Foto de Vitor Vogas

Vitor Vogas

Home - Coluna
PT vai participar do governo de Ricardo Ferraço, a partir de abril?

Partido de Lula é caso à parte na transição de Casagrande para seu sucessor. Tendência é que decida entregar todos os cargos no Governo do Estado. Saiba quem são os cotados para o lugar de Nunes na Secretaria de Esportes

Escrito por Vitor Vogas

Compartilhe

Que o Partido dos Trabalhadores (PT) estará fora do palanque de Ricardo Ferraço (MDB) na eleição para governador, não é nenhum mistério, até porque tem a candidatura própria de Helder Salomão. Mas isso é na campanha eleitoral, de agosto a outubro. Antes, há outra etapa política importante a ser cumprida no Espírito Santo: o governo de Ricardo Ferraço, a contar do dia 2 de abril, com a passagem da tocha de Renato Casagrande (PSB) para ele.

Aí, sim, cabe o questionamento: o PT por acaso fará parte da administração de Ricardo? Será incluído por ele? Aliás, vai querer ser incluído?

O caso do PT merece atenção por se tratar de um caso à parte nessa transição do governo Casagrande para o de Ricardo Ferraço.

A coalizão que sustenta politicamente o governo Casagrande é composta por um grande rol de partidos. Em todos os outros casos (PSB, PDT, Podemos, PP, União Brasil etc.), a transição será muito suave, ou seja, os partidos que fazem parte do governo Casagrande seguirão fazendo parte normalmente do governo Ricardo Ferraço, de maneira muito natural. A exceção é justamente o PT, cuja permanência é bastante duvidosa.

Uma coisa é o PT fazer parte do governo de Renato Casagrande; outra, muito diferente, seria a presença do partido no governo de Ricardo.

O compromisso do PT é com Casagrande – não com Ricardo. Do mesmo modo, Ricardo tem compromisso com Casagrande – não com o PT. Nas eleições estaduais de 2022, o partido do presidente Lula esteve na coligação de Casagrande, apoiou sua reeleição e foi muito importante para garanti-la, com a retirada da candidatura de Fabiano Contarato e o engajamento da militância na campanha, especialmente no 2º turno.

Como recompensa, no atual governo Casagrande, o PT ganhou o direito de ocupar uma série de espaços estratégicos, nos mais altos escalões. O mais importante deles é o comando da Secretaria de Estado de Esportes (Sesport).

“Cota do PT” no governo, a pasta é chefiada, desde o primeiro dia de mandato, pelo petista José Carlos Nunes, ex-deputado estadual e ex-presidente da CUT no Espírito Santo. Ele foi indicado no fim de 2022 pela deputada federal Jack Rocha, então presidente estadual do PT. Ambos são da mesma corrente no partido.

Além do cargo de secretário de Esportes, o PT ocupa subsecretarias na Sesport e em outras pastas.

Pré-candidato a deputado estadual, Nunes, de qualquer maneira, terá de entregar o cargo até o dia 2 de abril. De certo modo, isso “facilita” as coisas para Ricardo. Na montagem de sua própria equipe de governo, o sucessor de Casagrande tende a nomear um novo secretário de Esportes que não seja filiado ao PT. E a tendência é que, com Ricardo, a legenda deixe de fazer parte do Governo Estadual. Por quê?

Mútua rejeição

Ao longo do tempo, PT e Ricardo Ferraço sedimentaram uma mútua incompatibilidade.

Sem precisarmos ir muito longe, podemos lembrar, por exemplo, que Ricardo, então senador, votou a favor do impeachment de Dilma Rousseff (PT) em agosto de 2016 e foi, no ano seguinte, o relator da reforma trabalhista do governo Temer, condenada pelo PT e, sobretudo, por movimentos sindicais que estão na base do partido, como a CUT – ironicamente, a mesma de onde vem Nunes.

Ricardo já deixou claro, com veemência, sua determinação em não ter relação alguma com o PT em sua campanha eleitoral. No ano passado, em entrevista para A Gazeta, o vice-governador declarou que o PT deveria buscar seu próprio caminho nas eleições no Espírito Santo.

No início deste mês, como noticiamos aqui, ele foi um dos 17 presidentes de diretórios regionais do MDB que assinaram um manifesto pedindo à direção nacional que o partido não se coligue com o PT na eleição presidencial e libere cada estado para se posicionar como julgar melhor, de acordo com a realidade local.

Na prática, Ricardo quer evitar qualquer tipo de associação, direta ou indireta, com Lula.

