Decisão tomada
Transição no Palácio Anchieta
Governador não precisou a data, mas terá de renunciar até o dia 4 de abril, de modo a ficar apto para se candidatar a uma vaga no Senado. A partir da formalização da renúncia, Ricardo Ferraço se tornará governador. Casagrande respondeu sobre a transição e sobre a reforma no secretariado

O governador Renato Casagrande (PSB) confirmou, na tarde desta terça-feira (2), sua decisão de renunciar ao atual mandato, antecipada aqui mais cedo. O anúncio oficial foi feito na tarde desta segunda-feira (2), em entrevista coletiva, no Salão Nobre do Palácio Anchieta, ao lado do vice-governador Ricardo Ferraço (MDB), que o sucederá no cargo.
O governador não precisou a data, mas, em cumprimento ao prazo imposto pelo calendário eleitoral, ele terá de renunciar até o dia 4 de abril, de modo a ficar apto para se candidatar a uma vaga no Senado. Embora ainda não oficialmente anunciada por Casagrande, a pré-candidatura ao Senado é o principal motivo da sua decisão de renunciar a seu terceiro mandato de governador.
Na coletiva de imprensa, por extrema cautela, Casagrande se limitou a dizer que, depois que deixar o governo, “estará apto” a disputar a eleição. Não quis precipitar o anúncio de uma candidatura que só será oficializada daqui a alguns meses, durante a convenção estadual do seu partido, o PSB, entre 20 de julho e 5 de agosto.
“Para estar apto a disputar a eleição, eu preciso me afastar até o dia 4 de abril. Então é por isso que estamos, com muita responsabilidade, fazendo este anúncio com um mês de antecedência, para priorizarmos, eu e Ricardo, esse processo de transição, para que, no mês de abril, as ações do governo continuem normalmente, com uma troca natural de comando”, afirmou o governador.
“O cenário um é candidatura”, reconheceu o governador. “Não vou dizer que alguma coisa possa me tirar da disputa ao Senado. Só um fato extraordinário que possa acontecer comigo pessoalmente. Mas, se Deus quiser, não vai acontecer nada”, também admitiu. “Mas, na hora certa, a gente fala sobre o processo eleitoral”, esquivou-se.
Contudo, o raciocínio é lógico: basicamente, ele não teria por que interromper o atual mandato se não fosse para disputar um assento no Senado – onde já exerceu meio mandato, de 2007 a 2010. Está a cumprir uma imposição da legislação eleitoral.
Esse é o primeiro ponto.
O segundo ponto é a ascensão de Ricardo Ferraço ao poder. A partir da formalização da renúncia de Casagrande, Ricardo se tornará o governador do Espírito Santo, com mandato até o início de janeiro de 2027.
Ricardo é o pré-candidato do governo Casagrande ao Palácio Anchieta. Assim, ele já disputará as eleições deste ano como governador de fato e de direito. Se vencer o pleito de outubro, será eleito para um segundo mandato seguido no cargo de governador e não poderá buscar a reeleição em 2030.
Além de o próprio governador e todos os seus aliados quererem seu retorno ao Senado, transferir o governo para Ricardo é parte importante da estratégia do Palácio Anchieta para que o atual vice-governador chegue mais forte, com “tinta na caneta”, nas eleições do segundo semestre.
A “transição interna”
Agora, o mês de março será praticamente um mês de “transição interna” do governo Renato Casagrande para o governo Ricardo Ferraço, como os dois confirmaram na entrevista coletiva.
“Neste mês, estamos iniciando o processo de transição, para que eu me afaste até o início de abril”, declarou Casagrande, destacando a segurança que tem em transferir o governo para Ricardo. “Não recai sobre ele nenhuma denúncia ou algo que possa desabonar sua conduta. Ele é conhecedor do Estado. Tem o compromisso de dar sequência ao trabalho que estamos realizando aqui.”
Já em tom de balanço e prestação de contas, o governador citou, como conquistas de sua administração, o volume de investimentos do Governo do Espírito Santo em infraestrutura, o baixo nível de endividamento do Estado e o alto nível de poupança, a baixa taxa de pobreza, a ótima colocação do ensino médio capixaba no Índice de Desenvolvimento do Ensino Básico (Ideb) e a diminuição paulatina do índice de homicídios.
“O Ricardo vai dar continuidade e vai aperfeiçoar esse trabalho. Essa transição que vamos fazer nos dá a tranquilidade e a segurança de que o trabalho vai continuar com essa velocidade que a gente já tem”, afirmou Casagrande.
Ricardo emendou: “Agora é mãos à obra para manter o trabalho e o rumo! […] Nosso foco neste momento é a transição para assegurar a continuidade dos avanços que estamos vendo acontecer no dia a dia das famílias em todo o Estado do Espírito Santo”.
Reforma do secretariado
Casagrande e Ricardo aproveitarão o mês de março para prepararem juntos uma grande reforma do secretariado.
A reforma será imprescindível não só porque o governador mudará, mas também porque mais de dez dos atuais secretários também serão obrigados a se desligar dos respectivos cargos até a mesma data, pois pretendem disputar algum mandato eletivo no pleito de outubro: alguns querem se candidatar a deputado estadual, enquanto outros pretendem concorrer a deputado federal. Por força da legislação eleitoral, terão de entregar o chapéu até o dia 4 de abril.
Assim, além das mudanças discricionárias (a critério dele) que Ricardo poderá fazer como novo governador, há pelo menos uma dezena de trocas impositivas a serem feitas em cerca de um mês.
Segundo Casagrande, todos os novos secretários serão nomeados por Ricardo, ou seja, não haverá substituições antes da sua renúncia oficial:
“Os secretários que vão assumir, vão assumir com Ricardo Ferraço governador. Então quem vai fazer a nomeação dessas pessoas é Ricardo Ferraço. É ele quem estará comandando o governo a partir de abril. Nós vamos discutir isso juntos. O critério número um são pessoas que poderão dar sequência sem interrupção dos trabalhos. Gente que conheça a área que estará liderando. Mas a nomeação e a decisão final é de Ricardo Ferraço”.
Fonte de renda
Casagrande afirmou que, após renunciar, não assumirá cargo de direção partidária no PSB e que, durante os próximos nove meses (tempo mínimo em que ficará sem mandato), viverá de suas economias. “Eu tenho a minha poupança. Estou me organizando para isso”, disse, entre risos.
Se ele se eleger senador, a partir da posse no Senado, no início de 2027, passará a receber, naturalmente, a remuneração inerente ao mandato parlamentar. Mas… e se não for?
“Se eu for candidato e me eleger, bem. Se não me eleger, vou ter que arrumar um serviço”, respondeu o governador, arrancando risadas de jornalistas.