O prefeito de Cariacica, Euclério Sampaio (MDB), entrou na corrida pelo Senado, em agosto do ano passado, com um ímpeto incomparável. Em setembro, já havia reunido declarações de apoio de representantes de igrejas evangélicas, de associações de agentes de segurança pública, do Projeto Político Militar (PPM) e até de “lendas vivas” da política capixaba no interior: o prefeito de Cachoeiro, Theodorico Ferraço (PP), e o de Barra de São Francisco, Enivaldo dos Anjos (PSB).
No dia 12 de setembro, falando a esta coluna, Euclério chegou a declarar: “Não tem mais volta. Vou renunciar em abril para ser candidato a senador”. E mais: “Não tenho mais como recuar, nem se eu quisesse. Deus botou isso no meu coração, e eu vou ser obediente”.
Mas o ímpeto arrefeceu. Desde o início deste ano, Euclério desacelerou sensivelmente os movimentos como pré-candidato. A uma semana do fim do prazo para tomar uma das decisões mais importantes de sua longa trajetória política (renunciar ou não ao mandato?), a maré de Porto de Santana parece ter virado.
Hoje, ao que tudo indica, Euclério tende fortemente a permanecer no cargo e completar o segundo mandato de prefeito, em vez de renunciar para ser candidato a senador.
A modulação do discurso é visível. Aquele “não tem mais volta” de meses atrás deu lugar a tom bem mais cauteloso. No último dia 12, questionado pela coluna, Euclério disse o seguinte:
“Hoje sou pré-candidato a senador e estou trabalhando na pré-candidatura. Mas estou avaliando com o grupo. No dia 30, vou anunciar minha decisão. Estou à disposição do nosso grupo para ajudar Renato [Casagrande] e Ricardo [Ferraço] como e onde eu puder ajudar mais. Estou muito desprendido em relação à candidatura. Se o grupo entender que o MDB não deve ter dois candidatos majoritários, a governador e a senador, estou à disposição do grupo.”
Já nessa terça-feira (24), a declaração foi esta:
“Estou avaliando. Vou decidir até sexta-feira. Eu quero ser candidato. Renato quer que eu seja candidato. Mas minha vontade pessoal não pode ser maior que os interesses do Espírito Santo. Farei o que for melhor para Cariacica e para o Estado. As prioridades, para mim, são a eleição de Ricardo para o governo e de Renato para o Senado. Isso é o mais importante.”
Como se nota, o discurso de retirada já está praticamente pronto para uso, se for o caso, sendo fundado em princípios nobres: “colocar em primeiro lugar os interesses da cidade e do Espírito Santo”.
Além das declarações, após conversarmos com muita gente, reunimos sete fatores que apontam para um muito provável “Dia do Fico” nos próximos dias, no lugar de renúncia e confirmação da pré-candidatura ao Senado.
1) A desaceleração do passo
Passada aquela “volúpia eleitoral” observada entre agosto e dezembro do ano passado, o prefeito de Cariacica praticamente parou de fazer movimentações típicas de quem realmente é pré-candidato a um cargo majoritário.
Parou de circular pelo interior. Há muito tempo, não tem visitado outras cidades nem recebido mais agentes políticos de outros cantos. Voltou a ficar 100% focado na sua própria gestão em Cariacica. Enfim, não tem mais mobilização.
2) MDB com dois lugares na chapa?
Existe – como sempre existiu – um complicador de natureza partidária. Euclério e Ricardo Ferraço são do mesmo partido político, o Movimento Democrático Brasileiro (MDB). Como reafirmado por ele nas declarações acima, o prefeito é um dos maiores apoiadores de Ricardo para governador do Estado, em outubro.
Nas eleições estaduais, Ricardo estará na cabeça da chapa governista – a mesma que terá Casagrande como um dos candidatos ao Senado. Além da vaga de candidato a vice, resta a de segundo candidato a senador na chapa. Esta é a que poderia ser ocupada por Euclério.
Mas é muito pouco provável – além de não ter muita lógica – que dois políticos do MDB ocupem duas das três posições mais importantes na mesma chapa. Esse lugar tende a ser reservado para contemplar outras forças partidárias importantes na coligação – o que tem muito mais lógica.
