O pedido de exoneração do delegado-geral da Polícia Civil do Espírito Santo (PCES), José Darcy Santos Arruda, na manhã desta sexta-feira (3), coloca Ricardo Ferraço (MDB) diante do seu primeiro teste de fogo como governador do Espírito Santo. Em seu primeiro “dia cheio” de trabalho no “novo emprego”…
Pegando alguns de surpresa, outros nem tanto, o mais longevo chefe da história da PCES decide entregar o cargo em momento bastante delicado, não só para a instituição como para o Governo do Estado. A escolha do substituto de Arruda, prerrogativa exclusiva de Ricardo, terá de ser cirúrgica. O novo governador só terá uma bala. Não poderá errar o alvo.
Em circunstâncias “normais” – se é que se pode usar o temo em se tratando de segurança pública –, a substituição do chefe da Civil, após mais de sete anos no cargo, já seria uma decisão extremamente complexa a ser tomada por qualquer governador. No atual contexto, a decisão adquire contornos ainda mais delicados, pela combinação de três fatores:
1) Perto de se aposentar, Arruda se despede do cargo em momento particularmente sensível. Nas últimas semanas, no noticiário local e nacional, foram publicadas e exibidas reportagens de grande repercussão que puseram o chefe da Civil no centro de algumas polêmicas, em posição de dar explicações ou rebater publicamente declarações e acusações feitas por delegados da própria corporação. Mais de uma vez, ele precisou se contrapor ao discurso de integrantes da própria PCES, subordinados a ele.
Na definição de uma fonte de alta patente do Governo do Estado, isso criou um “campo minado”. Agora, o sucessor de Arruda, a ser escolhido por Ricardo, terá pela frente a missão imediata de pacificar a situação. Terá de ser alguém capaz de transmitir autoridade e, ao mesmo tempo, tranquilidade, tanto para dentro (a categoria) quanto para fora (a sociedade capixaba). Precisará pacificar a relação de uma parcela de escalões inferiores com o comando da instituição.
2) Em segundo lugar, há o timing. Ricardo, literalmente, acabou de assumir o cargo de governador. Enquanto escrevemos este texto, não faz nem 24 horas que ele “vestiu” a faixa, entregue por Renato Casagrande (PSB), em cerimônia no Palácio Anchieta.
Em seu discurso na mesma cerimônia, sob aplausos, o governador recém-empossado destacou justamente seu compromisso em manter a linha “tolerância zero com a bandidagem”, enalteceu os resultados do Programa Estado Presente (carro-chefe do governo Casagrande no combate à criminalidade) e prometeu fortalecer o trabalho das forças estaduais de segurança, entre elas a PCES.
Agora, em menos de 24 horas, Ricardo se vê diante da responsabilidade de definir o novo comandante da corporação que é, ao lado da PMES, o mais importante pilar do enfrentamento à violência no Estado. Haverá de ser alguém capacitado o bastante para aliar à prática o discurso do novo incumbente, ajudando-o a concretizar a tão importante promessa de seguir reduzindo as taxas de criminalidade, enquanto amplia, na mesma medida, o índice de elucidação de crimes.
3) Por último, como já devidamente sublinhado aqui, esse governo de Ricardo é curto. Poderá ser renovado em outubro, se os eleitores capixabas assim quiserem. Caso ele seja reeleito, sua estadia será prolongada, com um segundo mandato (este, sim, cheio) até dezembro de 2030. Mas o atual mandato é de apenas nove meses, encerrando-se no fim deste ano.
Além disso, a campanha eleitoral já bate à porta, com início oficial em agosto. Nestes quatro meses que o separam dela, Ricardo terá de fazer um governo com “margem mínima de erro”, decisões firmes, assertivas e acertadas, a fim de chegar fortalecido, com a imagem de bom governador, ao período oficial de campanha.
O desgaste de José Darcy Arruda
Para membros do alto escalão do governo, Arruda teria sido alvo de ataques sistemáticos de oponentes, uma campanha orquestrada com o intuito de o desmoralizar publicamente. Segundo as mesmas fontes, a estratégia ganhou força nos últimos dias, a tal ponto que, a partir de dado momento, tudo o que ele dissesse poderia ser (e era) usado contra ele.
A situação se tornou insuportável para ele, deixando-o fragilizado e abalado, não só do ponto de vista político, como também pessoal e emocional, agravando um problema de saúde que ele já enfrenta há algum tempo. Como Ricardo registrou em sua nota pública, além da iminente aposentadoria, o ainda chefe da PCES “está se afastando por razões de saúde”.
Arruda realmente está com a saúde debilitada e passará por uma cirurgia na próxima sexta-feira (10). Também por isso – e para não dar terreno à crise –, Ricardo precisa apressar a definição e o anúncio do substituto. Enquanto o anúncio não vem, o demissionário delegado-geral seguirá à frente da PCES. Mas, a partir da cirurgia, ele sairá de vez de cena, e a PCES não poderá ficar sem comando.
Em postagem no Instagram nesta sexta-feira (3), o próprio Arruda confirmou que está na luta contra o sexto diagnóstico de câncer:
“Após já ter enfrentado, ao longo da vida, cinco diagnósticos de câncer, fui novamente acometido pela doença e serei submetido a procedimento cirúrgico no próximo dia 10. Neste momento, é necessário priorizar o tratamento e a recuperação, com a serenidade e a dedicação que o quadro exige”.
Para muitos, Arruda já estava insustentável no cargo, e sua eventual permanência poderia ser pior para Ricardo e para o governo entrante. O que Ricardo menos precisa neste momento é de uma crise na área de segurança.
