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A revolta da geração Z no Nepal e o redesenho político digital

Levante trata-se de um fenômeno que expõe tensões profundas sobre poder, liberdade e responsabilidade

Levante da geração z no Nepal, em 2025. Foto: Wikimedia Commons/Reprodução
Levante da geração z no Nepal, em 2025. Foto: Wikimedia Commons/Reprodução

O recente levante popular no Nepal, desencadeado pelo bloqueio de redes sociais, pela mobilização da geração Z e pela escolha de uma primeira-ministra interina por meio da plataforma Discord, vai além de um episódio pontual de instabilidade política, ao evidenciar o redesenho das instituições frente aos avanços tecnológicos e às transformações geracionais. Trata-se de um fenômeno que expõe tensões profundas sobre poder, liberdade e responsabilidade em sociedades cada vez mais mediadas digitalmente.

Em setembro de 2025, o governo nepalês bloqueou 26 plataformas, incluindo Facebook, WhatsApp, Instagram e X, alegando combate à desinformação. A reação foi imediata, sobretudo entre jovens da geração Z, que enxergaram na medida não apenas um ataque à liberdade de expressão, mas à própria estrutura de organização, mobilização e acesso a oportunidades. Os protestos rapidamente escalaram, resultando em dezenas de mortos em confrontos. Nesse cenário de vácuo político, ativistas promoveram, no servidor “Youth Against Corruption”, da plataforma Discord, uma votação informal que indicou Sushila Karki, ex-juíza-chefe, para o cargo de primeira-ministra interina.

Esse movimento revela duas teses centrais. A primeira é a aspiração por liberdade econômica e autonomia. Para esses jovens, liberdade não é apenas um ideal abstrato, mas a possibilidade concreta de empreender, influenciar e se expressar fora do monopólio do poder político tradicional. O bloqueio das redes representou a perda de capital comunicativo e social. A adoção do Discord como alternativa mostrou a disposição em criar mecanismos próprios de mercado, assumindo risco e responsabilidade individual em processos de decisão coletiva.

A segunda tese diz respeito à proteção da esfera privada. O bloqueio estatal invadiu domínios que, embora digitais, fazem parte da propriedade privada dos indivíduos: aparelhos, conexões, dados, opiniões e formas de associação. A escolha de Karki pelo Discord simbolizou a tomada de posse desses espaços, afirmando que a legitimidade política não precisa se restringir às estruturas tradicionais.

O futuro dessa revolta dependerá da resposta institucional. Se o governo adotar transparência, respeitar a liberdade digital e limitar seu poder coercitivo, poderá consolidar um precedente em favor de valores liberais. Contudo, riscos permanecem: manipulação, anonimato mal-empregado, polarização e vigilância excessiva podem comprometer conquistas recentes.

Por fim, o redesenho político não se consolidará apenas por protestos ou votações digitais. Exige reformas institucionais que garantam participação efetiva, direitos digitais e limites claros à ingerência estatal sobre plataformas privadas. Sem isso, o movimento corre o risco de ser neutralizado ou capturado por forças de poder tradicionais.

Em síntese, a revolta da geração Z no Nepal expressa três necessidades convergentes: liberdade de participação, proteção da esfera privada e responsabilidade individual. O digital deixou de ser simples ferramenta para se tornar centro de legitimidade política. Ao escolher uma líder pelo Discord e resistir por meios próprios, a juventude nepalesa demonstra que o poder já não se concentra em um único polo. A política, daqui em diante, será mais descentralizada, direta e responsável — um desafio e também uma promessa para as democracias contemporâneas.

MATHEUS

Matheus Mazza

é Controller Jurídico na Precatur e membro do IBEF Academy.

Este texto expressa a opinião do autor e não traduz, necessariamente, a opinião do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças do Espírito Santo.