alexandre brito

Sua saúde mental não é só um problema seu!

Quando falamos em saúde mental, é muito comum que as pessoas associem ao cérebro ou à empreitada de não ser louco

Quando falamos em saúde mental, é muito comum que as pessoas associem ao cérebro ou à empreitada de não ser louco. Foto: Reprodução
“Além do divã” não significa se levantar e abandonar a clínica. Foto: Reprodução

Quando falamos em saúde mental, é muito comum que as pessoas associem ao cérebro ou à empreitada de não ser louco. E isso reduz a ideia de saúde mental a algo individual ou simplesmente a uma desregulação no sistema nervoso. Porém, quando definimos no nome dessa coluna como “Além do divã” foi justamente pensando em contribuir para quem nunca fez terapia ou que não tem conhecimentos sobre a psicologia pensar para além do senso comum.

Vamos começar pelo divã? Para quem não sabe, o divã é uma espécie de sofá individual sem braços, que segue os contornos do seu corpo, na qual você pode se deitar de modo confortável. Na clínica ele foi usado, inicialmente, para pacientes tratados com hipnose, largamente utilizada para cuidar as dores da existência que a medicina não alcançava. Com o tempo, Sigmund Freud abandona hipnose, por uma série de limitações que ela apresentava, e segue com o divã para conduzir os tratamentos pela fala: a psicanálise.

Usamos a expressão divã em nossa coluna para convidar nossos leitores a se debruçarem nos assuntos “psi” de um modo que possam se apropriar deles, ainda que não seja para atuarem profissionalmente sem um diploma, mas para que tenham consciência da importância do psicológico em sua saúde geral e para adotarem cuidados cotidianos com sua existência.

“Além do divã”, portanto, não significa se levantar e abandonar a clínica e o divã, mas visa justamente dar passos que avançam para espaços que a gente achava que não tinham nada a ver com sua saúde mental. Vou dar alguns exemplos para que possamos entender melhor nossas intenções.

O Brasil é considerado o país mais ansioso do mundo e um dos mais depressivos da América Latina. Além disso, o número de casos de adoecimento e desenvolvimento de transtornos mentais em ambiente de trabalho não para de crescer. Seria isso uma coincidência ou há uma série de determinantes sociais, institucionais, políticos e econômicos? Esse exemplo nos faz entender que o sofrimento também tem uma coletividade e é afetado diretamente pelas relações de poder, e que questões sociais (como as políticas públicas, a justiça, o racismo e o etarismo, por exemplo) tem mais a ver com saúde mental do que podemos imaginar.

Antes de encerrar, alertamos que esse caráter coletivo não diminui o sofrimento pessoal de cada um ou que não se deve buscar sua própria terapia ou análise no divã. Pelo contrário, a psicoterapia é um espaço de vida, de cuidado e de acolhimento. Trata-se mais de compreender que você tem responsabilidade sobre seu sofrimento, mas que ele não é simplesmente culpa sua ou que só depende de medicamentos para regular seus neurotransmissores.

Afinal, ninguém se recupera se continuar em ambientes ou em relações que adoeceram. E ir para além do divã é trazer as dores da existência, é conversar sobre os temas mais abordados da psicologia, bem como nas relações que nos alegram e produzem vida e nas que nos destroem e constrangem nossa existência.