Luiz Henrique Stanger
Luiz Henrique Stanger
Ranking que coloca Vitória entre os metros quadrados mais caros do país esconde uma combinação de falácia estatística, restrição de oferta e regras urbanas ultrapassadas

Vitória vem aparecendo com frequência em rankings nacionais e manchetes sobre mercado imobiliário, qualidade de vida e segurança pública. No último ano, a cidade figurou entre as capitais brasileiras com maior redução de homicídios, recebeu prêmios em governança, transparência fiscal e digitalização de serviços, e ficou entre as primeiras posições em IDH e competitividade urbana.
Entretanto, entre todas as manchetes sobre Vitória, nenhuma viralizou tanto quanto a que afirma que a capital capixaba possui o metro quadrado mais caro do Brasil. O título chama atenção, gera orgulho em alguns, desconforto em outros e uma avalanche de postagens nas redes sociais. Mas a pergunta central é outra: por que o metro quadrado em Vitória está tão caro?
E será que o ranking reflete a realidade?
Como profissional do mercado imobiliário de Vitória desde 2008 e produtor de conteúdo no projeto Vai Faltar Imóvel, demorei para me posicionar, mas acredito que vale avançar em dois pontos que raramente aparecem no debate: a falácia estatística e a restrição de oferta.
Para começar, é importante entender como são construídos esses rankings de “metro quadrado mais caro do país”. Em geral, eles utilizam dados de anúncios (oferta), e não dados de transações imobiliárias efetivamente fechadas. Isso significa que o índice não diferencia:
A consequência é uma média estatística sem contexto que mistura:
Além disso, regiões de mercado imobiliário informal — como São Pedro, Maruípe e Bairro de Fátima — não entram no cálculo, porque a maior parte das ofertas não está em portais, não tem escritura, não recolhe ITBI e, por isso, não aparece no índice.
Outro fator ignorado: anúncio não é venda. No dia a dia, o preço pedido costuma sofrer entre 3% e 12% de desconto no fechamento, dependendo das condições de pagamento.
Portanto, quando alguém pergunta “por que o metro quadrado de Vitória é o mais caro do Brasil?”, parte da resposta é: porque a metodologia mede oferta anunciada, não preço transacionado e sem segmentação.
Esse é um exemplo típico daquilo que o economista americano Thomas Sowell chama, em seu livro “Fatos e Falácias da Economia”, de falácia dos números: quando dados brutos são apresentados sem variáveis essenciais, produzindo conclusões estatisticamente verdadeiras, porém economicamente enganosas.
Mesmo expondo o problema metodológico, ainda assim resta um fato relevante: os imóveis em Vitória realmente estão mais caros, e isso não tem relação direta com praia, beleza, clima ou qualidade de vida, como frequentemente se argumenta.
A explicação central é urbana e econômica: Vitória não permite produzir unidades na escala necessária.
Conversando com incorporadores, construtores, arquitetos e investidores que atuam no mercado imobiliário de Vitória, o diagnóstico é claro:
os preços sobem porque a oferta é artificialmente restrita pelas regras de uso e ocupação do solo.
Os principais entraves citados são:
Na prática, a legislação urbanística impede que terrenos tenham o melhor aproveitamento. Com menos unidades por empreendimento, o custo de construção por unidade sobe, e o preço final acompanha.
Se a cidade não permite adensar, o mercado não consegue produzir, e os preços sobem — não porque Vitória virou Monaco, mas porque a aritmética urbana é implacável:
pouca oferta + demanda constante = preço alto.
Há outro componente importante: Vitória é uma ilha com território limitado.
Aproximadamente:
25% a 30% é área do aeroporto,
25% a 30% é maciço rochoso e preservação,
o restante é disputado entre moradia, comércio, indústria, vias e equipamentos públicos.
Quando somamos escassez física + restrição legal, entendemos por que o metro quadrado em Vitória sobe.
Ao contrário do que se pensa, densidade bem planejada melhora a cidade, e não o oposto. Cidades como São Paulo, Nova Iorque e Tóquio vêm adotando:
Quando cidades ocupam seus espaços, surgem:
Quando cidades proíbem a ocupação, surgem:
O debate sobre por que Vitória tem o metro quadrado mais caro do Brasil não pode se restringir ao ranking, à foto do portal ou ao post viral.
É um assunto de urbanismo, economia e política pública.
A cidade não é cara porque é perfeita — é cara porque não se pode construir com eficiência.
Se queremos discutir acessibilidade, habitação e qualidade urbana, precisamos parar de olhar apenas para o ranking e começar a olhar para o Plano Diretor, para o coeficiente de aproveitamento, para a densidade permitida e para o modelo de cidade que queremos construir.
O resto é falácia estatística.