Sob grande pressão e desgaste, o delegado-geral achou melhor pedir para sair, para se focar em seu tratamento de saúde.
O que disse Ricardo na coletiva
A cadeia de acontecimentos leva a crer que Ricardo Ferraço não esperava o pedido de exoneração de Arruda para esta Sexta Feira da Paixão. Sentindo-se crucificado, o delegado-geral antecipou a saída.
Mas na véspera, em entrevista coletiva concedida no Palácio Anchieta, logo após a posse, Ricardo foi indagado sobre a situação de Arruda e se ele ficaria no cargo. Em seu primeiro contato com a imprensa como governador, ele respondeu assim: “Nós estamos conversando a respeito e, nos próximos dias, vamos falar sobre isso”.
Ricardo também informou que sua primeira reunião de trabalho seria com a cúpula da segurança pública no Estado, neste sábado (4), às 7 horas. A reunião de fato ocorrerá, mas, em vez de contar com a participação de Arruda, terá no topo da pauta a sua imperiosa substituição.
“A segurança pública continuará a ser uma prioridade”, reafirmou Ricardo, na mesma entrevista coletiva.
Pouco antes, no discurso de transmissão do cargo no Salão São Tiago, ele frisou:
“Não existe desenvolvimento sem segurança. Não existe prosperidade onde o crime domina territórios. Não existe liberdade onde famílias vivem com medo. Por isso, reafirmo aqui com toda a clareza: no Espírito Santo, o crime continuará não tendo espaço. Aqui o Estado não recua. Aqui o Estado não hesita. Aqui o Estado é presente. E este compromisso é permanente, com a segurança pública, com a autoridade da lei, com a proteção das famílias capixabas”.
Ele ainda assumiu um de seus primeiros compromissos públicos: seguir fortalecendo o Programa Estado Presente e as forças estaduais de segurança (o que inclui a PCES).
“O cidadão de bem precisa ter tranquilidade para viver, trabalhar, estudar e empreender. E quem escolhe o caminho do crime precisa ter a certeza de que, aqui no Espírito Santo, continuará encontrando um estado firme, preparado, determinado, porque nós vamos seguir fortalecendo as nossas forças de segurança”.
Ele ainda elencou a segurança como um dos quatro “pilares” de sua administração.
Os conflitos de Arruda com delegados
Nos últimos meses, dois delegados da PCES bateram de frente com Arruda.
O primeiro foi o delegado Romualdo Gianordoli. Após ser exonerado do cargo de subsecretário de Inteligência da Secretaria de Estado de Segurança Pública (Sesp), no fim do ano passado, ele passou a fazer críticas públicas à Polícia Civil e à cúpula da segurança no Estado.
Nas redes sociais, Romualdo afirmou que a Polícia Civil estaria “bastante corroída” e sugeriu interferências em investigações delicadas, incluindo a Operação Baest, que envolvia o suposto braço financeiro de uma facção criminosa com atuação no Espírito Santo.
A Sesp rebateu as declarações, classificando-as como falsas e determinando a investigação do caso. Segundo a pasta, as falas poderiam configurar crimes como denunciação caluniosa e uso indevido de informações sigilosas.
Romualdo processou Arruda depois que o chefe da PCES divulgou nas redes sociais que o delegado era alvo de apuração interna por ter se apropriado de informações sigilosas de investigações conduzidas pela instituição.
Outro conflito emblemático de Arruda foi com o também delegado Alberto Roque Peres. Numa investigação federal, na condição de testemunha, ele prestou depoimento sigiloso, no qual apontou um policial civil (colega de corporação) como “o maior traficante de drogas do Espírito Santo”.
A investigação federal está relacionada à Operação Turquia, que apura um esquema de desvio de drogas apreendidas, por policiais civis, para uma organização criminosa que atua no bairro Ilha do Príncipe, em Vitória.
No último domingo (29), o programa “Fantástico”, da Rede Globo, exibiu reportagem sobre o caso e entrevistou Arruda. Após a entrevista, o delegado Alberto Peres apresentou à Polícia Federal uma notícia-crime contra Arruda.
Na denúncia, o delegado pede que o chefe da PCES seja investigado por coação à testemunha (ele próprio) e outros crimes, como denunciação caluniosa, abuso de autoridade, prevaricação e obstrução de investigação de organização criminosa.
O material também foi encaminhado ao Ministério Público do Espírito Santo (MPES). A informação foi publicada pela colunista Vilmara Fernandes, de A Gazeta.
Segundo o delegado Alberto Peres, Arruda divulgou em entrevistas seu nome, que até então não tinha vindo a público, já que seu depoimento fora dado em caráter sigiloso.
Além disso, ele entrou com a notícia-crime contra Arruda porque a Corregedoria da Polícia Civil abriu uma investigação interna para apurar quais medidas haviam sido tomadas por ele ao ficar sabendo das informações relativas ao policial civil suspeito de relação com o tráfico (o suposto “maior traficante de drogas do Espírito Santo”).
A abertura do procedimento foi determinada por Arruda. A medida foi interpretada por Alberto Peres, em sua notícia-crime, como uma possível retaliação. Arruda nega as acusações e afirma que não houve tentativa alguma de coação.
Outro ponto que contribuiu para o desgaste de Arruda foi o fato de ter vindo à tona, após iniciativas do Ministério Público e da Polícia Federal, uma investigação que já dura nove anos, no âmbito da Corregedoria da PCES – órgão encarregado de investigar denúncias contras os próprios policiais civis.
A investigação interna diz respeito ao possível envolvimento de policiais civis com o tráfico de drogas no Espírito Santo.