rô santiago

Ninguém mais herda uma carreira, todo mundo a constrói

Deixa eu te explicar o que está acontecendo com a sua carreira

O que se vê é uma reinvenção contínua. Foto: Reprodução
O que se vê é uma reinvenção contínua. Foto: Reprodução

Esse movimento de mudança é sério e está todo mundo sentindo. No passado, existiam carreiras herdadas, promessas de estabilidade, previsibilidade de caminhos, profissões consideradas seguras e, muitas vezes, as próprias empresas como eixo e objetivo final. Grandes empresas eram o alvo e também a validação do auge de uma trajetória profissional. A gente vem desse modelo e ele não funciona mais como antes.

A tecnologia substituiu, amplificou, modificou e, em muitos aspectos, tornou tudo mais confuso. A verdade é que já não dá para sustentar uma única carreira como dimensão exclusiva da vida profissional, múltiplas atuações se tornaram normais. Mesmo pessoas que, de fora, têm trajetórias sólidas e referências consolidadas, estão buscando novas fontes de receita, outras formas de atuação e maneiras de monetizar o próprio conhecimento.

Não se trabalha mais para uma única coisa, trabalha-se para várias, simultaneamente, com pesos e objetivos diferentes. Projetos se sobrepõem, se conectam e ampliam o escopo de atuação. O que se vê é uma reinvenção contínua. O roteiro pronto acabou. E mesmo quando parece que ele ainda existe, em concursos públicos, em estruturas corporativas mais rígidas ou em profissões tradicionais, as pessoas continuam buscando outras frentes. Side jobs, projetos paralelos, atividades que complementam não apenas a renda, mas o sentido do trabalho. Porque, muitas vezes, aquela posição estável não mobiliza todas as dimensões de quem a pessoa é.

É comum ver profissionais em cargos considerados desejados, em posições invejáveis, sentindo-se esgotados pela ideia de que a vida inteira será limitada àquele formato. Os momentos de pausa, os fins de semana, as férias, viram espaços de expressão da identidade real. Durante a semana, surge a máscara corporativa.

As pessoas estão se permitindo repensar se as escolhas feitas em formações, decisões e caminhos, realmente as aproximam do futuro que desejam construir. E esse futuro já não é definido apenas por dinheiro ou remuneração. Ele envolve liberdade, impacto, realização, especialização em nichos e subnichos, cruzamento entre hard skills e soft skills, construção de trajetórias desenhadas a partir da própria identidade profissional.

Mesmo nas chamadas carreiras herdadas, medicina, advocacia, negócios familiares, onde havia consultórios, escritórios e trajetórias quase prontas, há um movimento crescente de diversificação: side gigs, novos interesses, novas frentes. A carreira pronta deixou então de ser necessariamente desejável.

Outro pilar que se enfraqueceu foi o tempo de casa como garantia de crescimento. E, junto com ele, a ideia de que o diploma protege a trajetória profissional. Ele continua importante e, em muitos casos, indispensável, mas já não sustenta sozinho uma carreira, um diploma não protege quem não evolui. E pessoas com repertório empírico, com experiências reais e capacidade de execução, muitas vezes se tornam mais relevantes e desejadas do que quem se apoia apenas em títulos. Nesse cenário, ou a pessoa constrói repertório próprio, define direção, aprende a narrar o que faz e trabalha um posicionamento coerente com isso, ou passa a reagir, a improvisar e acaba sendo empurrada pelas circunstâncias.

Chegar deixou de ser o objetivo central, saber para onde se está indo se tornou mais importante. O destino, por si só, não sustenta nada sem consciência do caminho. Isso exige abandonar o piloto automático ao parar de tomar decisões por status, de acumular cursos sem direção e de somar experiências sem um eixo que conecte tudo.

Quando a carreira passa a ser conduzida com intencionalidade, o profissional deixa de ser espectador e assume o protagonismo. Isso aumenta sua responsabilidade, exige escolhas constantes e reforça a ideia de construção contínua. Carreira, hoje, é decisão permanente. É preciso entender que não herdar mais trajetórias prontas não é um problema, é a maturidade do nosso tempo.

Pílula Dourada

Carreira não se recebe, se assume.