ARENA DIGITAL
A nova droga dos Adultos
Há um fenômeno digno de estudo antropológico acontecendo diante de todos. Adultos, maduros apenas no RG, descobriram sua nova chupeta: o celular. Inclusive aqueles que até ontem mal sabiam abrir a câmera e agora se comportam como especialistas em dancinhas, receitas rápidas e teorias que encontraram no fundo do feed. A dopamina virou babá eletrônica da segunda e terceira idade, e ninguém parece achar estranho.
Basta observar qualquer mesa de bar, consultório ou sala de estar. Um grupo de adultos, supostamente responsáveis, desliza o dedo para cima com a mesma devoção de um bebê chupando a chupeta para não chorar. O comportamento seria até cômico, não fosse trágico.
Todos afirmam ter “controle”, mas basta o telefone vibrar para esquecerem compromissos, conversas e até a existência de outras pessoas ao redor. É o remake humano de “Wall-E”, só que sem os efeitos especiais: apenas gente comum, entregue à própria preguiça mental.
A dopamina, antes reservada a conquistas reais, agora é dispensada em migalhas digitais calculadas por algoritmos que conhecem cada fraqueza melhor do que qualquer terapeuta. O adulto moderno acredita estar no comando, mas age como espectador passivo do próprio condicionamento. É um laboratório vivo, onde a distração virou hábito e o vício virou identidade.
E ninguém escapa. Nem o crítico, nem o colunista, nem o moralista que aponta o dedo. Todos na mesma fila, chupeta na boca, fingindo superioridade enquanto consomem o próximo vídeo de sete segundos como se fosse alta literatura. É a democratização da infantilização. Algumas pessoas trocam chupetas por smartphones; outras apenas trocam de marca.
Estudos já indicam que a distração ao volante responde por quase um terço dos acidentes no país, boa parte causada justamente pela chupeta digital que ninguém larga. Adultos que juram ter “controle” dirigem olhando o celular como se fossem imunes às leis da física. O resultado é óbvio: gente morrendo porque alguém precisava conferir mais um videozinho de sete segundos.
O cenário é quase patético. Pais usam telas para se livrar dos filhos por alguns minutos e, no instante seguinte, mergulham no próprio feed para se livrar de si mesmos. Profissionais se dizem “atarefados”, mas têm tempo de sobra para ver três horas de vídeos aleatórios por noite. Motoristas atravessam a rua olhando para o celular como se a faixa fosse uma cena opcional do filme da própria vida. A realidade se tornou um fundo borrado, invisível. Mas isso não é comigo. Não? Procura no ajustes quanto tempo utilizou cada aplicativo, certamente tomará um susto.
A pergunta que ninguém quer responder continua a mesma: quem está segurando quem? O adulto segura o celular ou é o celular que segura o adulto?
A antiga chupeta, pelo menos, dependia da mãe para ser entregue. A nova é autônoma: vibra, acende, chama pelo nome e serve dopamina na temperatura ideal. E os adultos, todos eles, atendem prontamente, satisfeitos, dóceis, convencidos de que ainda são donos da própria atenção.