
“Acho que o Espírito Santo precisa de dois bons senadores, até porque vamos passar um desafio muito grande, com essa questão da reforma tributária, então deveríamos ter dois nomes muito bons para a população capixaba escolher. Na minha visão pessoal, o Paulo é um cara que tem conhecimento, bom trânsito, já foi senador como o Renato [Casagrande] já foi… São pessoas respeitadas nacionalmente.”E foi isso que Vidigal defendeu, olhando no branco dos olhos de Hartung, em seu colóquio reservado com o ex-governador, testemunhado só (em parte) por Herkenhoff. Ele entende que Paulo Hartung deveria avaliar com carinho essa ideia. > Uma regra fundamental na eleição para o Senado que pode mudar tudo Vidigal não comunicou nem a Casagrande nem a Ricardo que faria esse gesto, definido por ele como “uma ação muito pessoal”. E faz questão de esclarecer: “Não fui lá a mando de ninguém”. Falando com a coluna sobre o encontro, o pedetista traça até um paralelo entre ele e o também ex-prefeito da Serra Audifax Barcelos (PP). Respeitada a escala, no microcosmo político da Serra, a relação conflituosa entre Vidigal e Audifax é comparável àquela mantida entre Casagrande e Hartung. Os dois ex-prefeitos estão, para a Serra, como Casagrande e Hartung estão para o Espírito Santo. Mas isso não impede Vidigal de reconhecer méritos em seu arquirrival, bem como sua importância na história do município mais populoso do Estado.
“Cansei de falar que, ali na Serra, Audifax e eu podemos ter nossas diferenças, mas tanto um como o outro contribuímos para o desenvolvimento da cidade. Sou aliado de Renato [Casagrande] e de Ricardo. Estarei no palanque deles. Mas gostaria muito que o Espírito Santo pudesse ter bons candidatos. Como o Senado tem duas vagas e o Renato é meu candidato a senador, acho que o Espírito Santo precisa ter mais um candidato desse gabarito.”“Fui ouvir o Paulo. Se ele tem interesse, como é que está avaliando o processo… Falei para ele da importância de buscarmos pessoas que têm capacidade de interlocução em Brasília. Ele é uma liderança importante. Não fui a mando de Ricardo nem de Renato. Aliás, falei muito bem dos dois para o Paulo. Foi uma iniciativa muto pessoal minha”, relata Vidigal. Segundo o maior líder do PDT no Espírito Santo, psiquiatra apaixonado e praticante, Hartung não ficou só ouvindo. Falou bastante também. “Foi uma sessão com o psiquiatra (risos)”, gracejou Vidigal. Sobre o teor dos comentários de Hartung e os planos abertos por Hartung, não tenho grandes detalhes. Mas posso dizer que, confirmando prognósticos já feitos aqui, hoje a inclinação do ex-governador, filiado em maio ao PSD, está mais ligada a um projeto político nacional. > MPES decide não propor acordo a vereadores da Serra suspeitos de corrupção Vidigal não tem a ilusão – creio que pouca gente deva ter – de tentar reconciliar o irreconciliável. Não acredita que Hartung e Casagrande possam voltar a cultivar um bom relacionamento pessoal – nem é isso o que pretende com esse gesto. Mas é um dos poucos líderes políticos importantes do Espírito Santo que transita muito bem entre o atual governador e seu antecessor no cargo. Como tal, espontaneamente, está disposto a operar como um elo, uma ponte entre os dois, um “mediador do conflito”. O objetivo: incentivar Paulo Hartung a também vir candidato a senador e, em eventual candidatura concorrente à de Casagrande – cada um, claro está, na própria coligação –, que pelo menos eles possam manter entre si uma relação cordial e respeitosa, de mútuo reconhecimento. “Não imagino o PSB e o PSD na mesma coligação… claro que não, não é isso. Os dois podem ser candidatos a senador, cada um do seu lado. Tem duas cadeiras em jogo.” O relacionamento pessoal entre Renato e Paulo, como todo mundo os chama no meio político, está implodido desde a visceral campanha a governador de 2014, que descambou para questões familiares etc. Mas o que Vidigal está se propondo fazer é iniciar as tratativas para a assinatura, quem sabe, de um acordo de paz, um pacto de não agressão política. Em voluntária missão de paz, o ex-prefeito da Serra agiu como aquele mensageiro do exército real que atravessa o tabuleiro de xadrez e pede passagem no castelo fortificado do rei adversário, para lhe entregar uma proposta de armistício. E para convencer esse outro rei a concorrer ao mesmo cargo do seu. A lealdade de Vidigal a Casagrande e a Ricardo, ele destaca, está intacta. Mas, neste “Game of Thrones”, há dois tronos a serem ocupados.