
As singularidades
As de Arnaldinho, certamente, são sua juventude (41 anos, ante os 61 de Ricardo), seu momento de plena ascensão, sua altíssima popularidade (ao menos em Vila Velha, onde já foi testada e confirmada pelas urnas), seu elevado índice de aprovação no segundo maior colégio eleitoral do Espírito Santo (atrás da Serra), seu perfil moderno, muito atento e atuante nas redes sociais, e a aposta total na prevalência do anseio por renovação política por parte do eleitorado capixaba, ante a iminência do fim do ciclo de 24 anos de Casagrande e Paulo Hartung a se revezar no poder. Tal ideia de renovação seria melhor representada por ele do que por Ricardo. > Renzo sobre Arnaldinho no PSD: “Não tem nem ‘eventual', quanto mais filiação…” Podemos acrescentar outro ponto, de ordem muito mais subjetiva. Desde que adentrou a Prefeitura de Vila Velha, em 2021, Arnaldinho se estabeleceu, indiscutivelmente, como um fenômeno de carisma. Quem ainda duvida disso precisa ver, por exemplo, o recente vídeo do prefeito dançando funk no palco montado em Vila Velha por ocasião dos festejos de aniversário da cidade, para delírio do público. Ou o vídeo do início do ano em que o prefeito aparece tocando um instrumento de percussão, no palco da arena na praia que recebeu a programação de verão da cidade, enquanto é ovacionado pela multidão. Mais pareceram gritos de torcida organizada, em espontânea homenagem ao alcaide. “É o melhor prefeito do Brasil!”, entoaram os populares, após um palavrão que não posso reproduzir aqui. Carisma não faz um bom governante – ao contrário, às vezes pode ocultar problemas e erros… Mas na certa ajuda qualquer um a vencer uma eleição. Por sua vez, Ricardo tem como armas principais, antes de tudo, a posição privilegiada ocupada hoje por ele – como primeiro na linha sucessória, assumirá o cargo de governador em abril, com a provável renúncia de Casagrande para disputar o Senado –, o fato de que ele, nesse caso, já estará no cargo e pleiteando a reeleição – o que facilitará sumamente o discurso de que é “corresponsável” pelas realizações do atual governo, mais ainda se a máquina seguir rodando bem com ele à frente –, a convicção de que Ricardo herdará em boa parte o capital político de Casagrande e se beneficiará diretamente dos altos índices de aprovação do governo, a aposta na tese da “renovação segura, dosada pela experiência”… Outras armas pessoais são seu currículo, sua capacidade técnica já testada em inúmeras áreas, o fato de conhecer como poucos a máquina pública estadual, a larga rede de apoios (de prefeitos, deputados etc., que dependem do Governo do Estado e devem se aproximar, por gravidade, daquele que estiver na cadeira) e a grande coalizão de forças políticas e partidárias que tende a ser montada ao seu redor, tendo por fiador Casagrande. Tal coalizão já está em princípio de montagem, vide a manifestação explícita de apoio do Podemos e de todos os prefeitos do partido, a recentíssima adesão da portentosa Federação União Progressista, o engajamento em sua pré-campanha de agentes políticos influentes como o deputado federal Gilson Daniel (Podemos) e o presidente da Assembleia Legislativa, Marcelo Santos (União). > Da Vitória quer ser candidato a governador, se Ricardo não deslanchar Isso e o fato de que, diferentemente de Arnaldinho, Ricardo tem muito pouco a perder. Sim, se for preterido de novo ou até se amargar uma derrota nas urnas, o vice-governador ficará com o indelével estigma “daquele que duas vezes chegou tão perto, mas não se elegeu governador”… Mas, entrando na última quadra de sua longa trajetória política, após cerca de 40 anos praticamente emendando mandatos, poderá até, se quiser, ir amarrar o burro na sombra… Arnaldinho, não. O jovem prefeito tem altas aspirações. Como ele mesmo sugeriu, em mensagem prenhe de duplo sentido, num post em homenagem a Vila Velha: “É sobre até onde podemos chegar”. Ora, se o prefeito disputar a eleição a qualquer custo e perder a disputa, ficará pelo menos quatro anos sem mandato, em plena forma política. Voltará para o fim da fila e terá de aguardar nova chance até 2030.
As similaridades
Em muitos aspectos, como se deduz dos destaques acima, Arnaldinho e Ricardo podem ser tomados como opostos: as maiores vantagens de um são as maiores fraquezas do outro. Mas há também pontos em comum, tanto nos traços pessoais como nas estratégias eleitorais desenhadas por ambos para se viabilizarem. Tanto Arnaldinho como Ricardo se apresentam – e assim farão nos próximos meses, em sua disputa particular – como políticos e gestores públicos que têm por marca o dinamismo gerencial, o foco nas entregas para a população, a capacidade de diálogo com as mais diversas forças políticas e segmentos da sociedade civil, a energia e a disposição para o trabalho que os tornam governantes “infatigáveis”. > A paz Armada de Arnaldinho, Casagrande e Ricardo Ferraço em Vila Velha Ricardo tem a fama de workahoolic. Em Arnaldinho, essa ideia de “energia inesgotável” ainda é realçada por ser ele um atleta amador, que corre (com a esposa), pedala, atira, joga bola, “bate o escanteio e corre para cabecear”… Todas essas características são atestadas por aliados e assessores que colaboram diretamente com eles. Acrescente-se a capacidade de formar equipes e o equilíbrio das contas públicas – ostentada pela gestão de Arnaldinho em Vila Velha; ainda mais destacável no caso do Governo do Estado. Na esfera pessoal e comportamental, os dois seguramente investirão no “bom-mocismo” e “bom caratismo”, reforçando aquela imagem que tanto agrada à tradicional família capixaba: homens de família, dedicados à esposa, devotados aos filhos. Bons pais e bons maridos. No campo religioso, os dois são católicos. De fato, historicamente, são políticos classificáveis como “conservadores”. Não precisam ficar “lembrando isso” a todo instante, no discurso, para atingir o numeroso eleitorado conservador capixaba. Sua imagem pública, por si, cumpre tal objetivo. São ativos que os dois certamente explorarão ao máximo – aliás, já estão a fazê-lo – nessa prévia da pré-campanha, antessala preparatória, volta de apresentação e aquecimento para a corrida de verdade. Os dois por enquanto estão limpando e calibrando suas armas.