Aos 47 anos, a administradora Cristhine Samorini tomará posse como prefeita da cidade de Vitória. Será a primeira mulher da história a governar a capital do Espírito Santo – em qualquer era política, incluindo a Nova República, após a redemocratização do país (1985), quando prefeitos passaram a ser eleitos diretamente pelo povo. Cris Samorini, como é chamada por todos, assumirá assim o papel mais importante de sua vida.
E é curioso abrirmos este texto falando exatamente em “papel”, pois este, no sentido material – o do produto, onde se lê e se escreve –, está impresso na história da herdeira da família Samorini. Antes de chegar ao cargo de presidente da Federação das Indústrias do Espírito Santo (Findes) e ao de vice-prefeita de Vitória, Cris foi uma bem-sucedida empresária do setor gráfico.
Ela chegou a ser diretora comercial de uma das maiores e mais antigas gráficas do Espírito Santo: a Grafitusa, um centenário negócio de família, fundada em 1920 pelo pintor Tullio Samorini.
Como o nome revela, o antepassado de Cris migrou da Itália para o Espírito Santo, num período da história em que o Estado de fato recebeu muitos imigrantes da velha bota, dando início à empresa familiar. Foi a primeira gráfica fundada na cidade de Vitória. Quarta geração dos Samorini em solo capixaba, Cris e seu irmão a assumiram já neste século.
Assim também se iniciou sua trajetória como representante do setor industrial. Começou representando o segmento gráfico no Espírito Santo. Em 2020, quebrou um primeiro paradigma. Aos 41 anos, foi eleita e se tornou a primeira mulher a presidir a poderosa Federação das Indústrias do Espírito Santo (Findes). Ficou na presidência da entidade até julho de 2024.
No mesmo ano, veio o salto para a atividade política. Cris decidiu disputar um mandato eletivo, consumando uma transição que outros antes dela (como seu antecessor na Findes e incentivador, Léo de Castro) chegaram a ensaiar, mas jamais chegaram a executar: a passagem da iniciativa privada, prestando contas a acionistas, para a vida pública, prestando-as à população.
Sem divulgação do fato, ela chegou a ser filiada por um tempo ao partido Republicanos (antigo PRB), presidido nacionalmente pelo deputado federal Marcos Pereira (SP), ministro da Indústria, Comércio Exterior e Serviços no governo Temer.
Em abril de 2024, no limite do prazo legal, Cris filiou-se a outro partido, iniciando assim, para valer, a transição do mundo corporativo para o universo político.
A agremiação escolhida por ela foi o Progressistas (PP), sigla comandada no Espírito Santo pelo deputado federal Josias da Vitória.
Na eleição de 2024 à Prefeitura de Vitória, o PP apoiou a reeleição do prefeito Lorenzo Pazolini (Republicanos) e teve a preferência na indicação da sua companheira de chapa.
Àquela altura, já se sabia que, em caso de reedição da vitória do prefeito nas urnas, Cris teria chances reais de assumir o comando da Prefeitura de Vitória já em abril de 2026, se ele decidisse renunciar para disputar o Governo do Estado nas eleições deste ano. Agora, a previsão se confirma.
Logo depois de assinar a ficha de filiação no PP, em abril de 2024, a própria Cris deu a esta coluna uma declaração que vale a pena resgatar:
Não sei fazer algo que vou lá só para ser figura representativa, senão tô fora. Nunca trabalhei assim. E há sinais fortes no partido que vão para essa direção.”
Em outras palavras, Cris já indicava àquela altura que não deu o decisivo passo em direção à porta de entrada para a vida pública para ser “mais um quadro partidário”, muito menos para ser tão somente uma “figura decorativa”.
Até agora, durante o segundo governo de Pazolini, ela acumulou o cargo de vice-prefeita com o comando da importante Secretaria Municipal de Desenvolvimento da Cidade (Sedec). Como prefeita, terá de nomear alguém para seu lugar à frente da pasta.
Agora, efetivamente, passará longe de ser “decorativa”, como primeira mulher a governar a capital espírito-santense.
Observações
Importante frisar que Cris continua filiada ao PP, partido que decidiu apoiar Ricardo Ferraço (MDB) para governador, em outubro. A permanência ou não no partido passa a ser uma questão diante dela.
Também cabe registrar que Cris terá o direito legal de postular a reeleição, se assim quiser, no próximo pleito municipal, em outubro de 2028.
O que disse Pazolini em abril de 2025
Em 16 de abril do ano passado, em sessão de prestação de contas à Câmara de Vitória, o prefeito Lorenzo Pazolini foi sabatinado por vereadores. Armandinho Fontoura (PL) lhe perguntou, precisamente, sobre a possibilidade de ele vir a renunciar em um ano (agora) para concorrer ao Palácio Anchieta.
Pazolini respondeu assim, sem descartar tal opção e enaltecendo a competência de sua vice-prefeita:
“Em relação ao futuro, eu tenho muita gratidão aos capixabas. Aos vitorienses, principalmente, que nos possibilitaram estar aqui. E aí, se for da vontade de Deus, em primeiro lugar, consultando a minha família, consultando as pessoas que nos acompanham, nós poderemos ter, sim, algo que seja inovador para levar políticas públicas para os 78 municípios. Mas só se for para ser coletivo. Só se for uma construção macro do Espírito Santo. Porque eu tenho certeza que a Cris tem condição de continuar cuidando de Vitória com muita competência.”
Hábitos e hobbies
Segundo assessores que já trabalharam com ela, Cris Samorini anota tudo – e não raro recorre aos inseparáveis caderninhos Moleskine (italianos como a família) para cobrar demandas que haviam sido combinadas.
Ela ama cachorros e gosta de acordar cedo para treinar na academia de ginástica.
Outra grande paixão é o Flamengo. A futura prefeita de Vitória é uma rubro-negra fanática. Curiosamente, este é um ponto que a aproxima de Ricardo Ferraço (também flamenguista “roxo”), além da profunda ligação com o meio empresarial.
Perfil no site da Findes
Além de presidente da Findes de 2020 e 2024, Cris foi diretora financeira da Confederação Nacional das Indústrias (CNI). Tecnicamente, seu mandato iria até 2027. Mas, ao participar do pleito eleitoral de 2024, ela precisou licenciar-se do cargo na entidade.
A futura prefeita de Vitória tem mais de 20 anos de atuação no movimento associativista empresarial.
Em 2024, ela assegurou a eleição de seu sucessor na presidência da Findes, como candidato único, o atual incumbente do cargo, Paulo Baraona, dando posse a ele no fim de julho daquele ano.
Reproduzimos abaixo o perfil de Cris Samorini disponível na página oficial da Findes, com mais informações sobre seu currículo:
Empresária, natural de Vitória, graduada em Administração de Empresas, com MBA em Gestão de Negócios pela Fundação Dom Cabral e em Marketing pela FGV. É diretora comercial da Grafitusa, primeira indústria gráfica do Espírito Santo, que completou 100 anos em 2020. Cris Samorini tem mais de 20 anos dedicados ao associativismo.
Faz parte da gestão 2023-2027 da Confederação Nacional da Indústria (CNI) como 1ª diretora financeira e coordena o Comitê Governança para Indústria da Rede Governança Brasil (RGB).
A presidente eleita para a Gestão 2020-2024 da Federação das Indústrias do Espírito Santo (Findes) também é presidente do Sindicato das Indústrias Gráficas do Estado do Espírito Santo (Siges), e vice-presidente da Associação Brasileira da Indústria Gráfica (Abigraf Nacional).