Premiação
Reciclagem
A iniciativa une artesãos, designers e ambientalistas em torno do reaproveitamento de materiais do Carnaval
Escrito por Josue de Oliveira em 23 de fevereiro de 2026
O brilho que atravessou a avenida do Sambão do Povo não terminou com o fim dos desfiles. Em Vitória, fantasias e adereços que poderiam virar lixo estão sendo transformados em novos produtos, como acessórios de cabelo, bolsas, roupas, itens de decoração, botões, mosquetões e aviamentos.
A iniciativa faz parte do conceito de Carnaval Circular, que une artesãos, designers e ambientalistas em torno do reaproveitamento de materiais. Em vez de seguirem para aterros sanitários ou para a baía de Vitória, os resíduos passam por triagem e ganham nova função.
Ao longo de 17 anos, o projeto já evitou o descarte irregular de mais de 60 toneladas de materiais em praias e manguezais. No mesmo período, a limpeza urbana tradicional chegou a recolher 25 toneladas de lixo das ruas durante o Carnaval, o que reforça a importância do trabalho de reaproveitamento.
O ReciclaFolia organiza a logística voluntária de coleta e destinação dos materiais. O que sobra dos desfiles é separado e encaminhado para reutilização. Desde o ano passado, a iniciativa também passou a dialogar com o setor de design.
A designer Juliana Lisboa, idealizadora da Fantástica Carpintaria, desenvolve o estudo Re-Colheita para transformar resíduos em novos insumos. Materiais como TNT e PEAD são higienizados e triturados. Depois, viram placas rígidas que podem ser cortadas e moldadas.
Essas placas se transformam em diferentes produtos. As fantasias dão origem a acessórios de cabelo, bolsas, novas peças de roupa, itens decorativos, além de botões, fivelas, mosquetões e outros aviamentos. Parte do material também pode virar madeira plástica maciça e até mobiliário urbano.
“Além das placas, é possível desenvolver uma série de produtos como madeira plástica maciça e aviamentos essenciais, como botões, mosquetões e fivelas que podem retroalimentar a cadeia criativa dos próximos carnavais, reduzindo custos e impacto ambiental. O trabalho da Fantástica Carpintaria se completa com oficinas educativas, levando o conhecimento da transformação para a comunidade”, afirma Juliana.
Na Regional 2, em Santo Antônio, o trabalho de triagem é coordenado por Cida Moschen, do ReciclaFolia. O espaço funciona como um ponto de reaproveitamento e distribuição gratuita de materiais.
Artesãos locais e foliões de blocos de rua utilizam os resíduos para montar novos figurinos e produzir peças ao longo do ano. Em 2026, cerca de 11 toneladas foram recicladas.
“Graças aos foliões que fizeram a doação das fantasias após os desfiles, esses materiais agora ganham novos significados. Este ano de 2026 reciclamos cerca de 11 toneladas”, destaca Cida.
Para o setor de reciclagem, a integração entre cultura e sustentabilidade fortalece a cadeia produtiva local. Luiz Alberto Baptista, presidente do Sim Reciclo (Sindicato das Indústrias de Reciclagem do ES), avalia que o reaproveitamento gera renda e reduz impactos ambientais.
“Esses projetos mostram que a reciclagem não é apenas um processo industrial, mas uma mudança de mentalidade. Quando transformamos resíduos de uma festa em renda, madeira plástica e novos produtos, fortalecemos toda a cadeia produtiva e protegemos o meio ambiente”, afirma.
Assim, o que antes era fantasia descartada volta ao mercado em forma de novos produtos, prolongando o ciclo da festa e reduzindo a pressão sobre o meio ambiente.