
A infância: “liderança nata”
Nascido em 1991, Jocelino da Conceição Silva Júnior hoje tem 34 anos. É pai de três filhos. Nasceu e cresceu no Morro da Piedade. Só saiu dali quando se casou, com pouco mais de 20 anos, e se mudou para o Centro de Vitória, perto da Cidade Alta, onde ainda mora. “Minha família é muito humilde. Foi uma infância bem difícil, com pouco acesso a coisas que hoje posso oferecer aos meus filhos. Em minha trajetória na Piedade, eu vi a necessidade e passei por vários momentos em que o poder público nunca estava próximo de nós, desde uma simples escadaria que não tinha, era de barro.” Nos primeiros anos de vida, ele morou em um barraco. Aos 12, sua família construiu uma casa de alvenaria. “No morro, você vai subindo degraus.” Pode-se acrescentar: na dupla acepção da expressão. “A minha infância foi muito ligada ao que hoje a gente entende muito, que é defender quem mais precisa, defender que o poder público chegue nas comunidades, nas periferias, nas pessoas que levam as suas dores.” Muito cedo, a importância da escola se manifestou na vida do garoto negro e pobre. “Foi, para mim, o lugar mais importante de contato com o poder público”. Estávamos em meados dos anos 1990. Na rede pública de Vitória, ainda não havia um regime de tempo integral oficialmente estabelecido. Mas ele e seus dois irmãos com idades próximas foram contemplados com o benefício de ficar mais tempo na escola. Os primeiros anos da educação infantil, eles passaram no Centro Municipal de Educação Infantil (CMEI) Menino Jesus, na Rua Sete. A escolinha, de maneira autônoma, oferecia almoço e mantinha atividades no contraturno. O pai, gari, e a mãe, doméstica, passavam o dia inteiro fora, trabalhando. Ele e os irmãos almoçavam na escola e ficavam o dia inteiro lá. “A escola participava muito da minha vida, da vida da minha família e de várias famílias do Morro da Piedade e outros morros da região.” Depois, Jocelino cursou o ensino fundamental completo (na época, oito séries) na Escola São Vicente de Paula, também da Prefeitura de Vitória, na Cidade Alta, a qual também organizava atividades no contraturno. “Foi uma escola muito importante para minha formação, porque os professores viam no meu perfil uma ‘liderança nata’, como eles diziam. A escola potencializou esse protagonismo que eu tinha.” Da 1ª à 8ª série, Jocelino foi representante de turma. Quando ele estava na 7ª série, no começo da primeira administração do então prefeito João Coser (PT), a Secretaria Municipal de Educação (Seme) lançou um projeto visando à criação de grêmios estudantis nas unidades da rede. Uma pedagoga da escola de Jocelino abraçou o projeto, reuniu os representantes de turma e lançou o desafio. “Foi legal. Teve campanha mesmo. Montamos chapas. Conseguimos organizar o grêmio, e nossa chapa ganhou de lavada, com 80% dos votos.” Ele se tornou presidente do grêmio, reeleito por mais um ano na 8ª série. “Conseguimos mobilizar os estudantes em torno de pedir melhorias. Tanto que a obra do novo São Vicente de Paula, que hoje vai sair do papel, foi uma mobilização iniciada antes da minha chegada à escola, mas sobretudo com o nosso grêmio estudantil. Na época, fomos conversar com a então secretária de Educação, Marlene Cararo, para pedir uma nova escola. Viramos referência de protagonismo estudantil.” A São Vicente de Paula foi transferida para o prédio do antigo Colégio do Carmo. Hoje, a prefeitura está construindo um novo prédio para a escola, no espaço do antigo Colégio Americano.