Ora, por que o mesmo Ricardo que não quer o PT em sua coligação eleitoral haveria de querer o PT figurando em sua administração? Seria criar, desde o dia 1 do seu curto governo, essa marca de “vínculo com o PT” que ele quer evitar a todo custo.

Pelo que apuramos, até este momento, Casagrande e Ricardo só tiveram uma conversa mais detida sobre a reforma do secretariado. Na ocasião, alegando justamente coerência, Ricardo expressou sua propensão a deixar o PT de fora.

Mas não se o PT for mais rápido na iniciativa…

Diretório vai se posicionar na próxima semana

Como dissemos acima, a rejeição é mútua. E, até por respeito próprio, o PT deve se antecipar e transformar um bem provável “não os quero” num “quem não te quer somos nós”: vai pedir a separação antes que algum advogado lhe apareça com os papéis do divórcio.

Na semana que vem, o Diretório Estadual do PT, presidido por João Coser, realizará uma reunião para tratar especificamente deste ponto. O órgão decisório é formado por 47 membros, incluindo Coser e a líder da bancada do partido na Assembleia Legislativa, Iriny Lopes.

A tendência é que o diretório decida não participar do governo Ricardo Ferraço. Isso significa entregar todos os cargos de indicação política hoje ocupados por petistas no Governo do Estado, antes que Ricardo tome posse.

Na instância decisória do PT, predomina a avaliação de que eventual permanência no governo seria um contrassenso, considerando o passado e o presente de desalinhamento com Ricardo e, acima de tudo, o fato de que o PT vem para essa eleição com a candidatura própria de Helder ao Palácio Anchieta. Um concorrente de Ricardo, portanto.

“Ainda não discutimos essa pauta na instância deliberativa e decisória, mas já há acúmulo sobre isso. A tendência hoje é a de deixarmos o governo. É natural que a gente saia e procure maior independência para tocar a nossa campanha”, relata um dirigente petista.

Se, dentre os 47 membros, houver um que defenda o contrário, a definição vai a voto no diretório.

Dentro do PT, há quem diga que o grupo de Nunes gostaria de se manter, com alguém ligado a ele, à frente da Sesport.

O que diz Nunes

O próprio Nunes confirma sua saída no começo de abril para ser candidato a deputado estadual. Sobre seu sucessor na Sesport, ele conta que Ricardo e Casagrande ficaram de marcar uma conversa com ele na próxima semana, para tratar do tema. E entende ser possível, sim, que o escolhido seja alguém ligado a ele. Não necessariamente alguém filiado ao PT.

“Já tivemos conversas sobre a Sesport, sobre pessoas que trouxemos para a secretaria. O governador já comentou que acha muito justo que o sucessor seja alguém que tenha relação comigo e que pode ser alguém de dentro da própria secretaria”, afirma Nunes.

Os cotados para assumir a Sesport

Hoje na estrutura da Sesport, muito ligada a Nunes, há a subsecretária para Assuntos Administrativos, Fernanda Souza, que é da mesma corrente dele no PT.

Também do PT – mas da corrente interna de João Coser –, o ex-prefeito de Cachoeiro Carlos Casteglione é o subsecretário de Relações Institucionais. Mas, tanto pelos fatores já expostos como pela rivalidade paroquial em Cachoeiro, Ricardo não há de querer nomeá-lo secretário, muito menos Casteglione há de querer ser secretário de Ricardo.

Uma solução caseira seria Carlos Germano. O ex-goleiro do Vasco da Gama e da Seleção Brasileira é o subsecretário de Formação e Rendimento da Sesport. Bastante discreto, tem ligações políticas com o deputado federal Gilson Daniel, presidente estadual do Podemos, apoiador de Ricardo e candidato à reeleição na Câmara.

Uma solução externa, num híbrido de política com esporte, seria o vereador Bruno Malias (PSB). Filiado ao partido de Casagrande, o parlamentar de Vitória é ex-jogador de futebol de areia e foi multicampeão pela Seleção Brasileira da modalidade.

Uma solução de fora da política, mas genuinamente do esporte, seria eventual convite ao ex-jogador de vôlei de praia Alisson Cerutti. Campeão olímpico nos Jogos do Rio (2016), o capixaba aposentou-se do esporte em outubro do ano passado.

Para melhorar a sua navegação, nós utilizamos Cookies e tecnologias semelhantes.
Ao continuar navegando, você concorda com tais condições.

Política de Privacidade