Uma eleição é decidida em três etapas. Ou, dizendo-o de outro modo, o calendário eleitoral é dividido em três fases muito decisivas. A primeira foi concluída no último sábado (4). Longe da atenção da maior parcela dos cidadãos, uma grande parte das eleições de outubro acaba de ser definida, com o encerramento do prazo de renúncias, desincompatibilizações, mudanças de partido e filiações de quem pretende se candidatar a algum cargo.
Essa primeira etapa é a de acumulação de forças políticas. Com seu encerramento, o quadro fica bem mais “limpo”: é possível saber quem é quem no jogo eleitoral, quem está para valer na disputa, quais são suas verdadeiras chances e seus reais aliados.
Nesse cenário, é possível afirmar que a coligação governista, tendo Ricardo Ferraço (MDB) como candidato a governador e Casagrande (PSB) como candidato a senador, conseguiu acumular mais “pontos”. Eles terão a maior coligação, com o maior número de siglas partidárias. Conseguiram uma adesão “pesada”, com a chegada da Federação União Progressista. Terão o apoio do maior número de deputados federais capixabas (mais da metade), do maior número de deputados estaduais (com muita folga) e do maior número de prefeitos e vereadores pelo Estado.
Impõe, no entanto, uma ressalva. Na semana passada, em uma contrarreação, o front político-eleitoral do agora ex-prefeito Lorenzo Pazolini (Republicanos) também conseguiu marcar alguns pontos importantes, que reduzem a disparidade de forças. Foram três os fatos relevantes para o mercado político.
Em primeiro lugar, o Partido Social Democrático (PSD), sigla do ex-governador Paulo Hartung, anunciou oficialmente apoio à candidatura de Pazolini para governador. O próprio presidente nacional, Gilberto Kassab, confirmou a decisão. É um partido grande e importante – basicamente, o primeiro que chega para encorpar a coligação do Republicanos, com recursos financeiros e mais tempo de propaganda eleitoral na TV e no rádio.
Além do anúncio de Kassab, o presidente estadual do PSD, Renzo Vasconcelos, fez um post confirmando o apoio. Prefeito de Colatina, Renzo há muito tempo (desde as eleições 2024) vinha dando sinais de estar muito mais próximo de Pazolini, mas, nos últimos 40 dias, esboçou uma reaproximação com o governo Casagrande, o que pôs uma pulga atrás da orelha coletiva. Agora, Renzo confirma sua tendência de apoiar o candidato do Republicanos.
Em segundo lugar, o deputado federal Evair de Melo saiu do PP (que está com Ricardo) e se filiou ao Republicanos. Em tese, pode até vir a ser candidato a senador. Mas a princípio ele chega mesmo para ser candidato à reeleição, fortalecendo a chapa do partido de Pazolini à Câmara.
Com isso, Evair compensa parcialmente duas baixas muito sentidas que o Republicanos sofreu na janela de março, perdendo de uma vez Amaro Neto (agora no PP) e Messias Donato (agora no União). Ambos estão com Ricardo. O Republicanos, assim, havia passado de dois para nenhum representante na bancada capixaba na Câmara. Com a filiação de Evair, volta a ter pelo menos um.
Por fim, num ato muito simbólico, Carlos Manato (Republicanos), Guerino Zanon (PSD) e Aridelmo Teixeira (PSD) se reuniram com Pazolini e fizeram uma declaração conjunta de apoio ao pré-candidato do Republicanos.
Não há propriamente uma novidade aí. Os três já o apoiariam, de qualquer modo. Mas o interessante do gesto é que os três foram adversários de Casagrande na última eleição para governador, em 2022. E agora se unificam em torno do mesmo candidato de oposição ao Palácio Anchieta.
Além deles, o ex-prefeito de Guarapari Edson Magalhães também tomou um café com Pazolini.
Resumindo: foram dias de contrarreação do “Time Pazolini”, agregando aliados e mostrando que não está isolado.
Obervação
Manato, Guerino Zanon e Edson Magalhães são representantes da “velha guarda” da política capixaba. Manato emendou quatro mandatos na Câmara dos Deputados, iniciados em 2003. Guerino foi prefeito de Linhares por cinco mandatos. Para o primeiro deles, foi eleito há 30 anos, em 1996. Magalhães foi prefeito de Guarapari, ou elegeu aliados, um punhado de vezes.
A questão que emerge é: até que ponto se cercar dessa “velha guarda” não pode minorar, ou relativizar, o discurso de “renovação política” com que o “Time Pazolini” vem para as eleições estaduais?
No momento, esse time ganhou a cara daquele scratch que mescla jogadores bem jovens, recém-promovidos das categorias de base, com veteranos da bola.
O saldo político de Arnaldinho Borgo nesta temporada de definições eleitorais
Numa ascensão meteórica, Arnaldinho Borgo acumulou vitórias consagradoras até o ano passado.
Em 2016, reelegeu-se para o segundo mandato na Câmara de Vila Velha como o vereador mais votado da cidade. Em 2020, chegou à Prefeitura de Vila Velha, derrotando Max Filho no 2º turno com quase 70% dos votos válidos. Em 2024, reelegeu-se no 1º turno com quase 80% dos votos válidos, sendo, com sobras, o candidato com o maior número de votos nominais no Espírito Santo.
