentar sua densidade residencial, especialmente em áreas como a Avenida Jerônimo Monteiro e trechos da Avenida Presidente Florentino Avidos, onde há diversos imóveis que poderiam — e deveriam — ser destinados à habitação.

Como o senhor avalia a utilização de edifícios como do Hotel Estoril e do Tabajara para moradia? A iniciativa deu certo?

Sim. Experiências bem-sucedidas como os edifícios Estoril, Tabajara, Pouso Real e Santa Cecília  demonstram que é plenamente possível adaptar o patrimônio construído para uso residencial, fortalecendo a função social da propriedade, dinamizando a economia local e garantindo diversidade social, sem promover gentrificação*. Para a Amacentro, trazer pessoas para morar no Centro é condição essencial para qualquer projeto urbano sério, sustentável e socialmente justo.

*Gentrificação é um processo de valorização dos imóveis e de mudança no perfil social e econômico de bairros populares ou áreas centrais, que passam a atrair moradores com maior poder aquisitivo e novos empreendimentos. Embora esse movimento traga melhorias urbanas, ele também eleva o custo de vida, o que acaba afastando moradores antigos e comércios tradicionais locais que não conseguem acompanhar os novos preços, sendo empurrados para fora do território.

O que se pode dizer hoje dos prédios do Cine Santa Cecília, do IAPI e do Edifício Fábio Ruschi?  

O antigo Cine Santa Cecília hoje cumpre função residencial, abrigando famílias e mantendo o edifício integrado à dinâmica cotidiana do bairro, o que consideramos um exemplo positivo de reaproveitamento urbano.

O prédio do IAPI foi destinado pela União, por meio da Secretaria do Patrimônio da União (SPU), para habitação popular e encontra-se em processo de regularização junto à Caixa Econômica Federal, com perspectiva de se consolidar como mais um importante projeto habitacional no Centro e foi destinado para o programa Minha Casa Minha Vida – Entidades.

Já o Edifício Fábio Ruschi, de propriedade do Governo do Estado, está em processo de reforma e atualmente abriga diversas secretarias estaduais, contribuindo para a dinamização administrativa e econômica da região central.

Quantos e quais edifícios do Centro poderiam ser requalificados para uso habitacional?

A Amacentro avalia que existem dezenas  imóveis com potencial imediato para requalificação habitacional apenas no perímetro mais consolidado do Centro de Vitória, especialmente nos trechos da Avenida Jerônimo Monteiro, Avenida Presidente Florentino Avidos e Rua General Osório. Além dos imóveis públicos, há também edifícios privados com grande potencial, como o antigo Hotel Sagres e outros localizados ao longo da Avenida Jerônimo Monteiro.

Estamos falando de imóveis hoje subutilizados, vazios ou com ocupação parcial, em áreas com excelente oferta de transporte público, comércio, serviços e equipamentos culturais. Esse número se refere à quantidade de prédios — o total de unidades habitacionais poderia ser muito maior.

A conversão desses edifícios em moradia fortalece a função social da propriedade, amplia o número de moradores, movimenta a economia local e contribui para uma requalificação contínua do Centro, respeitando sua identidade histórica.

Como anda o processo de requalificação do Centro de Vitória e quais ações o senhor destacaria; a Amacentro vem sendo ouvida?

Walace Bonicenha: “A Associação vem sendo ouvida, embora defenda que a participação social ainda pode e deve ser ampliada”.

O processo está em curso e apresenta avanços concretos, fruto da articulação entre diferentes esferas do poder público. A Amacentro acompanha de perto, participa de reuniões, mantém diálogo constante com instituições públicas e se posiciona de forma colaborativa, defendendo sempre a permanência dos moradores, a função social dos imóveis e a valorização da vida urbana existente. Entre os principais destaques estão os seguintes:

. A implantação da Cidade Administrativa estadual, trazendo diversos órgãos públicos para o Centro, fortalecendo o comércio e ocupando edifícios antes subutilizados;

. A chegada do sistema aquaviário, que ampliará a acessibilidade e integração metropolitana;

. O fortalecimento do polo cultural, com  a reabertura do Teatro Carlos Gomes, as programações do  Sesc Glória, a FAFI , do MAES, do HUB+ES; a vinda do Museu Vale, do espaço cultural da Secult, e da futura instalação da Escola de Portos do Sesc nos galpões do Porto (a partir de 2026); As atividades e dinâmicas culturais do centro e requalificação de espaços públicos;  As políticas federais de destinação social dos imóveis da União.

A Associação vem sendo ouvida, embora defenda que a participação social ainda pode e deve ser ampliada.

Há alguma ação que a Amacentro tem proposto em especial?

Um ponto que a Associação considera urgente é a necessidade de enfrentar o problema da poluição visual e do risco urbano causado pelo excesso de cabos e fios aéreos. O enterramento do cabeamento, especialmente das redes de energia e telecomunicações, deixou de ser apenas uma questão estética: trata-se de segurança urbana, continuidade dos serviços e proteção da população contra quedas, acidentes e apagões. É uma agenda estrutural que precisa ser incorporada ao processo de requalificação.

Por que o senhor tem dito que o termo “revitalização” para o Centro de Vitória é ultrapassado?

Porque o Centro já tem vida. As ruas Sete de Setembro, Gama Rosa, Maria Saraiva, Duque de Caxias e tantas outras demonstram diariamente a vitalidade cultural, comercial e social do território. O Centro pulsa, recebe eventos, abriga moradores, trabalhadores, artistas, comerciantes e visitantes.

