no sambão
solte a voz!
Além de conduzir o ritmo da apresentação e do público, o samba-enredo ainda conta como pontuação para as escolas
Escrito por Larissa de Angelo em 06 de fevereiro de 2026
Os sambas-enredo das dez escolas que desfilam nos dias 6 e 7 de fevereiro prometem dar o tom da disputa no Carnaval de Vitória. Com histórias e homenagens diferentes, esses sambas embalam as escolas e o público ao longo dos desfiles.
Além de conduzir o ritmo da apresentação e a leitura do enredo, as composições têm peso decisivo na pontuação final e podem definir a colocação das escolas ao fim dos desfiles, que reúnem tradição, criatividade e grande expectativa do público capixaba.
A escola, que será a primeira a entrar na avenida do Sambão do Povo, traz o enredo “Okê Caboclo Sete Flechas. Guardião Ancestral da Natureza”.
Okê, Caboclo, Okê!
Salve seu Panaiá
Ele é o rei da mata, é o dono do congá
Seu bodoque atira, ô paranga!
Traz a força pra aldeia Pega no Samba
Quando a mata estremeceu sob raios e trovões
E das lágrimas do céu surgiram os guardiões
No solo sagrado nasceu a magia…
A fauna e a flora em plena harmonia
É Pataxó! O dono da terra que nasce em bravura
Da lança que fere, da erva que cura!
Nos quatro elementos naturais
A sabedoria dos antigos ancestrais
Foi ela quem te chamou…
Foi ela quem te encantou…
Cobra coral piou no romper da madrugada
De Oxalá vem a missão suprema
Nos encantos da Jurema
Herança sagrada
Caboclo, ê!
Vem nos caminhos de Oxóssi, caçador
Sabedoria guarda as folhas de Ossaim
No meu terreiro, a falange incorporou!
O brado em defesa dessa terra
“Kiô, Kiô, Kiera!”
Pinta o rosto pra vencer a ganância e o poder
No ofá a proteção nativa
Na luta em defesa da floresta
A saudar seu Sete Flechas
Firma o ponto locomotiva
Com o enredo “Aruanayê: Guardiãs dos Mistérios Ancestrais”, a Novo Império é a segunda escola a desfilar no Sambão do Povo na sexta-feira (6).
A luz que irrompe… o céu divinal
É meu Novo Império… paixão imortal
Setenta anos nesse chão de pertencer
Sou forjado pra lutar, preparado pra vencer
Lua de prata no céu
Vento ancestral a soprar
Erva que cura a dor
Fogo que faz evocar
Guerreiras das matas e as xamãs
Duas forças guardiãs
Emanadas no tambor
A forja em tradições, num ritual
Terra e luz Celestial
Em um pacto de amor
Aruanayê Aruanayê
Chama as almas da floresta pra nos proteger
Manda embora invasor
Com seus raios e trovões
paz ao ventre da mãe Terra
Humaniza os corações
O destino então selado
Vive em cada lua cheia
Canta o ar que beira o rio
No silêncio da aldeia
Dos espíritos legado cantoria em gratidão
Onde a água abraça a vida
Perpetua a união…
Vem que a lenda é um cristal
Resistência natural
De mulheres a lutar
Sou a família imperial
Quilombola, original
Nem mesmo o tempo pode nos curvar
A terceira escola a desfilar no Carnaval Capixaba será a Unidos de Jucutuquara. A escola aposta em “Arreda Homem que Aí Vem Mulher” como enredo neste ano.
Você sabe quem eu sou pela minha gargalhada
A rainha dessas ruas, da encruzilhada
Sou eu, sou eu! Sou Maria, sou Odara
A Padilha da Nação Jucutuquara
Deu meia noite, galo canta na porteira
O clarão da lua cheia ilumina o caminhar
Tentaram apagar a minha história
Feito brasa na fogueira insisto em queimar
De saia rodada na madrugada
Fiz altar no cruzeiro
Se meu trono é renegado, coroada no terreiro
Ê, Calunga! Maré que vem e que vai
No sopro o vento me faz a dona do cabaré
Entre dois mundos meu encanto incorporou
Quando o ogã anunciou:
Arreda homem que aí vem mulher
Ela é Maria, Mariá
Ela é Maria, Mariá
Feitiço e sedução faço e desfaço
O meu peito é de aço e o coração de sabiá
Se meu coração é bom, a navalha é afiada
O perfume que fascina, veneno que mata
Se queres proteção peça com fé
Inimigo teu come debaixo do meu pé!
A dor que é transformada em amor
A flor que o espinho protege, não trai!
Quem bebe do meu champanhe “gira” e não cai
(Ô abre a roda pra eu passar)
A voz de quem nunca se cala é Mojubá!
