
Marcelo sobre Ricardo: “Fará um trabalho melhor [que o de Casagrande]”
Já na tarde desta terça-feira, na sessão solene de abertura do ano legislativo, com a presença de todas as maiores autoridades do Espírito Santo, chamou a atenção a sintonia nos discursos dos três. Marcelo referiu-se a Casagrande como “meu amigo, o governador” e destacou o simbolismo da presença dele, assim como o da presença de Ricardo, lembrando que ambos foram deputados estaduais nos anos 1990, antes da chegada dele à Casa. O presidente citou o slogan que o vice-governador tem usado em suas redes sociais: “O Espírito Santo é o Brasil que dá certo”… “e tem que ser exemplo a ser seguido”, completou. E foi além. Surpreendendo um pouco, afirmou que Ricardo Ferraço fará um “trabalho melhor” que o de Casagrande no governo. Ele cumprimentava o chefe do Ministério Público Estadual (MPES), Francisco Berdeal, e a antecessora deste no cargo, Luciana Andrade, quando tascou esta: “Quando alguém nos sucede, naturalmente vai fazer um trabalho melhor, e eu tenho certeza que o Francisco vai fazer isso no Ministério Público, assim como o Ricardo Ferraço vai fazer no governo”. Em sua vez de discursar, assim como Marcelo, Ricardo enalteceu a “harmonia” e a “unidade” entre eles. Segundo o vice-governador, a reeleição unânime do presidente da Ales contraria a máxima de Nelson Rodrigues de que “toda unanimidade é burra”. “Aqui, não. Aqui a unanimidade é um gesto de maturidade, de inteligência, de unidade. E é um sinal muito forte dessa construção coletiva que estamos fazendo no estado do Espírito Santo”. Ainda segundo o vice-governador, “essa união se transformou em grande referência Brasil afora, pelos feitos que tem possibilitado”. Ele destacou que o atual governo tem feito “os melhores e maiores investimentos da história do Espírito Santo”. Como tem feito em discursos recentes, pregou que “a responsabilidade fiscal não é fim, mas um meio” para que o governo consiga investir em melhorias na vida das pessoas. Sem falar diretamente de eleições, Casagrande aproveitou o seu discurso para verbalizar o protagonismo que ele dividirá com Ricardo daqui para a frente (como parte do projeto para o vice se viabilizar eleitoralmente): “Convidei o vice-governador para contribuir de forma mais ampla no governo. Ricardo já contribui muito no governo porque tem experiência administrativa, conhece a política brasileira e a política local, tem histórico de gente séria e responsável. Eu pedi ao Ricardo: vamos fazer uma mudança e você vem para ficar ao meu lado, para a gente poder ter mais uma pessoa que vai estar junto, fazendo todas as ações do Governo do Estado”. Casagrande anunciou a data para Ricardo deixar o comando da Secretaria de Desenvolvimento, a ser assumido por Sérgio Vidigal (PDT): dia 12 de fevereiro. “Ele estará lado a lado comigo para cuidar de todo o governo.”Arranjo contra um possível “desarranjo”
Em entrevista coletiva após ser reconduzido à presidência, na segunda-feira, Marcelo comentou a participação do governo na eleição da Mesa. Segundo ele, o governo entendeu que sua continuidade era importante para não “desarranjar” a Assembleia e, consequentemente, os outros Poderes: “Numa casa política, principalmente com as eleições se avizinhando, é natural a preocupação de todos os Poderes e instituições – não só o Executivo, mas talvez mais ele – de que não houvesse um desequilíbrio na Casa. Ao desarrumar a Assembleia Legislativa, você alcança imediatamente o Executivo. Ao alcançar o Executivo, você desarranja essa relação, e isso desce para todos os Poderes e instituições. Ao ouvir a base, e a base deixou isso muito claro, ficou muito claro para o governador, e o sentimento dele também era esse, que a vontade da Assembleia era pela continuidade da gestão. Então naturalmente o governador orientou a base dele, da qual faço parte, pela continuidade do nosso trabalho”.Feito histórico: a reeleição por unanimidade
À parte a inegável influência de Casagrande na eleição da Mesa Diretora da Ales, não se pode tirar os méritos de Marcelo. É fato que, desde o ano passado, se a eleição dependesse só dos deputados (como deveria ser, em tese), Marcelo seria uma barbada. Ele realmente construiu uma unanimidade entre os pares, traduzida no placar da votação, agradando a todos os colegas, de uma ponta à outra do plenário, de Camila Valadão (PSol) a Lucas Polese (PL). Chapa única na eleição da Mesa é algo muito comum na Ales. Não há disputa entre duas chapas desde 2003. Mas eleição unânime, mesmo com chapa única, é algo raro. Neste século, só havia ocorrido duas vezes: na eleição de Elcio Alvares, em 2009, e na de Rodrigo Chamoun, em 2011. Há, porém, uma diferença importante: nenhum dos dois foi reeleito. Marcelo, sim. Ele é, no século XXI, o único presidente da Ales reeleito por unanimidade. Aliás, Marcelo conseguiu ser reeleito com mais votos do que teve em sua primeira eleição, em 2023. Na ocasião, recebeu 27. Camila e Polese, não à toa citados acima, votaram contra a chapa dele. O agora prefeito de Cachoeiro, Theodorico Ferraço (PP), absteve-se. Muito bem articulado e afável no trato com todos, o presidente agrada por defender os deputados e a Assembleia como instituição – no estilo “mexeu com um deputado, mexeu comigo”. Também é reconhecido por respeitar as prerrogativas dos colegas, dar a eles condições de exercer dignamente o mandato – inclusive físicas, vide a reforma dos gabinetes – e não cercear a voz de ninguém, incluindo os parlamentares da oposição. Esse contentamento geral se manifestou nas falas de muitos deputados ao declarar o voto em Marcelo na segunda-feira. O “presida”, como o chamou Iriny Lopes (PT), foi muito elogiado por vários. Raquel Lessa (PP) chegou a destacar o senso de humor e a leveza de Marcelo. Ainda bem que ele está leve, pois, após a vitória, chegou a ser erguido do chão por Xambinho (Podemos) e Capitão Assumção (PL).