Eduardo Amorim
Paulo Baraona
Análise de Paulo Baraona sobre o avanço da indústria capixaba e os entraves que ameaçam a sustentabilidade do crescimento
Escrito por Plural em 05 de fevereiro de 2026
O Espírito Santo vive um momento econômico singular. A indústria capixaba demonstra força, resiliência e capacidade de liderar o desenvolvimento. Hoje, somos o estado brasileiro com o maior avanço na produção industrial. Segundo o IBGE, acumulamos sete meses consecutivos de crescimento em dois dígitos na variação mensal e, entre janeiro e novembro do ano passado, a produção industrial do Estado cresceu 10,8%, enquanto a média nacional avançou apenas 0,6%.
Esse desempenho não é circunstancial. Ele reflete planejamento, investimento produtivo e a construção de um ambiente de negócios que, apesar dos desafios, avança de forma consistente. O investidor enxerga no Espírito Santo uma oportunidade concreta de bons negócios, e a indústria, mais uma vez, assume papel de protagonismo. Dos mais de R$ 100 bilhões em investimentos previstos para os próximos cinco anos no Estado, cerca de 60% têm origem no setor industrial.
Esse ciclo de investimentos se traduz no fortalecimento das cadeias produtivas e na ampliação de oportunidades econômicas em todas as regiões do Estado. Ainda assim, não basta celebrar os bons resultados. É fundamental garantir a sustentabilidade e a longevidade desse crescimento.
Há quatro entraves estruturais que exigem resposta imediata no país: endividamento público e juros elevados, escassez de capital humano qualificado, infraestrutura do século XX e o persistente Custo Brasil. Em conjunto, esses fatores reduzem a competitividade das empresas, dificultam a atração de investimentos de maior valor agregado e limitam os impactos sociais do crescimento industrial.
O elevado endividamento público e as altas taxas de juros seguem entre os principais obstáculos ao investimento produtivo. A necessidade de manter juros reais elevados encarece o crédito e restringe investimentos, especialmente para pequenas e médias empresas. Projetos de modernização, automação e inovação acabam sendo adiados, comprometendo ganhos de produtividade e a capacidade de crescimento no médio e no longo prazo.
Soma-se a esse cenário o déficit de capital humano. A indústria avança em complexidade e demanda profissionais cada vez mais qualificados. Há vagas disponíveis, mas falta mão de obra preparada. Essa escassez limita a adoção de tecnologias geradoras de valor, mantém níveis baixos de produtividade e restringe a expansão da produção. A resposta passa por parcerias entre poder público, empresas e instituições de formação técnica, como o SENAI, que oferta anualmente milhares de vagas gratuitas alinhadas às reais demandas do setor produtivo.
A infraestrutura é outra frente crítica. Portos, aeroportos, rodovias, ferrovias e o sistema energético impactam diretamente os custos logísticos e o tempo de escoamento da produção. Gargalos como estradas não duplicadas e a falta de integração entre modais corroem margens, reduzem eficiência e comprometem a competitividade internacional. Investimentos públicos consistentes e parcerias público-privadas são indispensáveis para integrar melhor o Espírito Santo aos mercados globais e destravar todo o seu potencial logístico.
No centro desses desafios está o Custo Brasil. Tributos elevados, excesso de burocracia, insegurança regulatória, encargos trabalhistas e custos logísticos aumentam o preço da produção nacional e reduzem a atratividade do país para novos investimentos. Segundo o Observatório do Custo Brasil, da Confederação Nacional da Indústria (CNI), esse conjunto de entraves representa um ônus anual de R$ 1,7 trilhão para a economia brasileira.
Diante desse cenário, não podemos nos acomodar. O bom desempenho industrial exige um ambiente de negócios mais eficiente, previsível e competitivo para se sustentar ao longo do tempo. Para além da atuação da Federação das Indústrias do Espírito Santo (FINDES) na melhoraria do ambiente de negócios e no aumento da produtividade industrial, é preciso que medidas de curto prazo – para mitigar os impactos financeiros e ampliar a oferta de crédito – sejam realizadas e caminhem junto com reformas estruturantes, responsabilidade fiscal e ações efetivas para reduzir o Custo Brasil são necessárias.
A indústria capixaba tem demonstrado que é parte da solução ao investir, modernizar processos, qualificar pessoas e assumir protagonismo no desenvolvimento regional. No entanto, é imprescindível que o país crie condições para que esse esforço resulte em crescimento de longo prazo. Quando a indústria avança, o desenvolvimento se amplia: surgem empregos de qualidade, inclusão social e fortalecimento fiscal. Transformar essa oportunidade em política pública, investimento e compromisso coletivo é o desafio, e a chance, que o Brasil não pode desperdiçar.
Paulo Baraona
é presidente da Findes.
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