Reviravolta
"Em nome de Deus e de Euclério"
“Como diriam os mais experientes, a política perdoa um ato de traição, mas não perdoa o traidor”, diz o deputado conservador. Conheça aqui suas motivações e seu destino muito provável no tabuleiro partidário
Escrito por Coluna Vitor Vogas em 26 de fevereiro de 2026
Logo após assumir seu atual mandato na Câmara dos Deputados, no começo de 2023, o pastor Messias Donato declarou, em entrevista ao telejornal Estúdio 360: chegava a Brasília para exercer o mandato a serviço de Deus, da sua igreja e do prefeito de Cariacica, Euclério Sampaio. Padrinho político de Messias, o prefeito foi imprescindível na campanha do afilhado e em sua chegada à Câmara na eleição de 2022.
Agora, num declarado “gesto de lealdade” a Euclério – e, por conseguinte, ao governo Casagrande & Ricardo –, Messias decide se desfiliar do Republicanos, partido conservador pelo qual se elegeu em 2022. Hoje, segundo ele mesmo, sua tendência muito forte é se filiar ao Podemos, partido da base governista no Espírito Santo.
De quebra, o deputado anuncia seu apoio eleitoral ao vice-governador Ricardo Ferraço (MDB) para o Governo do Estado. “Sim, declaro apoio ao Ricardo.”
Euclério é um dos principais apoiadores da pré-candidatura de Ricardo. Na noite do último sábado (21), por exemplo, ele, Ricardo e Casagrande participaram de um grande culto evangélico. Já o Republicanos é, desde 2020, o partido de Lorenzo Pazolini. O prefeito de Vitória é pré-candidato a governador, em uma frente adversário à do Palácio Anchieta.
Messias decidiu sair do Republicanos ao reconhecer o óbvio: sua lealdade a Euclério – por extensão, a Ricardo Ferraço – seria incompatível com sua eventual permanência no partido daquele que hoje é, justamente, o principal adversário eleitoral do Governo do Estado. Foi exatamente o que ele explicou ao presidente nacional do Republicanos, Marcos Pereira, ao lhe informar sua decisão, na noite da última terça-feira (24).
“Tive uma reunião muito madura com o Marcos Pereira. Falei da minha incompatibilidade nessa reta final de mandato, devido à minha lealdade de mais de 30 anos a Euclério”, conta o deputado, secretário na gestão do prefeito de Cariacica, entre 2021 e 2022, antes de se eleger para a Câmara.
Como diriam os mais experientes, a política perdoa um ato de traição, mas não perdoa o traidor.
Segundo Messias, durante todo o seu mandato – marcado pela defesa de pautas bastante conservadoras nos costumes e pela defesa do ex-presidente Jair Bolsonaro –, ele sempre consultou Euclério na tomada de cada decisão.
“O Marcos Pereira lamentou, mas entendeu a minha demonstração de lealdade. Seria muito desleal da minha parte, depois de toda a força, trabalho e energia que o prefeito gastou comigo em 2022, se ele estivesse no palanque do Ricardo e eu, num palanque adversário. Eu jamais trairia a confiança do Euclério e o decepcionaria.”
De acordo com o deputado, em seus pouco mais de três anos de mandato, mais da metade do valor das suas emendas ao orçamento do Governo Federal foram destinadas ao município de Cariacica (cerca de R$ 78 milhões, pelas contas dele). No primeiro ano de mandato, ele simplesmente alocou todas as suas emendas parlamentares na cidade. “Fui o único do Brasil inteiro, dos 513 deputados, a destinar tudo à cidade de origem.”
Messias revela que, mesmo sendo do Republicanos, há um bom tempo se considera mais próximo politicamente de Ricardo Ferraço que de Lorenzo Pazolini.
Declaradamente integrante da direita conservadora nos costumes (mas liberal na economia), ele avalia Ricardo como um membro do mesmo campo ideológico, notadamente nas pautas econômicas.
“O Ricardo, quem o conhece, ao longo da sua caminhada, sempre defendeu uma pauta em que eu acredito muito, que é a da liberdade econômica. Desde que conheço o Ricardo, ele fala nisso: um Estado com menos impostos.”
O parlamentar também enaltece o currículo do vice-governador: “Ele está preparado. Presidiu a Assembleia num tempo difícil. Foi um excelente deputado federal e um dos melhores senadores da República. Até hoje, as pessoas no Congresso comentam e eu escuto muito de colegas que já estavam lá quando cheguei: em termos de qualidade da representação, a bancada do Espírito Santo era muito melhor quando Ricardo era senador”.
Messias Donato admite que hoje está muito inclinado a se filiar ao Podemos. Na quarta-feira (25), ele já conversou em Brasília com o colega de bancada Gilson Daniel, presidente do partido no Espírito Santo.
A bem da verdade, não restam, para Messias, muitas opções no momento. Por coerência, ele precisará se filiar a um partido de direita (consoante a seu perfil ideológico), que esteja na base do governo Casagrande e na coligação de Ricardo Ferraço.
O PSB de Casagrande e o PDT estão eliminados de cara, por serem de esquerda. O MDB de Ricardo, mais ao centro, até poderia ser uma, mas há um problema de ordem prática: o partido nem sequer deve lançar chapa à Câmara Federal no Espírito Santo.
Messias foi convidado para entrar no PP, o qual, com o União Brasil, forma a Federação União Progressista. É uma federação de direita, mas ainda paira uma incerteza sobre ela: seu lado na disputa majoritária ainda não está inteiramente definido no Espírito Santo.
Imaginem se Messias entra na chapa dessa federação e, lá nas convenções partidárias de julho, a federação decide ficar na coligação de Pazolini – ou do prefeito de Vila Velha, Arnaldinho Borgo (PSDB), agora aliado ao prefeito de Vitória.
O Podemos é um partido do centro para a centro-direita. Está no governo Casagrande e foi um dos primeiros a subir no “palanque de Ricardo”, apoiado por Gilson Daniel. Tem cargos no governo Lula (PT), ao qual Messias faz oposição aguerrida. Mas esse tende a ser mesmo seu caminho, basicamente, por exclusão.
“Agora é avaliar, fazer contas. Não restam tantas opções para nós… Hoje, estou mais para o Podemos. Minha decisão será tomada por orientação de Euclério.”