Guerras parecem distantes, até aparecerem no preço das coisas mais básicas. Para os Capixabas, o impacto não vem por manchete internacional, mas pela rotina: o café que sobe, a feira que oscila, o supermercado que perde previsibilidade. E o ponto de partida dessa história é claro: energia.
Sempre que há conflito relevante no cenário global, o primeiro ajuste acontece no petróleo. Não necessariamente por falta imediata, mas pelo risco: O mercado passa a precificar incerteza. O resultado é conhecido: diesel, gasolina e derivados em geral mais caros. E, em uma economia onde quase tudo depende de transporte, isso se espalha rápido. No agro capixaba, esse efeito é direto. O insumo chega por caminhão, a produção sai por caminhão, e qualquer aumento no diesel entra duas vezes na conta.
Mas o impacto não para no frete. Energia mais cara também encarece fertilizantes, especialmente os nitrogenados, que dependem de gás natural. Como o Brasil importa cerca de 85% dos fertilizantes que consome, o produtor local não tem alternativa: produzir fica mais caro. E aqui entra uma característica importante do agro capixaba, ele é intensivo em insumo por hectare. Culturas como café, pimenta-do-reino, gengibre e hortifruti exigem adubação frequente. Ou seja, qualquer aumento global bate cheio no custo local.
A partir daí, o efeito deixa de ser técnico e vira preço. No café, principal produto do estado, o produtor passa a operar com custo mais alto, mas continua vendendo para o mercado internacional. Em muitos momentos, o preço externo compensa, e isso cria um incentivo natural para exportar. O resultado é que o preço interno passa a seguir essa referência. Não é falta de produto, é o preço sendo definido fora.
Na pimenta-do-reino, aparece uma particularidade relevante. O Oriente Médio é um comprador importante, e tensões na região não derrubam a demanda, mas encarecem frete, seguro e tempo de entrega. O produtor passa a lidar com mais risco e custo logístico, e isso se traduz em preços mais voláteis, tanto na exportação quanto no mercado interno.
Produtos mais sensíveis à logística, como mamão e gengibre, sentem ainda mais rápido. Com transporte mais caro e menos eficiente, qualquer ajuste precisa ser feito na ponta. E a ponta é o consumidor.
Esse movimento ainda se espalha pela cadeia. Grãos mais caros encarecem ração. Ração mais cara pressiona ovos e carnes. O frete elevado entra no preço final de praticamente tudo. O que chega para o consumidor não é um grande choque, mas uma sequência de reajustes menores, contínuos, difíceis de perceber isoladamente, mas pesados no conjunto.
No fim, o caminho é simples: a guerra pressiona o petróleo, o petróleo encarece o transporte e os insumos, e isso redefine o custo de produzir e consumir alimento. Para nós Capixabas, isso se traduz em algo direto: o dinheiro rende menos na feira e no supermercado, não por um único motivo visível, mas por uma cadeia inteira que começou lá fora e terminou aqui. Agora é ver aonde essa tensão global vai parar.
Sobre o autor
*Gabriel Cecco é sócio e assessor de investimentos da VALOR Investimentos.





