alexandre brito
alexandre brito
Ser inútil é um verdadeiro ato de resistência e cuidado de si

Há um tempo atrás estava em uma conversa agradável com um colega que também é professor de psicologia, quando ele me relatou algo que o deixou se sentindo culpado, ainda que não tenha cometido nenhum crime. Nesta época, ele tinha acabado de mudar seus horários de trabalho de modo a ter as tardes de terça-feira livre de compromissos profissionais.
Foi quando me disse em um tom que misturava alegria e vergonha, confessando: “nesta terça-feira eu dormi a tarde toda!”. Eu vi a satisfação dele e sua necessidade ter esse espaço tão importante como se fosse um pedaço de domingo no meio da semana. Porém, acompanhado deste inesperado cochilo vespertino, lhe ocorreu um sentimento: “mas me senti um pouco culpado por dormir em plena terça-feira à tarde”.
O que ele está querendo dizer com isso? Trata-se de um testemunho de que não estamos imunes a sentir culpa por descansar nos “dias úteis”, ainda que nossa profissão seja crítica e enfrente as armadilhas da culpa inconsciente, mesmo sem cometer qualquer infração. A própria expressão “dia útil” é uma armadilha contra a saúde mental pois ela supõe que os demais dias são inúteis, improdutivos. E aqui estamos diante de duas questões importantes.
A primeira seria a divisão entre o que é útil e o que é inútil. A noção de utilidade pode ser relativa, pois qual a utilidade do trabalho e do descanso? Caso nossa métrica seja a produtividade laboral, logo, o descanso é inútil. Mas, os profissionais de saúde logo ergueriam fortes objeções contra essa perspectiva, afirmando que o descanso tem sua importância inquestionável e apresenta inúmeras utilidades para uma vida saudável.
A segunda questão é tratar com julgamento moral o par de opostos utilidade x inutilidade. Neste caso, o que é útil seria bom e o que é inútil seria ruim. Isso oferece o peso de te tornar uma pessoa menos digna de viver em sociedade, como se o “não fazer nada” fosse um pecado absurdo, uma espécie de ingratidão cheia de preguiça. Esse equívoco foi o que fez com que meu colega se sentisse culpado, ainda que ele compreenda toda essa lógica neoliberal acerca da produtividade pessoal de cada um.
Podemos ilustrar isso tudo usando o exemplo do descanso, tratando-o como algo inútil. Neste caso, então, precisamos reformular nossas conclusões e compreender que o que é inútil (no sentido de não produzir capital) é extremamente importante para nossa saúde física e mental. Neste sentido, é preciso que sejamos inúteis em boa parte de nossas vidas para sermos capazes de viver bem.
O próprio ócio, ainda assim não seria produtivo no sentido de oferecer algo lucrativo, mas de produzir vida, arte, experiências e resistir a essa lógica neoliberal. Sendo assim, ser inútil é um verdadeiro ato de resistência e cuidado de si.