sandro rizzato
sandro rizzato
Entre likes e algoritmos, construímos impérios de atenção que desaparecem quando a presença deixa de existir

Nunca foi tão fácil parecer eterno.
Um celular na mão, alguns milhões de seguidores na tela e nasce a ilusão confortável de que a própria existência virou patrimônio. Likes empilhados como se fossem bens registráveis. Stories tratados como se fossem escritura. Algoritmos confundidos com segurança jurídica.
Até que a vida real encerra a transmissão ao vivo.
A morte de figuras públicas revela um detalhe que o entusiasmo digital insiste em esconder. Perfis gigantes continuam existindo, mas apenas como vitrines acesas de uma loja definitivamente fechada. Paulo Gustavo permanece nas redes, mas não transforma mais atenção em receita. Marília Mendonça e Henrique Maderite seguem acumulando visualizações, mas, infelizmente não negociam contratos. Outros influenciadores repetem o mesmo roteiro silencioso: multidões conectadas, faturamento inexistente.
A plateia fica. O caixa vai embora.
Existe uma verdade pouco romântica que raramente entra no feed.
Redes sociais não são patrimônio.
São audiência emprestada.
Território alugado.
Riqueza emocional travestida de ativo.
Plataformas que realmente pagam exigem presença contínua. Sem produção, não há remuneração. Já Instagram e Facebook sempre foram vitrines, nunca cofres. O dinheiro vinha da pessoa viva, capaz de negociar publicidade, contratos e presença pública. Sem ela, sobra apenas a vitrine aberta esperando um consumidor que não existe.
Seguidores não herdam faturamento.
Curtidas não entram em inventário.
Engajamento não paga imposto, muito menos boleto.
Mesmo assim, milhares de criadores constroem suas vidas dentro de plataformas que não controlam. Sem produto próprio. Sem empresa organizada. Sem propriedade intelectual protegida, mas em vida, monitorada pela Lei15.325/2026. Sem qualquer planejamento sucessório. Um império inteiro apoiado sobre termos de uso que podem mudar numa terça-feira qualquer. E é uma pena, mas, o dia final, chega para todos.
É empreendedorismo de espuma: impressiona no volume, desaparece no toque.
Quando chega o inventário, surgem imóveis, veículos, direitos autorais.
Mas o perfil com milhões de pessoas olhando… esse quase nunca se converte em riqueza depois do silêncio.
A chamada herança digital, na maioria dos casos, não passa de memória com boa resolução.
Estratégia deveria vir antes das homenagens, não depois delas.
Transformar audiência em negócio não é luxo. É sobrevivência patrimonial.
Influência sem estrutura não é ativo. É aplauso alugado com prazo de validade biológico.
Herança digital de verdade não é deixar senha anotada em caderno escondido.
É deixar algo que continue produzindo valor quando não houver mais ninguém para postar o próximo story.
O resto é memorial.
Bonito, emocionante e financeiramente inútil.
E antes que este texto também vire apenas conteúdo póstumo sem nenhuma herança, curta e compartilhe. Pelo menos aqui a ironia já vem declarada.