A escola de samba de Vila Velha irá contar uma hstória inspirada nos estudos de Teresa da Baviera. Com o enredo “O Diário Verde de Teresa”, a MUG será a penúltima escola na sexta-feira.
Meu samba é clamor
Sentimento de vitória
Fiel retrato do legado de Teresa
A Mocidade Unida dá glória
A essa história de amor a natureza
Você que adentrou as minhas matas
Embarcou na encantada canoa pra desbravar
Catalogar a natureza capixaba
Brava mulher, bem vinda ao meu lugar
O teu diário, inventário da beleza
A riqueza na floresta um sinônimo de paz
À margem do perigo, o descanso
Que adormeceu ao canto de um coral de animais
Arauê añuã Arauê
O Espirito santo kuña é você
O encontro nativo é encantamento
Que traz o sentido pro acolhimento
E despertou
A missão não acabou
Era a promessa de um delírio inusitado
Experiência muito além da ciência
Visões de um futuro ameaçado
Canta, meu Leão
Mostra que a luta nunca foi em vão
Força meu Leão
Resistir é nosso ideal
Nos escritos teus, Paginas de Deus
Verde que emoldura o Carnaval
A última escola a entrar na avenida na sexta-feira será a Imperatriz do Forte. A escola da capital capixaba leva “Xirê – Festejos às Raízes” para o Sambão neste ano.
Xirê, é noite de xirê!
Na minha gira é bom chegar com pé no chão
Quem é filho do axé jamais bambeia
Quero ver bater de frente com o Forte São João
Chamei os tambores, clamei as aldeias
Quando o sagrado move o mundo e faz girar
Curei dissabores, firmei a candeia
Meu ritual tem raiz iorubá
A força em Ifé, Ketu e Oyó
Lunda, Banto, Jeje, é
Luz que alimenta minha fé
Do ventre do oceano, eu bradei
O açoite era mundano, resisti
Se o silêncio fala mais que minha voz
É a certeza de que alguém está por nós
Filho de santo baixou! Fez a senzala chorar!
E o batuque tomou o asfalto inteiro
A bela negra sambar! O capoeira jogar!
Gira d’Angola e de Congo no meu terreiro
Onde moram ancestrais do meu ori
Onde o mundo é capaz de ensinar
Um legado que não fere
Muito menos interfere
No seu jeito de rezar
Pra honrar o meu caminho
Já benzi nossa bandeira
Pedi bênção às baianas
E o axé pra velha guarda
Reuni os meus ogãs
Pra firmar o atabaque
Berço do samba é raiz, identidade
Imperatriz vem cantar a liberdade
A escola que abrirá os trabalhos no sábado é a Rosas de Ouro com o enredo “Cricaré das Origens, o Brasil que Nasce em São Mateus”.
Auê! Auê!
É o canto ancestral do Cricaré…
Que invoca os verdadeiros guardiões
Tupinambás, Botocudos, Aimorés
Sopra o vento pela densa mata
As histórias o meu chão quem guarda
A cor vermelha é derramada na folhagem
E aquele canto silencia sob o breu
Entre a cruz e a espada, resistência na batalha
Batizada “São Matheus”
Em nome do pai, do filho,
Mas filho do pai também sou
Porque então me escravizas
Tudo em nome do senhor
Se me fez mercadoria
Eis o meu questionamento
Benedito traz a força e Zacimba o enfrentamento
Vieram de além-mar…
E na bagagem a esperança e o suor
Tecendo sonhos por uma vida melhor
Pra cada dor fiz um poema
Sou fé que se ergue no povo a dançar
Sou o pescador que namora o luar
O raio de sol que reflete na espuma do mar
A terra onde floresce a pimenta, o café
Sou Congo, Jongo e quilombo,
Sou eu quem resiste ao tempo e ao que vier
Eu quero ver o povo se emocionar
Emoldurar minha história na avenida
Em cada verso a inspiração de Deus
Rosas de Ouro reescrevendo São Matheus
A escola do Centro de Vitória será a segunda a entrar na avenida no sábado. Neste ano, o enredo será “O Canto Livre de Papo Furado”.
Bate forte no couro, deixa o pelo arrupiar
Hoje tem festa, o morro vai coroar
O baluarte da comunidade
Viva o Rei do Quilombo Piedade!
O sino da matriz em melodia
O sol já se escondeu no horizonte
Trago no meu peito a mais querida
E recebo na descida
O amor da Fonte Grande
Sou eu o anjo preto abençoado
Fiz do morro meu altar
Acredito na força que me guia
Me protege dia a dia, faz meu canto ecoar
Sou eu a voz da liberdade
O Serrano, gente boa
Filho da simplicidade
Foi agora que eu cheguei, Doná
Pra voltar não tenho hora
Gosto de bebericar, onde a vida me levar
Nos acordes da viola (canta que eu cheguei agora)
Foi agora que eu cheguei, Doná
Tá gravado na lembrança
Com barquinhos de papel brinquei pertinho do céu
No meu tempo de criança
Me encantei… o som da natureza me inspirou
Nas toadas de congo toquei tambor
No ritmo embalado, o rock e o sapateado
Ouvindo os conselhos da vovó, a simpatia pro gogó
Boêmio… nos bares fui consagrado
Filosofando, virei o “papo furado”
Lindas canções eternizei
Mulher luz, por ti me apaixonei
À Velha Guarda, minha reverência
Obá do samba, griot da resistência
Na escola do meu coração
Quatorze vezes campeão!!