Mas a política não é feita só de vitórias. No universo político capixaba, poucos hão de discordar que Arnaldinho sai desta primeira fase decisiva do processo eleitoral como o maior derrotado no Espírito Santo. Após ter emendado erros estratégicos e dado cavalos de pau em sequência, o prefeito de Vila Velha não conseguiu atingir nenhum dos seus objetivos eleitorais.
No começo de dezembro, Arnaldinho tomou de Vandinho Leite o comando estadual do PSDB, em articulação direta com o presidente nacional da sigla, Aécio Neves – em um malfadado movimento, que pegou de calças curtas até o Palácio Anchieta. No dia 18 do mesmo mês, Casagrande anunciou apoio a Ricardo Ferraço como seu candidato a governador.
Sentindo-se preterido, Arnaldinho, em fevereiro, abandonou o grupo liderado por Casagrande, aproximou-se de Pazolini e declarou que os dois estariam juntos nas eleições deste ano.
Em março, voltou atrás, afastou-se de Pazolini e ensaiou um retorno para a base do Governo do Estado. No dia 25 de março, sem ter conseguido reunir as condições políticas e estruturais necessárias, Arnaldinho desistiu da pré-candidatura a governador e anunciou sua permanência no cargo de prefeito.
Chapa do PSDB desmoronou
Arnaldinho ainda tentou salvar a chapa de candidatos a deputado federal do PSDB. Montar e entregar uma chapa à Câmara em condições de eleger um deputado federal foi o compromisso assumido por ele, em dezembro, perante Aécio; uma das contrapartidas pedidas pelo presidente nacional ao lhe entregar de bandeja a presidência estadual.
Nos últimos dias do prazo, o Palácio Anchieta até tentou lhe dar uma tímida ajuda. Mas era tarde. Na disputa deste ano, com um quadro partidário bem mais enxuto, há pouquíssimos pré-candidatos a deputado federal – bem menos que em eleições anteriores. As chapas dos outros partidos já estavam bem amarradas. Ninguém queria ver sua chapa desmontada nos acréscimos do juiz. A do PSDB, então, implodiu.
Na última sexta-feira (3), até Victor Linhalis, “o deputado federal do Arnaldinho”, trocou o PSDB pelo PSB, sigla de Casagrande, a fim de salvar as próprias chances de reeleição. Seguindo sua deixa, o ex-prefeito Neucimar Fraga também abandonou o navio tucano, que de fato naufragou, pulando no bote salva-vidas do PL.
“O último a sair apague a luz”…
Hoje, no Espírito Santo, como tucanos de peso, restam Arnaldinho e o ex-prefeito de Vitória Luiz Paulo Vellozo Lucas.
Num intervalo de quatro meses, o PSDB no Estado virou terra arrasada. Não terá candidato a governador, não terá chapa à Câmara Federal, dificilmente terá chapa à Assembleia Legislativa.
O partido sofreu uma debandada de mandatários. Tinha dois deputados estaduais (Mazinho dos Anjos e Vandinho) e podia ter ganhado um federal (Linhalis). Agora, não tem nem sequer um deputado estadual.
Entre prefeitos e vice-prefeitos, no começo de dezembro, o partido tinha cerca de dez mandatários. Agora, o único prefeito que resta filiado ao PSDB no Estado é o próprio Arnaldinho.
O sentimento da direção nacional do PSDB em relação ao cenário capixaba
Diante desse cenário e considerando que o prefeito de Vila Velha preside uma Executiva Estadual provisória, já circulam dúvidas sobre as condições políticas de Arnaldinho para se sustentar no cargo. A decisão compete à direção nacional – a mesma que o botou na presidência estadual há cerca de quatro meses.
A coluna apurou que, no momento, o sentimento predominante na cúpula nacional do PSDB em relação ao Espírito Santo é de “decepção”, sobretudo por conta do desmantelamento da chapa de federais, nos últimos dias do prazo de filiações.
Com a popularidade que possui e à frente da prefeitura de uma cidade com meio milhão de habitantes, Arnaldinho será um cabo eleitoral importante, sem dúvida alguma, nas eleições estaduais deste ano. Mas, em termos de capital político, sai desta temporada menor do que entrou.
E como dirigente de um partido em frangalhos no Estado.
A ascensão do Podemos no ES na reta final de filiações
E o Podemos, hein? Como dirigente partidário, Gilson Daniel “não brinca em serviço”… Além de já ter filiado o médico Serginho Vidigal, pré-candidato a deputado federal, o partido reforçou sua chapa à Câmara com a “aquisição do passe” do empresário Marcel Carone (ex-Avante) e do vereador de Vila Velha Renzo Mendes (ex-PP).
Quanto à chapa de candidatos a deputado estadual, o Podemos “contratou” o ex-prefeito Guerino Balestrassi – que já tinha até anunciado a permanência no MDB –, o ex-comandante-geral da PMES Douglas Caus e mais dois deputados estaduais com mandato, além de Gandini, que já tinha se filiado: Marcos Madureira e Zé Preto.
Assim, o Podemos entrou na janela com dois deputados estaduais e sai dela com cinco, mais que dobrando sua bancada na Ales.
Marcos do Val
Na última quarta-feira (1º), o senador Marcos do Val assumiu a presidência estadual do Avante. No domingo, sua assessoria divulgou um vídeo em que ele convocava as pessoas a se filiarem para a composição das chapas proporcionais do Avante, com direito a um número de celular na tela.
Montar uma chapa do zero, literalmente, no último dia do prazo, é negócio muito complicado. Nunca se tinha visto.