Corrida pela IA

O “lado B” da descarbonização: datacenters, veículos elétricos e a disputa por recursos naturais

A transição verde avança, mas pressiona água, energia e minerais ao impulsionar datacenters e a eletrificação do transporte

Descarbonização

Quando falamos de descarbonização, muitas vezes imaginamos um futuro limpo, eficiente e tecnologicamente avançado. O discurso é sedutor: substituímos combustíveis fósseis por eletricidade renovável, colocamos veículos elétricos (VEs) nas ruas e deixamos a inteligência artificial (IA) otimizar tudo. Mas essa narrativa linear esconde uma realidade de pressões reais sobre recursos naturais como água, energia e minerais, que sustentam essas tecnologias.

A corrida pela IA tem provocado um boom de datacenters de tamanho crescente, com milhares de instalações espalhadas pelo mundo para processar modelos cada vez mais complexos e treinamentos que exigem milhares de GPUs funcionando 24h por dia, aumentando a pressão sobre as redes elétricas. Esses centros não consomem apenas eletricidade, mas também demandam enormes volumes de água para resfriamento e operação. Estudos estimam que, globalmente, os datacenters podem ter consumido entre 300 bilhões e 700 bilhões de litros de água em 2025. Cada data center de grande porte pode usar milhões de litros de água por dia para manter temperaturas de operação estáveis, o equivalente ao consumo doméstico de dezenas de milhares de pessoas. Alguns relatórios também projetam que o consumo de água por datacenters dedicados à IA pode aumentar onze vezes, chegando a cerca de 1.068 bilhões de litros anuais até 2028.

Ao mesmo tempo, a eletrificação do transporte avança rápido. Segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), o número de VEs no mundo está projetado para crescer cerca de quatro vezes até 2030, chegando a mais de 250 milhões de unidades em circulação globalmente. Em 2025, as vendas anuais de veículos elétricos ultrapassaram 20 milhões de unidades, representando cerca de 25% de todos os carros vendidos no mundo. Esse crescimento não é apenas um sinal de mudança tecnológica, mas também significa que a demanda por eletricidade associada a VEs deve crescer substancialmente. Estimativas indicam que o consumo elétrico global para carregar VEs pode aumentar mais de quatro vezes até 2030, para cerca de 780 TWh/ano.

Essa expansão tem implicações diretas para redes elétricas e para a demanda mineral, pois baterias, motores e sistemas de conexão dependem de cobre, lítio, níquel e outros minerais críticos. A construção de fibras ópticas que conectam datacenters e infraestruturas de carregamento também exige quantidades significativas de cobre e outros materiais. Esse uso intensivo de metais e minerais cria uma nova fronteira de impacto ambiental: a mineração em grande escala.

O paradoxo emerge claramente: enquanto descarbonizamos as frotas de transporte e substituímos operações humanas por IA automatizada, a base material dessa transição — recursos hídricos, eletricidade e minerais — enfrenta pressões crescentes. Isso nos força a ir além de métricas de carbono e a considerar toda a cadeia de valor física dessas tecnologias.

A resposta não pode ser simplista. É preciso integrar políticas que incentivem a reciclagem de materiais, a eficiência hídrica e energética, o uso responsável da terra e recursos minerais, e modelos regulatórios que equilibrem desenvolvimento tecnológico com preservação ambiental.

Sem enfrentar essas interdependências corremos o risco de trocar um problema por outro, igualmente profundo: a escassez e distribuição de recursos essenciais.

O novo fundo de descarbonização lançado recentemente para apoiar empresas no Espírito Santo e coordenado pelo Bandes está bem posicionado nessa linha e deverá apoiar empreendimentos como: geração de energia renovável (solar, eólica, biogás e biometano); tecnologias limpas aplicadas à produção industrial; eficiência energética e eletrificação de cadeias logísticas; reflorestamento e restauração ambiental; práticas agrícolas sustentáveis e agricultura regenerativa; produção e uso de biocombustíveis e combustíveis alternativos; transportes de baixa emissão, incluindo eletrificação de frotas; gestão de resíduos, com foco em valorização energética, biogás e reciclagem.

Enquanto aguardamos se há ou não uma bolha da IA prestes a estourar, se a rede elétrica e os reservatórios de água aguentam, se a transição energética se dá explorando as novas oportunidades da margem equatorial e enfrentando cada vez mais eventos climáticos extremos, vamos fazendo o que é possível e ampliando a conscientização.