Coluna Vitor Vogas

Arnaldinho e Pazolini entram juntos na avenida e sinalizam aliança

A e L 1

Carnaval é alegria, é festa, é cultura… mas também é política. Ainda mais em pleno ano eleitoral. E o deste ano já tem um fato político marcante, a ser lembrado por muito tempo. No ato inaugural do desfile das escolas de samba, em pleno Sambão do Povo, o prefeito de Vitória, Lorenzo Pazolini (Republicanos), chegou à avenida acompanhado de ninguém menos que o prefeito de Vila Velha, Arnaldinho Borgo (PSDB).

Durante a entrega simbólica da chave da cidade para o Rei Momo, Pazolini e Arnaldinho passaram o tempo todo lado a lado. Juntos e de mãos dadas, ergueram-se os braços e gritaram “Viva o Espírito Santo!”. Isso a poucos palmos de distância do governador Renato Casagrande (PSB) e do vice-governador Ricardo Ferraço (MDB).

Para o leitor que não acompanha tão de perto a política capixaba e pode estar perdido no enredo, tanto Pazolini como Arnaldinho são pré-candidatos ao Governo do Espírito Santo, nas eleições de outubro, mas com uma diferença fundamental: Pazolini sempre foi adversário do governo liderado por Casagrande, enquanto Arnaldinho sempre foi um grande aliado do governador – e, diga-se de passagem, contou muito com sua ajuda, na forma de recursos estaduais, para fazer uma administração exitosa em Vila Velha.

Arnaldinho queria (ou ainda quer) ser o candidato a governador apoiado por Casagrande. O governador, contudo, nunca escondeu sua preferência por Ricardo Ferraço. No dia 18 de dezembro, anunciou oficialmente Ricardo como seu candidato à sucessão.

Preterido por Casagrande, Arnaldinho agora pega de surpresa o governo e faz esse movimento em direção a Lorenzo Pazolini, indicando um princípio de aproximação política com o prefeito de Vitória. “Dialogamos, conversamos. Estamos começando um diálogo”, confirmou Pazolini à coluna. Se é o princípio de uma aliança eleitoral? “Tem muita coisa ainda. Vamos continuar conversando.”

De fato, se a aproximação resultará ou não numa aliança eleitoral entre os dois prefeitos, é cedo para afirmar. Mas os sinais eloquentes foram apresentados ao público, para o mundo todo, na transmissão ao vivo da TV Sim e nas redes sociais de ambos – sim: Arnaldinho e Pazolini já fizeram “colabs” no Instagram.

Durante os cerca de 15 minutos que passaram juntos na avenida, Pazolini e Arnaldinho exibiram entrosamento. Enquanto os dois posavam para uma série de fotos com as respectivas esposas, Paula e Andressa, Casagrande ficou por alguns instantes atrás deles, sem conseguir disfarçar o desconforto. Visível em seu semblante, o constrangimento foi maior que o peso do Rei Momo ou o talento das passistas que o acompanhavam.

“Carnaval é dia de alegria, confraternização, paz, união… E é isso que está acontecendo aqui”, declarou Arnaldinho à coluna, sorridente.

Velha guarda”: as palavras de Pazolini

A imagem de Pazolini e Arnaldinho juntos na passarela do samba é daquelas clássicas que falam por si. Mas as palavras de Pazolini também falaram (e muito). Como prefeito de Vitória, ele foi o último a discursar, antes de entregar a chave simbólica ao Rei Momo. E seu discurso não foi nada protocolar.

Pazolini ficou postado entre Arnaldinho e Casagrande: à sua direita, o prefeito de Vila Velha; à sua esquerda, o governador. O prefeito de Vitória fez várias mesuras a Arnaldinho, olhando diretamente para ele e voltando as costas para Casagrande. Agradeceu a Arnaldinho por ter aceitado seu convite pessoal para estar ali com ele. E convidou publicamente Arnaldinho para coltar a ladeá-lo neste sábado (7), na assinatura da ordem de serviço para construção da Cidade do Samba.

“Esse é o trabalho extraordinário que nós vamos fazer, Arnaldinho, olhando nos seus olhos, unindo o nosso povo, construindo pontes como o nosso saudoso Élcio Alvares em 1979, que uniu Vila Velha a Vitória e aos outros 77 municípios, dialogando, transformando a vida de quem mais precisa, derrubando os muros invisíveis que separavam os capixabas, que são todos irmãos”, disse o prefeito de Vitória, em alusão à Terceira Ponte.

Pazolini também deu ao seu discurso, em alguns trechos, clara conotação eleitoral, mas se valendo de alguns artifícios para não burlar a lei. Mais de uma vez, ele destacou o número do canal aberto da TV Sim (10), o qual, por pura coincidência, é o número do seu partido, o Republicanos – portanto, provável número de urna dele mesmo se for candidato a governador. O prefeito não deixou a menor dúvida de que quer mesmo ser.

Os últimos segundos do discurso de Pazolini foram particularmente embaraçosos para Casagrande e Ricardo – que, repita-se, estavam bem ali ao lado. De modo não tão sutil para os entendedores, Pazolini fez uma analogia entre o mundo do samba e a sucessão ao Governo do Espírito Santo. Nas entrelinhas, sugeriu que Ricardo e Casagrande são políticos “da velha guarda” e “ancestrais”, que merecem reconhecimento e valor, mas que precisam dar lugar ao “novo”.

“Como dizia meu saudoso e querido pai, Renato Pazolini […], não dá pra querer o diferente escolhendo o igual. Não dá pra continuar com os mesmos nomes se nós queremos resultados diferentes. Seria ignorância ou seria falta de inteligência?”

Pazolini prosseguiu:

“Mas temos a certeza absoluta que, assim como fizemos a revolução do samba, respeitando a velha guarda [apontou, sem olhar, para o lado de Casagrande], respeitando a ancestralidade e respeitando aqueles que nos antecederam no passado, mas trazendo a modernidade [apontou para o lado de Arnaldinho] é que nós vamos, Arnaldinho, reescrever essa história. Respeitando o passado, os que estiveram antes de nós, mas com a certeza absoluta de que o futuro será de paz e prosperidade!”

Casagrande e Ricardo: “normal”

Questionado por nós sobre a chegada de Arnaldinho com Pazolini, o governador Renato Casagrande disse encarar o fato como “normal”. Ele julga que isso pode indicar uma aproximação política do seu aliado em Vila Velha com seu adversário em Vitória? “Não sei. Aí é com ele.”

Ricardo Ferraço também tirou por menos: “É muito natural. É clima de Carnaval, de entrosamento, de harmonia”.