EVANDRO MILET
evandro milet
Teorias da conspiração foram substituídas pela crueza explícita da realidade e a nova ordem mundial está sendo implementada por Trump

O período do governo de Stalin na União Soviética foi caracterizado pela permanente política de eliminação de adversários internos, exigindo uma obediência cega. A sua morte foi, em parte, resultado de uma rede de informações que dava prioridade à ordem e desprezava a verdade. Os criadores de mito soviéticos inventaram uma teoria da conspiração segundo a qual os médicos judeus assassinaram sistematicamente destacados membros do regime, a pretexto de lhes prestar assistência médica. A teoria sustentava que os médicos eram agentes de um complô global americano-sionista, atuando em colaboração com traidores dentro da polícia secreta. No começo de 1953, centenas de médicos e agentes da polícia secreta foram presos e torturados para denunciar cúmplices. Como uma grande proporção de médicos soviéticos era de judeus, as pessoas passaram a temer médicos em geral.
Em março de 1953 Stálin sofreu um derrame. Desmaiou em sua dacha e ficou horas deitado, incapaz de pedir ajuda. Tarde da noite, um guarda reuniu coragem, entrou e viu o líder estirado no chão, porém vivo. Às 3 da madrugada, membros do Politburo chegaram e começaram a discutir sobre o que fazer. Por mais algumas horas ninguém ousou chamar um médico, vai que ele acorda na hora. Certamente acharia que era um complô e mandaria fuzilar todos. Quando finalmente resolveram chamar especialistas médicos, não havia mais o que fazer. A teoria da conspiração gerou consequências.
Essa história é contada por Yuval Harari no pouco lido, porém excelente, “Nexus, uma breve história das redes de informação, da Idade da Pedra à inteligência artificial”, publicado pela Companhia das Letras.
Muitos eventos são ótimos para essas teorias da conspiração como as do pouso na lua, que teria sido uma encenação de propaganda americana e das torres gêmeas, pretensamente obra diabólica dos próprios americanos para justificar invasões de países árabes. O assassinato de Kennedy é típico. A conspiração passa por russos, cubanos, Máfia, racistas do sul, CIA e FBI. Dizem que havia mais de um atirador e que a autópsia foi forjada, entre outras variações da história. As mortes do Papa João Paulo I, de Getúlio, da princesa Diana e de PC Farias também têm suas teorias conspiratórias.
Outra teoria antiga, mas desmoralizada nos tempos atuais, dizia que as grandes empresas de petróleo não deixavam que se desenvolvessem carros elétricos, movidos a hidrogênio ou até à água ou a moto-contínuos, como de vez em quando aparecem por aí. Mais recentemente, na época da pandemia, com todo mundo trancado em casa, o ambiente ficou ótimo para histórias fantásticas. O vírus da Covid teria sido disseminado pela China para dominar o mundo, a quase totalidade dos cientistas do mundo teriam sido subornados pelas indústrias farmacêuticas para aprovar a vacina e negar a eficácia da cloroquina e da ivermectina. Outra fantástica história nega a emergência climática aceita pela vasta maioria dos cientistas e por mais de 190 países reunidos nas várias COPs que acontecem anualmente. Sempre há um médico que acha que é cientista e um climatologista amador brandindo dados e argumentos alternativos.
Outra teoria que evoluiu na pandemia, mas tem perdido força é a NOM-Nova Ordem Mundial que se refere a uma teoria conspiratória de que, supostamente, certas elites políticas e governos planejam a implantação de um governo mundial totalitário. Nessa teoria, uma poderosa organização secreta estaria conspirando para governar o mundo por meio de um governo mundial autoritário — que iria substituir os Estados-nação soberanos.
Nesse momento, as teorias da conspiração foram substituídas pela crueza explícita da realidade e a nova ordem mundial está sendo implementada por Trump, sem teoria e sem precisar da conspiração de mais ninguém.
Esperemos que, como nos filmes, James Bond apareça no final para derrotar os vilões e seus planos megalomaníacos que ameaçam dominar o mundo.