Na urna
GABRIEL NADIPPEH
A festa que nasceu nas periferias e virou símbolo do país segue excluindo o favelado do protagonismo

Quando se fala de carnaval, o Brasil dá aula. Ele não existe sem as Favelas, porque nasceu e cresceu dentro delas, com seus símbolos, culturas e histórias. Surgiu a margem, em espaços excluídos que encontraram na comemoração uma maneira de se expressar, denunciar violências, desigualdades e ao mesmo tempo, se divertir. Dentro das Periferias a dança, música e criatividade são resistências à exclusão social, um antídoto contra o esquecimento.
O carnaval que vemos hoje não surgiu pronto, ele é fruto do choque entre tradições europeias e a força das culturas africanas. No samba, nesse encontro e sincretismo, a festa ganhou corpo e identidade, com ritmo e coragem própria.
Como quase tudo que nasce na periferia, o samba foi duramente reprimido pelo Estado e pela polícia. Era visto como bagunça, desordem, coisa de vagabundo. Normal e respeitável eram os bailes de salão da elite, cópia dos modelos europeus. O mesmo roteiro se repete hoje com o rap, o hip hop, o funk e outras cenas que seguem sendo alvo de repressão e preconceito, mas isso é assunto para outra conversa.
A criminalização do samba não acontecia somente através da lei, mas também pelo olhar da sociedade, e quem participava dessas festas eram em sua maioria, pessoas negras. Aos poucos, blocos e escolas de samba foram se organizando e surgindo como formas de resistência, ocupando as ruas e afirmando seu lugar. Com o tempo, artistas de prestígio e outros grupos sociais foram se aproximando, e a comemoração foi se popularizando até virar o espetáculo nacional que atrai turistas do mundo inteiro, o nosso querido carnaval.
Em muitos lugares, o carnaval virou vitrine, um produto caro em que o favelado não cabe mais como protagonista. Os preços altíssimos dos camarotes, abadás e até espaços das arquibancadas expulsam quem prepara a festa. A mesma comunidade que constrói o enredo, cria as fantasias e ensaia meses a fio, muitas vezes ficam escondidas
e sub representadas.
Ainda assim, a magia persiste. Por alguns dias, as histórias reais se encantam e as histórias encantadas se tornam realidade. Mas essa alegria, por mais intensa que seja, não muda o fato simples: se quem faz o carnaval ficar do lado de fora, o país estará desfilando para longe de si mesmo.