Façamos juntos um exercício. Imaginemos uma Câmara dos Deputados com 513 Gilvans da Federal – isto é, exercitando diariamente o mesmo jeito de “fazer política”. Todos os deputados, de todas as bancadas, de todos os estados, de todos os partidos, de todos os matizes e vertentes políticas, comportando-se tal qual o parlamentar do Espírito Santo. Seria a senha para um verdadeiro caos. Estaria, no mesmo instante, instaurada a barbárie geral. Teríamos 513 parlamentares agredindo e atacando uns aos outros o tempo todo, compulsivamente. Não teria a menor chance de dar certo. O Parlamento ficaria paralisado. Ou implodiria.
Desde que estreou no exercício de mandatos, chegando à Câmara de Vitória em janeiro de 2021, o agente da Polícia Federal tem praticado diuturnamente, com empenho, o que aqui chamaremos de “política do choque”. Não só por estar sempre pronto a bater de frente com os adversários (chocar-se com eles, no sentido de trombar, colidir), mas também por suas palavras e atitudes. Estas continuamente chocam por romper não apenas com as normas do decoro parlamentar, mas também com as regras mais elementares de civilidade e convivência em sociedade. Sua marca, desde o dia 1 de atuação parlamentar, tem sido uma irresistível compulsão à agressão; a truculência como regra; o ataque como método; a violência verbal sistemática como instrumento político.
Nos tempos de atuação na Câmara de Vitória, o então vereador costumava repetir variações da máxima “para ser respeitado, é preciso respeitar”, “quem quer ser tratado com respeito tem que saber respeitar” etc. Mas ele mesmo recusa-se a seguir a própria premissa, tamanho é o grau de desrespeito com que trata adversários – os quais, seguindo-se à risca a própria lógica, tampouco teriam por que o tratar com o respeito e a urbanidade que ele cobra.
Mas falar em “adversários”, sob a ótica gilvanística, talvez soe equivocado. Não é assim que Gilvan os concebe. Trata-os, sim, como inimigos.
Inimigos que – é o que denotam suas palavras – não são dignos do seu respeito e, muito mais que isso, não são dignos sequer de existir. Merecem ser aniquilados, como ele mesmo dá a entender – “Quero que morra!” –, utopizando um mundo livre de “comunistas”, de “esquerdopatas”, de filiados a partidos de esquerda como o PT e o PSol, frequentemente chamados por ele, desde os tempos de Câmara de Vitória, por termos como “vagabundos”, “bandidos” etc.
Quem cobria e assistia às sessões da Câmara da capital capixaba, estupefato com um comportamento tão sem precedentes em matéria de agressividade, pegava-se a se perguntar: “O que é exatamente isso que estamos a presenciar? Que raiva incontida toda é essa? De onde vem tamanha ira concentrada em um parlamentar?”
Mas Gilvan assim seguiu agindo com a maior naturalidade, como se não houvesse limites para o “direito de agredir”, como se fosse mesmo muito normal fazer política daquela maneira. Não, não é normal. É tudo, menos normal. Não pode ser admitido. Não é aceitável numa democracia, sob o risco de, parafraseando Hannah Arendt, aceitarmos a “banalização do ódio”. É preciso tomar consciência disso.
A política não é – não pode ser – o espaço para a prática do “vale-tudo” (não, a expressão aqui não é gratuita, e logo chegaremos lá). É o espaço do dissenso civilizado entre quem pensa de maneira diferente e da construção dos consensos possíveis em prol do bem comum e do interesse coletivo.
É preciso elevar a disputa política para um patamar mais qualificado de civilidade. Adversários precisam ser tratados, civilizadamente, como aquilo que de fato são: adversários, nada mais que isso. Como diria Tancredo Neves – e há tanto a aprender com esses vultos –, na política quem briga são as ideias, não os homens.
Gilvan, por seu turno, já chegou ao cúmulo de chamar um adversário político, da sagrada tribuna do plenário da Câmara – a mesma outrora ocupado por Tancredo –, literalmente para uma briga física. “Qualquer academia, pode marcar, qualquer modalidade: no boxe, no MMA, vale-tudo… Eu tô à disposição!”, discursou o parlamentar, em junho de 2024, com palavras que ainda reverberam em ouvidos incrédulos e geram perplexidade, desafiando o senador Marcos do Val a resolver suas diferenças com ele pela via mais primitiva. Isso após os dois terem trocado encarada dentro de uma comissão e empurrões em um saguão do Aeroporto de Vitória.
Ainda durante os tempos de vereança, o caso mais icônico, que condensa os demais, é aquele ocorrido no fim de 2021, no qual o então vereador chamou Camila Valadão (PSol) de “assassina de crianças” e “satanista”, entre outros impropérios, e mandou-a calar a boca, dentro do plenário. Por esse mesmo ocorrido (convertido em ocorrência), o hoje deputado federal foi condenado, em primeira instância, pelo juízo eleitoral de Vitória, pelo crime de violência política de gênero, em março deste ano.
Na sentença, da qual ele recorre, a Justiça Eleitoral de 1º grau condenou o parlamentar à prisão em regime aberto por um ano, 4 meses e 15 dias, além do pagamento de multa no valor de R$ 10 mil, a título de reparação por danos morais.
Desde que mudou de uma Câmara para a outra – da Municipal de Vitória para a dos Deputados, sem escalas, “pulando” a Assembleia Legislativa e com excelente votação em 2022 –, o comportamento de Gilvan não se alterou. Antes, agravou-se. No início, os arroubos do deputado não chamavam tanto a atenção geral, “diluídos” que eram em uma Casa com mais de 500 parlamentares. É muita mais fácil causar espécie quando se é um entre 15.
Aos poucos, porém, a cada novo episódio, o nível de agressividade e a recorrência desse comportamento passaram a despertar a atenção também da imprensa nacional, especializada em cobrir o dia a dia dos Poderes em Brasília. De alguns meses para cá, Gilvan passou a merecer cobertura atenta dos grandes veículos e transformou-se naquilo que – às vezes tal é a impressão que fica – talvez fosse precisamente o que buscava desde o início: ficar no centro dos holofotes, ainda que não exatamente de uma forma muito positiva.