
O ex-deputado estadual Renzo Vasconcelos é, desde 2025, o prefeito de Colatina, a 8ª cidade mais populosa do Espírito Santo. Só por isso, já seria um player muito importante no cenário político capixaba e em disputas eleitorais que se avizinham. Mas ele é mais que isso. Renzo é nada mais, nada menos que o presidente estadual do Partido Social Democrático (PSD). Dirigido nacionalmente pelo ex-ministro Gilberto Kassab, o PSD é uma das maiores agremiações políticas do Brasil e foi a que mais elegeu prefeitos pelo país em 2024.
Com tais credencias, Renzo é logicamente um potencial aliado muito desejado (e disputado) por duas das maiores forças que se apresentam paras as eleições estaduais deste ano: de um lado, o prefeito de Vitória, Lorenzo Pazolini (Republicanos); do outro, o vice-governador Ricardo Ferraço (MDB), prestes a assumir o cargo de governador no lugar de Renato Casagrande (PSB), na próxima quinta-feira (2).
Não se trata só de Renzo, pessoalmente, como um cabo eleitoral em Colatina e municípios vizinhos. Trata-se de ter o poderoso PSD na coligação e no palanque eleitoral.
Nos últimos tempos, nesse cabo de guerra, Renzo vinha emitindo uma série de sinais de proximidade maior com o grupo político de Pazolini. O partido Republicanos, do prefeito de Vitória, foi bem importante para ele em seu triunfo contra Guerino Balestrassi (MDB) na eleição para prefeito de Colatina em 2024.
Enquanto isso, o governo Casagrande, incluindo o governador em pessoa, apoiou a reeleição de Guerino – em lado oposto ao de Renzo, portanto.
Em fevereiro deste ano, Renzo e sua esposa, a médica Lívia Vasconcelos, chegaram a fazer e postar uma foto indicando união de forças com Pazolini (e também, àquela altura, com Arnaldinho Borgo, agora em trajetória de retorno ao seio governista).
As águas de março, porém – quiçá aquelas do Rio Doce –, revelam um Renzo mais pendente para o lado do governo e, hoje, em posição equidistante entre os dois grupos políticos.
Após várias idas de Casagrande e Ricardo a Colatina nas últimas semanas, o prefeito e presidente do PSD-ES steve literalmente ao lado de ambos, sentado à cabeceira de Casagrande no gabinete do governador, em um evento oficial marcante para o município da região noroeste.
No último dia 19, indicando uma reaproximação forte com o Palácio Anchieta, o prefeito foi muito prestigiado em um duplo anúncio do Governo do Estado em benefício da cidade: a pavimentação voluntária de ruas de Colatina com recursos do caixa estadual e a assinatura de um projeto de lei que concede benefícios fiscais a empresas da indústria têxtil, segmento muito forte em Colatina (a chamada “Lei da Moda”).
Em uma imagem com enorme simbolismo, Renzo ficou sentado entre as duas maiores autoridades do Estado e outros três personagens icônicos da política colatinense: de um lado, Casagrande e Ricardo; do outro, ninguém menos que o deputado federal Josias da Vitória (PP), o também deputado federal Paulo Folletto (PSB) e o secretário estadual de Recuperação do Rio Doce, Guerino Balestrassi, ex-prefeito derrotado por ele em 2024.
Os três são aliados declarados de Casagrande e Ricardo.
Entre eles, também se sentou o deputado estadual Dary Pagung (PSB), que é de Baixo Guandu, cidade vizinha a Colatina.

A foto é prenhe de simbolismo. Ainda que não seja necessariamente isto, transmite a ideia de unidade. O registro é inédito: pela primeira vez, os quatro colatinenses foram vistos lada a lado, no mesmo frame e no mesmo ato político.
Se o deputado e ex-prefeito Sérgio Meneguelli (recém-filiado ao PSD de Renzo) também estivesse presente, poderíamos até dizer que os cinco políticos mais importante de Colatina neste século reuniram-se em um evento do governo. Mas quatro de cinco já não é pouco.
“Maturidade”: os discursos de Folletto e Da Vitória
Para além da imagem, a ideia de “reaproximação política” (que em tese pode evoluir para um realinhamento eleitoral) fez-se ouvir no discurso de alguns dos participantes da cerimônia, no gabinete do governador.
“Muito obrigado ao Renzo, que tem dado sinais de reaproximação com o Palácio. Às vezes o processo eleitoral nos afasta, mas isso é plenamente reversível e vencível”, afirmou Paulo Folletto, que, após quatro mandatos sucessivos na Câmara Federal, está se despedindo de Brasília e de disputas eleitorais pessoais.
