evandro milet

A pergunta básica para uma startup é sobre qual problema ela resolve. As grandes sacadas acontecem pela percepção aguçada de observadores, casada com a tecnologia disponível. Em muitas situações o problema fica um pouco escondido pela ausência de alternativas.
Tínhamos o problema de esperar um táxi passar onde estávamos ou ir até um ponto que poderia não estar próximo, muitas vezes com a desagradável surpresa da corrida não ser do gosto do motorista ou da procura ser debaixo de chuva. Aliás, conta a lenda que os criadores do Uber tiveram a ideia quando tiveram problema de encontrar um táxi em Paris com a neve caindo. Mas a solução não aconteceria se não existissem GPS e smartphones.
Problemas percebidos da observação do dia-a-dia podem caber a qualquer pessoa minimamente ligada. A coisa fica mais complicada com problemas não observáveis em situações corriqueiras como pegar um táxi. Dentro de complexos industriais, a percepção só acontece com pessoas que entendem os processos e têm noção das tecnologias existentes. Ou acontece com quem é capaz de desenvolver uma nova tecnologia e conhece os processos.
As startups deeptechs acontecem por esse lado, quando pesquisadores criam novidades nas suas bancadas por acaso ou focados em arranjar uma solução para um problema complexo. O exemplo da polilaminina, criada pela cientista da UFRJ, Tatiana Sampaio, é bem esse caso, embora não tenha gerado uma startup, exatamente porque há uma empresa farmacêutica em parceria no desenvolvimento. Se a pesquisadora tivesse todos os recursos necessários para tocar o projeto poderia formar a sua deeptech. Projetos desse tipo demandam muitos recursos e tempo de desenvolvimento. Os fundos de venture capital, normalmente com prazos limitados, não costumam financiar projetos dessa complexidade.
Preferem as startups de software que escalam rápido e demandam menos recursos. Outro tipo de startups, as chamadas hardtechs, vêm normalmente das engenharias e envolvem coisas físicas. Os robôs humanoides que vemos na internet fazendo acrobacias têm muito de mecânica, hardware, automação, microeletrônica, sensores e materiais. As baterias dos veículos elétricos, assim como os equipamentos necessários na transição energética demandam elementos químicos e as chamadas terras raras, pauta atual da geopolítica mais delicada.
Essa é a nova onda de problemas a serem resolvidos, que exigem ciência e engenharia de ponta. E é aí que o Brasil está claudicante. Temos a polilaminina, temos a Embraer, a Weg, a Petrobras com engenharia do mais alto nível, mas é muito pouco para um país como o Brasil. No século passado rivalizávamos em PIB com Coreia e China e ficamos para trás na industrialização. Os cursos de engenharia não são disputados, os engenheiros formados
preferem trabalhar no mercado financeiro, a evasão dos cursos nas universidades é assustadora. E nem temos pessoal de nível técnico que substitua os que se aposentam nos diversos ramos da indústria.
Temos que gerar empresas que desenvolvam tecnologia, que atraiam as melhores cabeças, que possam competir com as melhores do mundo. Usar tecnologias é bom para aumentar a produtividade, mas o que interessa mais profundamente é a capacidade de conceber e gerar produtos inovadores. Falta no Brasil essa capacidade de fazer as coisas físicas que resolvam problemas complicados. Faltam deeptechs e hardtechs. Que os poucos casos de sucesso sejam motivadores e mobilizadores.