Euclério chegou a ser convidado para se filiar ao União Brasil. Sua decisão de permanecer no MDB já foi um forte indicativo da tendência a não disputar o pleito… o que nos leva ao ponto seguinte.
3) Prefeito se tornará o presidente do MDB-ES
No fim de fevereiro, Euclério se tornou o 1º vice-presidente do MDB no Espírito Santo, substituto imediato de Ricardo no comando do partido no Estado. Em menos de dez dias, o prefeito assumirá a presidência da sigla. Por força do estatuto do MDB, Ricardo, ao se tornar governador, no próximo dia 2, terá de se licenciar do cargo de direção partidária.
Euclério, assim, passará a ser automaticamente o principal responsável por organizar a campanha dos candidatos do MDB a deputado no Espírito Santo, além da campanha majoritária do próprio Ricardo. A pergunta que fica é: como é que ele vai conseguir dividir suas atenções entre essa hercúlea tarefa de dirigente e uma eventual candidatura própria ao Senado?
Muito provável – e, de novo, mais lógico – que ele se concentre nas tarefas de dirigente, enquanto segue tocando a administração de Cariacica.
4) O fortalecimento de Da Vitória
Em diálogo com o item 2, é muito mais provável que Ricardo contemple outro aliado estratégico com a segunda vaga ao Senado do que um aliado íntimo no MDB. Nesse contexto, o favorito para ocupar esse lugar já despontou: é a poderosa Federação União Progressista (UP), com seus recursos financeiros e tempo de propaganda eleitoral.
O anúncio oficial de apoio da federação a Ricardo, na última segunda-feira (23), deixou muito evidente o favoritismo que terá a federação (formada por PP e União Brasil) para completar a chapa da situação. Para ser mais específico, quem assume o favoritismo para ocupar o posto é Josias da Vitória, presidente estadual do UP.
Euclério até participou do ato, compôs a mesa de autoridades, mas ficou na dele: não discursou e saiu mais cedo (o que ele diz que já estava combinado).
Em tempo: Da Vitória, Euclério e Marcelo Santos (o presidente do União Brasil) são aliados de longa data, desde os tempos de Assembleia. Ficaria tudo em casa.
5) “O certo pelo duvidoso”
Não será mamão com açúcar. A disputa pelo Senado no Espírito Santo se anuncia como uma das mais duras da história.
Consensualmente, Casagrande larga com favoritismo para beliscar uma das duas vagas. Digladiando-se pela segunda, estarão (ou poderão estar) Contarato (PT), Maguinha Malta (PL), Sérgio Meneguelli (PSD), Paulo Hartung (PSD), Manato (Republicanos), entre muitos outros…
A pergunta que fica é: por que trocar o certo pelo muito duvidoso? Ficando no cargo de prefeito, Euclério terá mais dois anos e nove meses de mandato para completar oito anos e quiçá consolidar-se como “o melhor prefeito da história de Cariacica”.
6) O seleto grupo de “prediletos”
Como em 2022, Euclério botará todo o seu peso político e o da Prefeitura de Cariacica a favor da reeleição de Messias Donato (União) para a Câmara dos Deputados. Fora da Prefeitura de Cariacica, isso fica muito mais difícil…
Além disso, há meses, Euclério elegeu e não esconde de ninguém quem são seus três candidatos a deputado estadual: Denninho Silva (União), Sandro Locutor (MDB) e Lelo Couto (MDB). Isso elimina todos os outros.
Ora, quem quer ser candidato a cargo majoritário não costuma anunciar assim um seleto grupo de “prediletos”, pois sabe que precisará de alianças Estado afora e do apoio de dezenas de candidatos a deputado estadual e federal…
7) O ponto 7 vem da José Sette
No último domingo (22), na presença de Euclério, o Governo do Estado assinou a ordem de serviço para revitalização da Rodovia José Sette, em Cariacica.
Em seu discurso, Euclério falou da candidatura de Casagrande, falou da candidatura de Ricardo, mas, em momento algum, mencionou a própria candidatura.
Segundo uma testemunha, Casagrande até brincou: “Vou deixar de ser governador, mas vocês vão continuar me vendo muito aqui em Cariacica. E espero que Euclério continue me recebendo…”
Bem, para continuar a recebê-lo, Euclério precisará seguir no cargo de prefeito.