No meio da mata, em uma área conhecida como Água Santa, no interior de Iúna, duas rochas encostadas uma na outra formam uma passagem tão estreita que só dá para atravessar de lado. Mesmo assim, visitantes de diferentes tamanhos e tipos físicos costumam se arriscar na travessia, espremendo o corpo entre as pedras. Quem chega perto logo entende por que o lugar ganhou um nome que desperta curiosidade: Pedra do Pecado.
A travessia virou quase um ritual entre visitantes. A tradição popular diz que quem consegue passar pela fenda deixa os pecados para trás. Mas a história contada pelos moradores tem um detalhe: se alguém ficar preso ali, dizem que só consegue sair com a presença de um padre.
A fenda estreita, escondida em meio à vegetação, acabou transformando o lugar em um ponto conhecido na região. O que começa como curiosidade geológica rapidamente se mistura a relatos de fé, histórias antigas e memórias que atravessam gerações no município. O espaço também passou a atrair visitantes interessados em turismo religioso, já que muitos chegam ao local movidos pela fé, pela tradição das romarias e pelas histórias associadas à Pedra do Pecado e à nascente de Água Santa.
Uma história que começa no século XIX
O historiador Marcio do Nascimento Santana explica que as origens das histórias ligadas à Pedra do Pecado remontam ao período em que o território de Iúna começou a ser desbravado.
Segundo ele, os primeiros homens considerados “civilizados” a explorar as matas da região faziam parte das expedições responsáveis pela construção da Estrada Real São Pedro de Alcântara, lideradas pelo tenente-coronel Ignácio Pereira Duarte Carneiro. Portugueses e brasileiros passaram a ocupar o território ao lado das famílias contratadas para cuidar dos quartéis e dos soldados responsáveis pela guarnição da estrada.
Entre eles estava Frei Bento di Gênova, religioso da ordem dos Capuchinhos e pároco da localidade.
De acordo com o historiador, a pedra era um local onde o frei costumava se recolher. “Era cultural entre os religiosos buscar refúgio entre as pedras. Um exemplo famoso é o franciscano Pedro Palácios. O frade espanhol que fundou o Convento da Penha em Vila Velha, assim que chegou à Vila do Espírito Santo, segundo a história, só foi encontrado pelos moradores três dias depois, descansando sob uma gruta existente no sopé do morro, ali mesmo, na margem da Prainha, lugar que ficou sendo sua primeira morada, e que existe até hoje”, explica.
A fama da fenda começou a se espalhar a partir de um episódio ocorrido em 1866. “Em Iúna, a ‘fama’ do local começou em 1866. O Frei Bento foi encontrado morto na fenda entre as rochas. Surgiu assim a história que a fenda absorve os pecados”, relata.
A penitência que virou tradição

Com o passar dos anos, a narrativa popular acrescentou novos elementos à história da pedra. Marcio Santana comenta que a tradição transmitida entre os moradores diz que atravessar a fenda pode absolver pecados, mas não basta passar uma única vez. “A sabedoria popular garante que a pedra absolve os pecados, mas o milagre não vem de graça. O pecador precisa passar três vezes pela fenda”, afirma.
A explicação para essa prática também estaria ligada ao comportamento do próprio Frei Bento. O historiador conta que, naquela época, penitências físicas eram comuns entre religiosos.
“Essa tradição também vem do frei Bento di Gênova. Era comum entre os religiosos à época se infligirem dores e penitências para ‘desfocar’ a mente dos pensamentos pecaminosos. São Francisco de Assis, por exemplo, pôs as mãos na lareira. Frei Bento se esfregava entre as formações rochosas sempre que pensamentos maliciosos o acometiam”, comenta.
A nascente ligada a Santa Luzia
A Pedra do Pecado está dentro do Parque da Água Santa, área que também guarda outra história conhecida pelos moradores da região.
Ali existe um poço alimentado por uma nascente que, segundo relatos da comunidade, nunca secou nem mesmo durante períodos de estiagem severa.
De acordo com a tradição local, em 1899 uma grande seca atingiu a região, mas a água da nascente continuou brotando normalmente. A população passou a buscar água no local enquanto fazia orações pedindo o fim da estiagem.
Segundo os relatos preservados na comunidade, a chuva voltou no dia 13 de dezembro, data dedicada a Santa Luzia.
“Os moradores contam que em 1899 uma seca castigou a região, mas não as águas da nascente, única que não secou. A população ia até lá buscar água e pedir o fim da seca. A chuva veio no dia 13 de dezembro, Dia de Santa Luzia. A graça, dizem os devotos, foi por intercessão da santa”, explica o historiador.
Desde então, fiéis realizam romarias até o local em busca de graças e cura de enfermidades.
O reconhecimento como local de peregrinação
No site da Diocese de Cachoeiro de Itapemirim, o pároco da Paróquia Nossa Senhora Mãe dos Homens, em Iúna, padre Marconi José de Andrade, explica que a Igreja Católica reconhece o espaço como um santuário de peregrinação.
Ao comentar a crença popular de que os pecados são absolvidos ao atravessar a fenda na rocha, o sacerdote ressalta que o perdão está ligado ao sacramento da confissão.
“Depois do Batismo não é possível obter o perdão dos pecados mortais sem a Confissão, embora seja possível antecipar o perdão com a contrição perfeita acompanhada do propósito de confessar-se. Por isso, aquele que faz a passagem pela fenda com o coração verdadeiramente arrependido certamente alcança a misericórdia divina”, afirma.