Da Vitória foi ainda mais enfático:
“O Renzo dá aqui, hoje, uma demonstração de maturidade, porque precisamos estar juntos para conseguir os recursos para melhorar a vida das pessoas. A gente tem as nossas torcidas, temos um processo eleitoral. Às vezes, é melhor debatermos investimentos após o processo eleitoral”, admitiu o presidente estadual da Federação União Progressista (homologada nessa quinta, 26, pelo TSE).
“Por isso, Renzo, quero te agradecer por a gente estar aqui. Você me recebeu na sua casa. Se você me der oportunidade, quero te pedir para a gente não perder tempo. Que a gente continue unido para fazer muito mais coisas”, conclamou o coordenador da bancada capixaba no Congresso.
Da Vitória tem um acordo com Renzo e, se for candidato à reeleição para deputado federal, será apoiado pelo prefeito de Colatina na cidade.
As falas dos protagonistas
Em seu discurso, Renzo foi só humildade e gratidão. Já o governador “fez sua parte” para atraí-lo ainda mais para o “Time Ricardo e Casagrande”.
“Temos uma presença forte em Colatina, e quero afirmar que vamos continuar tendo presença forte em Colatina. É nossa tarefa e é nossa obrigação, mesmo que sejam investimentos que não somos obrigados a fazer. Enquanto estivermos aqui no governo, a população de Colatina estará amparada pelo Governo do Estado”, prometeu o anfitrião.
Também destacando investimentos e o perfil “municipalista” do atual governo, Ricardo fez até uma brincadeira: “Colatina pode ainda não ter dominado o mundo. Mas, no Palácio Anchieta, Colatina está mandando!”
Além de Renzo e de sua comitiva, o gabinete do governador de fato ficou lotado de colatinenses, incluindo oito dos 15 vereadores da cidade, líderes comunitários e representantes do polo têxtil. Uma líder comunitária aproveitou a oportunidade para pedir a Casagrande e Ricardo uma obra imprescindível para conter uma encosta perigosa na cidade.
O presidente da Câmara de Colatina, Felippe Tedinha (PP), também teve direito à palavra, em nome dos vereadores. Chamou o vice-governador de “futuro governador” e se disse “amigo do Ricardo”.
Renzo também aproveitou o ensejo para, no fim de seu discurso, pedir publicamente ao governo carinho e atenção a outras intervenções necessárias na cidade. De forma muito humilde e educada.
Tudo considerado, ficou realmente a sensação de que Renzo, prefeito da “cidade da moda”, pode ir com outra roupa para a festa eleitoral. E levar junto “seu” PSD.
A conferir os próximos capítulos.
Para não deixar passar “em branco”…
Falando em moda e em roupa, não passou despercebido que Renzo participou da cerimônia em questão, bem ao lado de Casagrande, vestindo uma singela camiseta toda branca, sem estampas. Teria sido o “branco da paz”?
CENAS POLÍTICAS
Casagrande sobre Da Vitória
Em seu discurso, Casagrande fez uma pilhéria com Da Vitória, pelo fato de que há oito anos seguidos, desde que chegou à Câmara, o deputado colatinense exerce o cargo de coordenador da bancada capixaba no Congresso Nacional.
“É questão de vitaliciedade. Deputado ou senador, eu não sei candidato a que cargo ele vai ser este ano… Mas eu já sei que, tendo sucesso nas urnas, ele vai ser o coordenador da bancada capixaba no Congresso”, gracejou o governador.
Casagrande sobre Ricardo
O governador também arrancou risadas dos presentes ao fazer uma gozação com Ricardo, “ameaçando ficar no cargo”: “Tenho dito para o Ricardo que, se ele me tratar bem, vou me despedir do governo no dia 2…”
Folletto sobre Renzo (e vice-versa)
Já Folletto, 69 anos, recordou sua primeira eleição para a Assembleia Legislativa, em 2002. E fez uma menção a Renzo, que hoje tem 41 e então só tinha 18 “O Renzo ainda estava…”, começou Folletto. E todo mundo já esperava um complemento como “trocando as fraldas”, “curtindo a juventude”, “estudando para o vestibular”…
Mas Renzo foi mais rápido e, com presença de espírito, antecipou-se: “…Pedindo votos pra você!” E reforçou, apontando o dedo para Casagrande: “Pra você e pra ele”. Todos riram.
Renzo implica com Da Vitória
Ricardo falava sobre as ruas a serem asfaltadas em Colatina, quando Renzo implicou com Da Vitória: “A rua do Da Vitória não foi contemplada”.
Ricardo emendou, também provocando risadas: “Não vou me meter nessa confusão d’ocês, não”.
Enfim, o clima predominante foi de grande concentração.
Frase de Casagrande
Não estamos fechando um ciclo. Estamos abrindo um novo ciclo, com Ricardo no governo.”





