Eduardo Amorim

Os desafios da judicialização da saúde em 2026

Judicialização da saúde deixou de ser um fenômeno isolado para se tornar parte estrutural do sistema brasileiro

Há um aumento no número de casos relacionados a plano de saúde na justiça. Foto: Divulgação
Há um aumento no número de casos relacionados a plano de saúde na justiça. Foto: Divulgação

A judicialização da saúde deixou de ser um fenômeno isolado para se tornar parte estrutural do sistema brasileiro. Em 2026, esse cenário se intensifica diante de três vetores que se cruzam: o avanço tecnológico na medicina, a nova Agenda Regulatória da ANS e a melhor compreensão do consumidor sobre seu papel dentro da lógica do sistema.

O crescimento das ações judiciais não decorre apenas da má-fé das partes ou de excessos individuais, mas da ausência de respostas eficientes e tempestivas por parte do sistema de saúde. Quando o paciente busca o Judiciário, na maioria das vezes, já enfrentou negativas administrativas, demora na autorização de procedimentos ou interpretações restritivas dos contratos.

O primeiro grande desafio é a fragmentação das decisões judiciais. Casos semelhantes recebem soluções distintas, criando insegurança jurídica para consumidores, médicos e operadoras. A ausência de parâmetros técnicos uniformes faz com que juízes sejam obrigados a decidir sobre temas altamente especializados, como tratamentos inovadores, medicamentos de alto custo e terapias fora do rol tradicional.

Outro ponto crítico é o impacto financeiro da judicialização. Decisões individuais, embora legítimas, podem comprometer a sustentabilidade do sistema como um todo. O desafio está em equilibrar o direito à saúde com a necessidade de preservar o funcionamento coletivo dos planos e do SUS, evitando que poucos consumam recursos que deveriam atender muitos.

Em 2026, o desafio deixa de ser apenas a lentidão regulatória e passa a ser a harmonização entre inovação e regulação. A ciência avança em ritmo acelerado, enquanto o sistema regulatório, embora mais dinâmico do que no passado, ainda enfrenta limites operacionais e técnicos para acompanhar a velocidade das novas terapias. A adoção de ciclos mais curtos e periódicos de atualização do Rol da ANS representou um avanço relevante na desburocratização do processo de incorporação. Ainda assim, o intervalo entre a evidência científica e a efetiva cobertura assistencial continua sendo um dos principais fatores que levam pacientes a recorrer ao Judiciário.

Há ainda o desafio da falta de diálogo institucional. Operadoras, gestores públicos, médicos e usuários ainda atuam de forma isolada, quando o problema exige soluções integradas. Sem transparência e canais eficazes de mediação, o processo judicial continua sendo o caminho mais rápido — embora não seja o mais adequado.

A judicialização da saúde não deve ser combatida, mas compreendida. Ela revela onde o sistema falha e onde precisa evoluir. O verdadeiro desafio de 2026 é transformar o conflito em oportunidade de aperfeiçoamento, garantindo que o direito à saúde seja exercido com equilíbrio, racionalidade e justiça.


Este texto expressa a opinião do autor e não traduz, necessariamente, a opinião do Sim Notícias.