A escola de Cariacica busca o bicampeonato com o enredo sobre um personagem do congo capixaba. “João do Congo: A Voz que Dança nas Folhas da Resistência” deve animar o público.
É por ela e por você, João que eu vou cantar
Quem é Boa Vista sabe como é
Não se dobra e nem curva, não leve a mal
Sou resistência desse Carnaval
É folha que rompe o silêncio da mata
A voz que arrebata, o encantamento
O som da identidade brasileira
E dele nasceu JOÃO BANANEIRA
Alma da rua que resiste feito casca de tambor
Entre o sagrado e o profano, elo atravessador do tempo
Reza, ladainha, movimento
O fogo no sangue que mantém acesa a chama
Da Ancestralidade Africana
É roda D’água do meu Espírito Santo
Terra batida, quintal de fundamento
É canto, dança e reza
Um ser mascarado
O sincretismo num cortejo de Congado
Ele é a lenda, ele é um de nós
Ele é quem zomba e ri na cara do opressor
Se há quem duvide ele vive na esperança
E sobrevive em fantasia de criança
O grito de Cariacica pro mundo entender
Que a força da fé permanece em você
Em cada sotaque, em toda promessa
Vejam, Mãe Negra no Alto da Penha
A benção às Bodas de Ouro
Minha escola, meu maior tesouro
Com o enredo “Orí – Sua Cabeça é Seu Guia”, a Chegou o Que Faltava é a penúltima escola a entrar no Sambão do Povo.
Orí ô Olóore Orí Jè o
Orí ô Olóore Orí Jè o
Cabeça feita, batizada no tambor
Na cumeeira onde mora meu Xangô
Orí! Ajalá dá o poder
ao herói que tudo vê…
Orunmilá
Que o axé da minha escola prevaleça
Alimento a Cabeça
que a Vitória há de chegar
Faço o meu ritual…
Entrego a Iemanjá
Recebo a força do céu,
Caminho com meu eledá
Que vai reger eternamente
O corpo, a mente, Ayê, Orum
Bori, alimento sagrado
Sacia de axé o País
E junta dois mundos
na mesma raiz
Irokô ê!
Eis a árvore sagrada
Ê tempo ê!
É princípio, meio e fim
Guardiões do meu terreiro,
Ilê Capixaba
Raiz nagô que vive em mim
Salve Orí de Meia-Légua,
Benedito de Ogum!
Onde ecoa a liberdade
A saudade é adarrum
É coroa de Obá…
Força que não se apaga
Negra Ana de Matamba…
Zacimba Gaba
De Reritiba meu Oxóssi,
feiticeiro e pajé
Lembro de Cancão
do orixá do meu axé
O caráter por princípio…
águas claras de Oxum
Quando a mente é terra fértil,
é semente de Omulu
Bons pensamentos
são das ervas de Ossain
O fogo é fruto
das crianças de Ayrá.
Chegou o Que Faltava
O que eu sempre quis
Na coroa de Oxalá,
Pai de todos os orís.
Para fechar o Carnaval capixaba de 2026, a Andaraí entrará na avenida embalada com o enredo “01/12/46. Neste ano, a escola escolheu fazer uma homenagem à sua própria história.
Arroboboi Oxumarê
Hora de agradecer, nosso lugar é aqui
Quem tem fé, faz o sonho acontecer
Na constelação Andaraí
Quando a estrela cadente riscou
O céu do Mulembá abençoado
O sol em Sagitário confirmou
Flecha lançada, destino traçado
Uma serpente dourada
No arco-íris desceu
Em Áries, a felicidade
A inspiração vem da paixão do futebol
Caxias, um parceiro de verdade
Nos orixás… a luz da ancestralidade
Vem com o que tem
Onde tudo começou
Nesse manto verde e rosa, uma história de amor
Puro veneno, batucada de primeira
Nossa madrinha, quem é… Mangueira!
Yes, nós temos Bahia
Mistério à luz do luar
Pedras preciosas, magia das cores
Santa Martha, o dom de superar
Na travessia dos portais da ilusão
Cantamos pra vovó e pra infância
Pinga marvada pra curtir a emoção
Tantos momentos que ficaram na lembrança
Cada desfile é corpo, alma e coração
A malandragem é não perder a esperança