O desafio não é “dar vida”, mas qualificar o que já existe: recuperar imóveis ociosos, adaptar prédios antigos para novos usos — especialmente moradia —, melhorar os espaços públicos, fortalecer cooperativas culturais, iniciativas empreendedoras e redes econômicas locais. Por isso, a Amacentro adota o conceito de requalificação urbana.

Como a Associação avalia a recuperação do Mercado da Capixaba?

A avaliação é positiva. Os efeitos são graduais, mas visíveis. Comerciantes e empreendedores que ali já se estabeleceram  estão construindo uma forte relação de pertencimento com o espaço, dialogando com a comunidade e promovendo atividades culturais e artísticas.

Embora ainda existem desafios ligados ao projeto arquitetônico e à operação do equipamento, o mercado avança como espaço de convivência, cultura e economia local.

Qual a importância da obra de restauro do Theatro Carlos Gomes?

É um verdadeiro presente para o Centro e para a cidade. A reabertura era aguardada com grande expectativa. O teatro tem enorme valor simbólico para a cultura capixaba, para os artistas e para os moradores.

Ele consolida o Centro não apenas como área central, mas como Centro Histórico Cultural Metropolitano, conectado a um conjunto de equipamentos como o Maes, Casa Porto das Artes, Fafi, Mercado da Capixaba, Sesc Glória, Arquivo Público, HUB cultural e outros espaços públicos e privados dedicados à arte.

Ainda nesse sentido, qual a importância dos incentivos artísticos e culturais?

São fundamentais. Leis de incentivo, apoio financeiro, reconhecimento institucional e suporte a bares culturais, blocos de carnaval, coletivos artísticos e espaços independentes fortalecem a economia criativa, geram trabalho e mantêm viva a identidade cultural do Centro. Cultura também é política pública de desenvolvimento urbano.

Como a Associação avalia o projeto de requalificação do Porto de Vitória?

A Amacentro avalia que os armazéns e novos usos ligados à Vports, Vale, Governo do Estado e Senai podem gerar uma nova dinâmica de circulação de pessoas e atrair atividades econômicas para a região histórica. Isso pode estimular comércio, turismo, serviços, emprego e renda.

Mas alertamos que isso precisa vir acompanhado de infraestrutura básica para o entrono como: pontos de hidratação, sanitários públicos dignos e limpos, acessíveis a todas as idades, além de melhorias urbanas gerais no entrono.

E a questão da segurança no Centro?

A Associação acompanha atentamente. Participamos de reuniões frequentes com órgãos de segurança e realizamos estudos. Muitas publicações sobre violência no Centro utilizam dados distorcidos, como estatísticas concentradas em períodos específicos (ex.: Carnaval), generalizando uma realidade que não corresponde ao cotidiano. Defendemos políticas baseadas em dados qualificados, presença comunitária e integração urbana, com uso de tecnologia.

São muitos os prédios abandonados e em ruínas no Centro. O que fazer com eles? O Programa Retrofit funciona?

Primeiro é preciso perguntar: por que estão abandonados? Quais interesses existem por trás disso? Se forem de valor histórico, devem ser restaurados. Se não possuírem identidade arquitetônica relevante, podem ser demolidos para novos projetos, desde que respeitando o Plano Diretor Urbano (PDU) e a legislação vigente. O abandono não pode servir à especulação imobiliária.

Sim. O Programa Retrofit é um excelente instrumento de recuperação de imóveis, especialmente com incentivos como isenção de IPTU. Precisa ser mais divulgado e articulado com políticas habitacionais, para que resulte efetivamente em moradia para a população.

E sobre os projetos voltados para a Vila Rubim, Morro da Capixaba e Praça Getúlio Vargas?

A Amacentro considera fundamentais os projetos estruturantes de mobilidade para os morros da região central. É necessário estudar soluções como planos inclinados, teleféricos urbanos ou sistemas similares que conectem parte alta e parte baixa, facilitando o deslocamento diário de moradores, ampliando o acesso ao comércio, aos serviços, ao trabalho e aos equipamentos públicos.

Na Vila Rubim, destacamos positivamente a ampliação do território com o ambulatório da Santa Casa, parabenizando a provedora Dra. Penha Dávila.

Sobre a Getúlio Vargas: O novo projeto integrou melhor a praça ao entorno e implantou um modelo moderno de coleta de lixo. Mas ainda é necessário incluir no território do Centro áreas esportivas para jovens e ampliar o plantio de árvores. O Centro sofre com déficit de áreas verdes, o que, infelizmente, a praça não contempla totalmente.

Parece que já está acontecendo algum impacto imobiliário no Centro, como a elevação do valor dos aluguéis. Se isso está de fato ocorrendo, a que se pode atribuir e qual é a proposta da Amacentro nesse sentido?

Sim. Há um aumento progressivo dos aluguéis. Isso decorre da ampliação de serviços, equipamentos públicos e investimentos, somado à escassez de novas moradias, já que muitos imóveis permanecem vazios na região da avenida Jerônimo Monteiro e General Osório.

. Não há fiscalização efetiva da função social da propriedade nem aplicação consistente do IPTU progressivo e não permitindo que novos imóveis surjam como oferta e nem existe uma clareza sobre a situação dos  impostos sobre esses imóveis vazios.

Parte do capital imobiliário, que antes atuava em outras regiões da cidade, volta-se agora para o Centro Histórico, com lógica predominantemente especulativa e busca um discurso de degradação local. Sem políticas firmes de habitação e retrofit, esse processo pode gerar gentrificação e expulsão silenciosa de moradores.