Análise

E agora, José Renato? Apoio do PT a Casagrande o coloca em uma encruzilhada

Na eleição estadual deste ano, dois caminhos estão muito bem definidos para o governador. Quanto ao resto, ficamos com os dois últimos versos do célebre poema de Drummond

A decisão do PT nacional de apoiar a provável candidatura de José Renato Casagrande ao Senado – partilhada, segundo João Coser, pelo próprio presidente Lula – faz sentido e é até certo ponto natural, principalmente do ponto de vista do PT, mas coloca o governador do Espírito Santo em uma encruzilhada.

Nacionalmente, para o PT, é estratégico o apoio ao retorno de Casagrande ao Senado, onde ele já exerceu meio mandato, de 2007 a 2010. Em primeiro lugar, porque o governador capixaba tem boas chances de êxito nas urnas; em segundo lugar porque, se de fato for eleito, Casagrande poderá ajudar o PT em muitas pautas fundamentais no Congresso.

Se Lula se reeleger presidente, o quarto governo do petista na certa terá em Casagrande um aliado no Senado. Se Lula perder e, digamos, Flávio Bolsonaro (PL) chegar ao Palácio do Planalto, Casagrande poderá engrossar a ala não bolsonarista no Senado, ajudando a refrear, por exemplo, o avanço de pautas caras ao bolsonarismo como a cassação de ministros do STF e eventuais revisões e reversões de políticas públicas implementadas pelo PT.

Mesmo se não for necessariamente “oposição ao governo do filho de Bolsonaro”, Casagrande certamente militará na bancada mais progressista e democrática da Câmara Alta.

Político moderado de centro para centro-esquerda, o governador do Espírito Santo foi um crítico ao governo Bolsonaro, em muitas matérias, de 2019 a 2022 – como alguns radicalismos, a política armamentista, o negacionismo mantido na pandemia, a falta de diálogo com governadores, arroubos antidemocráticos e o constante tensionamento das relações com outras instituições.

No atual governo, com a volta de Lula ao Planalto, Casagrande se tornou bem mais contido nas críticas ao bolsonarismo, escolhendo bem as palavras e evitando fazê-las de modo nominal – até porque, vale lembrar, seu próprio candidato à sucessão é Ricardo Ferraço (MDB), político que, ao contrário dele, está muito menos distante do campo de Bolsonaro do que de Lula.

Mas é fato: Casagrande nada tem a ver com a ideologia que tem hoje em Bolsonaro seu maior representante no país. Está muito mais alinhado ao discurso e ao pensamento político que tem no presidente Lula sua principal expressão.

O apoio de Lula e do PT a Casagrande responde a uma parte importante da questão: os petistas estarão, oficialmente, com Casagrande, na eleição para o Senado no Espírito Santo, além, é claro, de priorizarem a reeleição do candidato do próprio partido, o senador Fabiano Contarato.

Resta agora responder à outra face da questão: e quanto ao próprio Casagrande? Por acaso apoiará Lula para presidente? Apoiará Contarato na segunda vaga a senador, pedindo votos explicitamente para ambos durante a campanha? A recíproca será verdadeira, conforme deseja o PT?

O próprio Helder Salomão, pré-candidato do PT a governador, já verbalizou aqui tal expectativa, nutrida por todo o PT. Mas o governador ainda não se posicionou. Na verdade, nem sequer admitiu sua pré-candidatura ao Senado… muito menos declarou voto para presidente ou para outro candidato a senador.

Entretanto, com a divulgação da “lista de apoiados pelo PT”, crescerá a pressão sobre o governador por um posicionamento e por reciprocidade.

Vale lembrar que, em 2022, mesmo com o PT em sua coligação e com seu PSB na coligação de Lula, Casagrande limitou-se a fazer manifestações protocolares de apoio ao petista para a Presidência, em uma ou outra entrevista. No período de campanha, não pediu votos para Lula, nem nas ruas nem na propaganda eleitoral.

Por estratégia, no segundo turno, ele acolheu o “voto Casanaro”, derrotando Carlos Manato (PL). Também por estratégia, Lula nem sequer pisou no Espírito Santo durante aquela campanha.

Desta vez, a sinuca de bico em que se encontra Casagrande é ainda maior… Como é que ele, mesmo apoiado por Lula e pelo PT nacional, poderá pedir votos para Lula, se ele mesmo e o PSB aqui estarão com Ricardo Ferraço (mais simpático ao bolsonarismo)?

Ricardo, pessoalmente, é tão refratário ao PT que assinou, na última terça-feira, com outros 16 presidentes estaduais do MDB, manifesto entregue ao presidente nacional da sigla, Baleia Rossi, pedindo que o MDB não se coligue com ninguém na disputa presidencial, ou seja, que o partido não apoie Lula, liberando os diretórios regionais para se posicionarem livremente em cada estado.

Para aumentar a sinuca de bico, há a segunda candidatura ao Senado, ainda em aberto, na coligação que terá Ricardo a governador e Casagrande a senador.

Como Casagrande poderá pedir votos para Contarato, se o segundo candidato de sua coligação com Ricardo será outro aliado, possivelmente mais à direita, como um Euclério Sampaio (MDB) ou um Josias da Vitória (PP)? Ambos são antipetistas convictos.

O risco está em um dos versos quase esquecidos lá no meio do célebre poema de Carlos Drummond de Andrade (o penúltimo da terceira estrofe, o qual poderão lhe apontar).

Na eleição estadual deste ano, dois caminhos estão muito bem definidos na mente do José Renato: seu candidato ao governo é Ricardo e sua marcha pessoal é mesmo em direção a Brasília: marcha de retorno ao Senado, 16 anos depois.

Quanto ao resto, ficamos com os dois versos derradeiros do icônico poema de Drummond:

você marcha, José!

José, para onde?

A manifestação oficial de Casagrande

Procurado pela coluna, o governador Renato Casagrande se manifestou sobre a posição do PT. Em nota oficial, como quadro disciplinado que é, indicou que seguirá a decisão do PSB em nível nacional, mas somente após as convenções partidárias, entre 20 de julho e 5 de agosto. É quando candidaturas e alianças eleitorais serão oficializadas em âmbito nacional e estadual.

Nacionalmente, o PSB vai se coligar com o PT e apoiar a reeleição de Lula.

“Respeitarei a decisão do PSB em nível nacional, que se consolidará após as convenções partidárias. Agradeço a manifestação das lideranças locais e reafirmo que a hora é de focar no encerramento do mandato de governador. Após esse período, voltarei a atenção para as articulações político-partidárias visando às eleições estaduais deste ano e, naturalmente, respeitando a posição política de cada partido da futura aliança, colocando sempre o ES em primeiro lugar.”